segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

FELIZ 2013

Caros amigos do MFPC
Neste novo ano:
“Dê amor e carinho e receberá igual ou mais ...
Tenha a paz no seu coração e voará tão alto que jamais será  alcançado(a) pelo mal...
Brinde sem exageros e terá o equilíbrio, a vida...
Creia que é capaz e alcançará seus objetivos.
Acredite... uma boa idéia se transformará numa realização...
Preserve a própria vida e respeite a vida alheia.
Economize, mas com sabedoria. Não deixe de viver a vida por economia a pouco dinheiro e nem se venda por ele.
Ame com intensidade. Não tenha medo de alcançar as estrelas.
Encontre-se com Deus todos os dias... assim tudo se tornará muito mais simples e o seu ano será Iluminado!”.
FELIZ 2013 PARA TODOS COM MUITA PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.

Com Carinho
Coordenação do MFPC

1o DE JANEIRO - DIA MUNDIAL DA PAZ

Celebrado no dia 1º de janeiro, o Dia Mundial da Paz é uma data que foi criada para que todas as pessoas, cristãs e não cristãs, se unissem em prol da paz no planeta. Há 45 anos, o papa Paulo VI, divulgou uma mensagem, em 8 de dezembro, para que a data fosse celebrada sempre no primeiro dia do ano civil (1º de janeiro), a partir do ano de 1968.
Seguindo a tradição, a mensagem do sumo pontífice, para o Dia Mundial da Paz 2013, foi apresentada em coletiva de imprensa no dia 14 de dezembro, na Sala de Imprensa do Vaticano.

Leia a mensagem:

Dia Mundial da Paz

1º de janeiro de 2013

Bem-aventurados os obreiros da paz



1. Cada ano novo traz consigo a expectativa de um mundo melhor. Nesta perspectiva, peço a Deus, Pai da humanidade, que nos conceda a concórdia e a paz a fim de que possam tornar-se realidade, para todos, as aspirações duma vida feliz e próspera.

A distância de 50 anos do início do Concílio Vaticano II, que permitiu dar mais força à missão da Igreja no mundo, anima constatar como os cristãos, Povo de Deus em comunhão com Ele e caminhando entre os homens, se comprometem na história compartilhando alegrias e esperanças, tristezas e angústias, anunciando a salvação de Cristo e promovendo a paz para todos.

Na realidade o nosso tempo, caracterizado pela globalização, com seus aspectos positivos e negativos, e também por sangrentos conflitos ainda em curso e por ameaças de guerra, requer um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de todo o homem e do homem todo.

Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado. Além de variadas formas de terrorismo e criminalidade internacional, põem em perigo a paz aqueles fundamentalismos e fanatismos que distorcem a verdadeira natureza da religião, chamada a favorecer a comunhão e a reconciliação entre os homens.

E no entanto as inúmeras obras de paz, de que é rico o mundo, testemunham a vocação natural da humanidade à paz. Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem é feito para a paz, que é dom de Deus.

Tudo isso me sugeriu buscar inspiração, para esta Mensagem, às palavras de Jesus Cristo: «Bem–aventurados os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9).

A bem-aventurança evangélica

2. As bem-aventuranças proclamadas por Jesus (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23) são promessas. Com efeito, na tradição bíblica, a bem-aventurança é um género literário que traz sempre consigo uma boa nova, ou seja um evangelho, que culmina numa promessa. Assim, as bem-aventuranças não são meras recomendações morais, cuja observância prevê no tempo devido – um tempo localizado geralmente na outra vida – uma recompensa, ou seja, uma situação de felicidade futura; mas consistem sobretudo no cumprimento duma promessa feita a quantos se deixam guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor. Frequentemente, aos olhos do mundo, aqueles que confiam em Deus e nas suas promessas aparecem como ingénuos ou fora da realidade; ao passo que Jesus lhes declara que já nesta vida – e não só na outra – se darão conta de serem filhos de Deus e que, desde o início e para sempre, Deus está totalmente solidário com eles. Compreenderão que não se encontram sozinhos, porque Deus está do lado daqueles que se comprometem com a verdade, a justiça e o amor. Jesus, revelação do amor do Pai, não hesita em oferecer-Se a Si mesmo em sacrifício. Quando se acolhe Jesus Cristo, Homem-Deus, vive-se a jubilosa experiência de um dom imenso: a participação na própria vida de Deus, isto é, a vida da graça, penhor duma vida plenamente feliz. De modo particular, Jesus Cristo dá-nos a paz verdadeira, que nasce do encontro confiante do homem com Deus.

A bem-aventurança de Jesus diz que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana. Na verdade, a paz pressupõe um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha. Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teorico-práticos meramente subjectivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem. A paz é construção em termos racionais e morais da convivência, fundando-a sobre um alicerce cuja medida não é criada pelo homem, mas por Deus. Como lembra o Salmo 29, « o Senhor dá força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com a paz » (v. 11).

A paz: dom de Deus e obra do homem

3. A paz envolve o ser humano na sua integridade e supõe o empenhamento da pessoa inteira: é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação. Como escreveu o Beato João XXIII na Encíclica Pacem in terris – cujo cinquentenário terá lugar dentro de poucos meses –, a paz implica principalmente a construção duma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça.A negação daquilo que constitui a verdadeira natureza do ser humano, nas suas dimensões essenciais, na sua capacidade intrínseca de conhecer a verdade e o bem e, em última análise, o próprio Deus, põe em perigo a construção da paz. Sem a verdade sobre o homem, inscrita pelo Criador no seu coração, a liberdade e o amor depreciam-se, a justiça perde a base para o seu exercício.

Para nos tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à dimensão transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai misericordioso, pelo qual se implora a redenção que nos foi conquistada pelo seu Filho Unigénito. Assim o homem pode vencer aquele germe de obscurecimento e negação da paz que é o pecado em todas as suas formas: egoísmo e violência, avidez e desejo de poder e domínio, intolerância, ódio e estruturas injustas.

A realização da paz depende sobretudo do reconhecimento de que somos, em Deus, uma única família humana. Esta, como ensina a Encíclica Pacem in terris, está estruturada mediante relações interpessoais e instituições sustentadas e animadas por um «nós» comunitário, que implica uma ordem moral, interna e externa, na qual se reconheçam sinceramente, com verdade e justiça, os próprios direitos e os próprios deveres para com os demais. A paz é uma ordem de tal modo vivificada e integrada pelo amor, que se sentem como próprias as necessidades e exigências alheias, que se fazem os outros comparticipantes dos próprios bens e que se estende sempre mais no mundo a comunhão dos valores espirituais. É uma ordem realizada na liberdade, isto é, segundo o modo que corresponde à dignidade de pessoas que, por sua própria natureza racional, assumem a responsabilidade do próprio agir.

A paz não é um sonho, nem uma utopia; a paz é possível. Os nossos olhos devem ver em profundidade, sob a superfície das aparências e dos fenómenos, para vislumbrar uma realidade positiva que existe nos corações, pois cada homem é criado à imagem de Deus e chamado a crescer contribuindo para a edificação dum mundo novo. Na realidade, através da encarnação do Filho e da redenção por Ele operada, o próprio Deus entrou na história e fez surgir uma nova criação e uma nova aliança entre Deus e o homem (cf. Jr 31, 31-34), oferecendo-nos a possibilidade de ter « um coração novo e um espírito novo » (cf. Ez 36, 26).

Por isso mesmo, a Igreja está convencida de que urge um novo anúncio de Jesus Cristo, primeiro e principal factor do desenvolvimento integral dos povos e também da paz. Na realidade, Jesus é a nossa paz, a nossa justiça, a nossa reconciliação (cf. Ef 2, 14; 2 Cor 5, 18). O obreiro da paz, segundo a bem–aventurança de Jesus, é aquele que procura o bem do outro, o bem pleno da alma e do corpo, no tempo presente e na eternidade.

A partir deste ensinamento, pode-se deduzir que cada pessoa e cada comunidade – religiosa, civil, educativa e cultural – é chamada a trabalhar pela paz. Esta consiste, principalmente, na realização do bem comum das várias sociedades, primárias e intermédias, nacionais, internacionais e a mundial. Por isso mesmo, pode-se supor que os caminhos para a implementação do bem comum sejam também os caminhos que temos de seguir para se obter a paz.

Obreiros da paz são aqueles que amam,defendem e promovem a vida na sua integridade

4. Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspectos, a começar da concepção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida.

Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida humana, chegando a defender, por exemplo, a liberalização do aborto, talvez não se dêem conta de que assim estão a propor a prossecução duma paz ilusória. A fuga das responsabilidades, que deprecia a pessoa humana, e mais ainda o assassinato de um ser humano indefeso e inocente nunca poderão gerar felicidade nem a paz. Na verdade, como se pode pensar em realizar a paz, o desenvolvimento integral dos povos ou a própria salvaguarda do ambiente, sem estar tutelado o direito à vida dos mais frágeis, a começar pelos nascituros? Qualquer lesão à vida, de modo especial na sua origem, provoca inevitavelmente danos irreparáveis ao desenvolvimento, à paz, ao ambiente. Tão pouco é justo codificar ardilosamente falsos direitos ou opções que, baseados numa visão redutiva e relativista do ser humano e com o hábil recurso a expressões ambíguas tendentes a favorecer um suposto direito ao aborto e à eutanásia, ameaçam o direito fundamental à vida.

Também a estrutura natural do matrimônio como união entre um homem e uma mulher, deve ser reconhecida e promovida contra as tentativas de a tornar, juridicamente, equivalente a formas radicalmente diversas de união que, na realidade, a prejudicam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu carácter peculiar e a sua insubstituível função social.

Estes princípios não são verdades de fé, nem uma mera derivação do direito à liberdade religiosa; mas estão inscritos na própria natureza humana – sendo reconhecíveis pela razão – e consequentemente comuns a toda a humanidade. Por conseguinte, a ação da Igreja para os promover não tem carácter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, independentemente da sua filiação religiosa. Tal ação é ainda mais necessária quando estes princípios são negados ou mal entendidos, porque isso constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma ferida grave infligida à justiça e à paz.

Por isso, uma importante colaboração para a paz é dada também pelos ordenamentos jurídicos e a administração da justiça quando reconhecem o direito ao uso do princípio da objecção de consciência face a leis e medidas governamentais que atentem contra a dignidade humana, como o aborto e a eutanásia.

Entre os direitos humanos basilares mesmo para a vida pacífica dos povos, conta-se o direito dos indivíduos e comunidades à liberdade religiosa. Neste momento histórico, torna-se cada vez mais importante que este direito seja promovido não só negativamente, como liberdade de – por exemplo, de obrigações e coacções quanto à liberdade de escolher a própria religião –, mas também positivamente, nas suas várias articulações, como liberdade para: por exemplo, para testemunhar a própria religião, anunciar e comunicar a sua doutrina; para realizar atividades educativas, de beneficência e de assistência que permitem aplicar os preceitos religiosos; para existir e actuar como organismos sociais, estruturados de acordo com os princípios doutrinais e as finalidades institucionais que lhe são próprias. Infelizmente vão-se multiplicando, mesmo em países de antiga tradição cristã, os episódios de intolerância religiosa, especialmente contra o cristianismo e aqueles que se limitam a usar os sinais identificadores da própria religião.

O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento econômico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos.

E, entre os direitos e deveres sociais atualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é devido ao facto, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente valorizados, porque o crescimento econômico dependeria sobretudo da liberdade total dos mercados. Assim o trabalho é considerado uma variável dependente dos mecanismos econômicos e financeiros. A propósito disto, volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões econômicas sociais e políticas exigem que se continue « a perseguir como prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção ».4 Para se realizar este ambicioso objectivo, é condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e ousadas políticas de trabalho para todos.

Construir o bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia

5. De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades de escolha devem ser empregues de acordo com a perspectiva duma vida boa, duma conduta recta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando por erguer novos ídolos.

Para sair da crise financeira e econômica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo econômico O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa óptica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento econômico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom. Concretamente na atividade econômica o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a atividade econômica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos.

No âmbito econômico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias–primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes econômicos e com um controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objectivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e econômico.

Educação para uma cultura da paz:o papel da família e das instituições

6. Desejo veementemente reafirmar que os diversos obreiros da paz são chamados a cultivar a paixão pelo bem comum da família e pela justiça social, bem como o empenho por uma válida educação social.

Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, económico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida: acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre si através do cuidado recíproco. De modo especial, a família cristã guarda em si o primordial projecto da educação das pessoas segundo a medida do amor divino. A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização duma cultura da paz. É preciso tutelar o direito dos pais e o seu papel primário na educação dos filhos, nomeadamente nos âmbitos moral e religioso. Na família, nascem e crescem os obreiros da paz, os futuros promotores duma cultura da vida e do amor.

Nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas de modo particular as comunidades dos crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça.

Uma missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais, escolásticas e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para uma reflexão científica que radique as atividades econômicas e financeiras numa sólida base antropológica e ética. O mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz.

Uma pedagogia do obreiro da paz

7. Concluindo, há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados. Com efeito, as obras de paz concorrem para realizar o bem comum e criam o interesse pela paz, educando para ela. Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade e uma cultura da paz, uma atmosfera de respeito, honestidade e cordialidade. Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância. Incentivo fundamental será « dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas sem as buscar e, finalmente, perdoar »,7 de modo que os erros e as ofensas possam ser verdadeiramente reconhecidos a fim de caminhar juntos para a reconciliação. Isto requer a difusão duma pedagogia do perdão. Na realidade, o mal vence-se com o bem, e a justiça deve ser procurada imitando a Deus Pai que ama todos os seus filhos (cf. Mt 5, 21-48). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança.

Jesus encarna o conjunto destas atitudes na sua vida até ao dom total de Si mesmo, até «perder a vida» (cf. Mt 10, 39; Lc 17, 33; Jo 12, 25). E promete aos seus discípulos que chegarão, mais cedo ou mais tarde, a fazer a descoberta extraordinária de que falamos no início: no mundo, está presente Deus, o Deus de Jesus Cristo, plenamente solidário com os homens. Neste contexto, apraz-me lembrar a oração com que se pede a Deus para fazer de nós instrumentos da sua paz, a fim de levar o seu amor onde há ódio, o seu perdão onde há ofensa, a verdadeira fé onde há dúvida. Por nossa vez pedimos a Deus, juntamente com o Beato João XXIII, que ilumine os responsáveis dos povos para que, junto com a solicitude pelo justo bem-estar dos próprios concidadãos, garantam e defendam o dom precioso da paz; inflame a vontade de todos para superarem as barreiras que dividem, reforçarem os vínculos da caridade mútua, compreenderem os outros e perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias, de tal modo que, em virtude da sua ação, todos os povos da terra se tornem irmãos e floresça neles e reine para sempre a tão suspirada paz.

Com esta invocação, faço votos de que todos possam ser autênticos obreiros e construtores da paz, para que a cidade do homem cresça em concórdia fraterna, na prosperidade e na paz.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2012.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ben-xvi_mes_20121208_xlvi-world-day-peace_po.html

sábado, 29 de dezembro de 2012

O QUE ESPERAR DE 2013


Valmor Bolan
O ano de 2012 chega ao fim, sem os acontecimentos apocalípticos previstos já há alguns anos. Isso não quer dizer que vivemos no melhor dos mundos possíveis, como queria o velho Pangloss. Mas o fato é que essas ondas milenaristas vão e vem, a cada época, e desnorteia a cabeça de muitos, que embarcam em toda espécie de especulações, bastante imaginativas. Agora mesmo, já rodam pela Internet novas teses sobre o Anticristo, alguns dizendo que se trata do príncipe William (http://juizofinal.wordpress.com/2010/07/20/manifestacao-do-anticristo-por-que-a-possibilidade-de-ser-o-principe-william/), outros até de que o papa João Paulo II irá ressuscitar em breve, etc. No caso do príncipe William, que completou 30 anos em 2012, dizem que emergirá como liderança mundial a partir de 2013, cujo período de manifestação pública relevante será dos 30 aos 33 anos, em meio à grande crise global em curso. E por aí afora. Se dermos crédito a tudo isso, não fazemos mais nada. Por isso é bom que 2012 tenha acabado sem que as três principais previsões tenham sido concretizadas: 1) manifestação do Anticristo, em 15 de fevereiro; 2) início da 3ª Guerra Mundial com fuga do papa do Vaticano, a partir de 23 de maio; e 3) convulsão planetária em decorrência da queda de um meteorito, em 21 de dezembro. Ufa! É um punhado de coisas impactantes de assustar a muitos, mas transcorrido 2012, nada disso aconteceu como previram. Podemos então comemorar 2013.

De qualquer forma, cabe ressaltar, que o fato de tais acontecimentos não terem ocorrido com muitos previram, não significa que estamos no melhor dos mundos. É certa a instabilidade, a crescente violência, a desagregação familiar, os abusos no consumo, os desperdícios, a corrupção política e as guerras, e muito mais. O recente atentado numa escola norte-americana volta a tona o debate sobre a violência juvenil. A tensão no Oriente Médio, de modo especial na Síria e em Israel, deixa todos apreensivos. Tudo isso nos leva a refletir sobre o sentido da vida e nos torna mais vigilantes. Há muito o que fazer para se alcançar um mundo mais de acordo com os princípios da justiça e da paz, mas o que podemos fazer em meio a tantas ameaças? Temos que ser humildes e fazer a nossa parte, em nosso cotidiano, com a realidade a nossa volta, com os que estão perto de nós. É por aí que começamos a transformar o mundo. Mais do que isso, o que podemos fazer? Mais do que isso é incorrer nestes desvarios de fim do mundo e nas patologias e excessos que, vira e mexe, aparecem a cada época. Daí que esperamos para 2013 um tempo de humildade, de pé no chão de trabalhar com a realidade, de sermos mais cuidados com as pequenas coisas do dia-a-dia, porque podemos mesmo muito pouco. Mas o pouco que fazemos, se for bem feito, já é muito.

Cabe lembrar que teremos no Brasil, um grande acontecimento em 2013: a nova visita do papa Bento XVI, para a Jornada Mundial da Juventude. Aproveitemos então a graça deste acontecimento para, com a mensagem do papa, vivermos melhor o sentido de Deus e o sentido da vida, em cada momento de 2013. Feliz Ano Novo para todos!

O autor, Valmor Bolan, é doutor em Sociologia e presidente da Conap/MEC - Comissão Nacional de Acompanhamento e Controle Social da Universidade Para Todos-Prouni

CONFRATERNIZAÇÃO AVE - 2012


No dia 27 de dezembro realizou-se na sede do AVE em Messejana, Ceará a Festa de Confraternização do AVE, obra social mantida pelo casal Padre Miguel Brandão e Maria de Lourdes, que estiveram presentes. As festividades foram compostas de Missa, Teatro, Música e um maravilhoso almoço. Compareceram mais de 100 velhinhos atendidos pela obra que receberam presentes e cestas básicas. AVE - é uma instituição que: Promove o irmão que luta - Promoção humana e Acolhe o idoso - ANCIAVE.
Maria de Lourdes Ribeiro Brandão - Fundadora e Presidente do AVE
Endereço: Rua Dr. Pergentino Maia, 1454 - Messejana -
CEP.: 60840-040

Fortaleza - Ceará - Telefones: 3474.0840 - 3229.1988







 

ANIVERSÁRIO PADRE AROLDO


No último dia 23 de dezembro de 2012 o nosso querido Padre Antônio Aroldo de Aquino completou mais um ano da sua grande existência. Neste dia ele reuniu familiares, amigos e membros do MFPC Ceará em torno de sua comemoração de uma vida feliz em prol da família, dos amigos e irmãos.
O padre Aroldo é o tesoureiro estadual do MFPC e é casado com MARGARIDA M. P. DE AQUINO e tem filhos: Mirtes, Milena, David e Mirele.
Nada como chegar nesta data e ver tudo que passamos, o quanto somos querido neste mundo que vivemos. É muito bom saber, que os anos vão, a idade chega, e você sempre continua o mesmo, sempre com o mesmo sorriso, sempre com a mesma alegria de viver. As comemoração tiveram início com a Santa Missa e logo após um maravilhoso almoço na residência do casal.
 
Carlos e Rosa - Secretaria - MFPC - Ceará
 









 

HORIZONTES DA RELIGIÃO (em cinco pontos)


Gostaria de delinear aqui, de forma muito abreviada, alguns horizontes que condicionam nossa visão da religião. Não enxergar esses horizontes é correr o perigo de cometer erros graves de interpretação em termos de análise da religião. São cinco pontos. 1. Religião não é conhecimento. Para nossos antepassados, religião significava conhecimento. No largo período entre os anos 2000 aC e 1000 dC (entre o antigo império egípcio e a expansão do islã), em todo o âmbito da África do norte, do oriente médio e da Europa do sul, o culto a Deus era tido como ‘ciência’. Tudo era interpretado por meio de imagens religiosas como caos e cosmos, criação e fim de mundo, céu e inferno, bem e mal, virtude e pecado, salvação e condenação, deus e satanás, vida e morte. Só a partir do ano mil da era cristã a compreensão da religião e dos textos religiosos começa a mudar. Há uma lenta e progressiva secularização da vida e do conhecimento que desemboca nos tempos em que vivemos. 2. Religião não é representação Quando se fala em religião, a primeira coisa que costuma vir à mente é sua representação. Pensamos em religião protestante, islâmica, espírita, católica, hindu, budista, embora muitos já percebam que religião não é o mesmo que doutrina, moral ou dogma. Instâncias que organizam a vida religiosa não devem ser confundidas com a religião em si. O dogma , por exemplo, expressa o consenso estabelecido entre participantes de uma determinada assembléia em torno de um ponto controvertido. Pertence, portanto, ao registro da representação política. O mesmo se diga da celebração religiosa. Em si, a celebração não é um ato religioso, se por religião se entende aquilo que passa na intimidade da pessoa (fascínio, emoção, sonho, encanto). Há como celebrar cerimônias religiosas com dignidade, sem que as pessoas envolvidas estejam necessariamente imbuídas de sentimentos religiosos. 3. Religião tem a ver com sistema neural. A religião pertence ao ser íntimo da pessoa. Jorra da mesma fonte que produz música, poesia e arte. Há neurocientistas que afirmam que a própria constituição de nosso corpo explica as persistentes tendências religiosas que observamos ao longo da história da humanidade. A religião seria a expressão de uma capacidade específica do ser humano, que consistiria na capacidade de ‘sentir’ a presença de algo que não se manifesta diretamente aos cinco sentidos, mas - de uma ou outra forma - se ‘revela’. Algo como pressentir, no tremular do capim, a possível presença de uma cobra. A cobra se ‘revela’ por sinais quase imperceptíveis. Da mesma forma, Deus se nos ‘revela’ e nos fornece uma explicação plausível para o emaranhado de eventos que defrontamos na vida. Em suma, a capacidade de descobrir alguma ‘revelação’ nas coisas ou nos acontecimentos e de costurar esses eventos ‘revelados’ em enredo coeso constituiria o que chamamos religião. Vale a pena acompanhar o que um neurocientista como Antônio Damásio tem a dizer sobre esse assunto, especialmente quando escreve sobre o ‘cérebro sensível’ (the feeling brain) e que ‘o cérebro cria o homem’. 4. Religião não serve para explicar as coisas. O discurso religioso não profere afirmações de cunho cognitivo nem emite opiniões. Não diz a verdade nem erra, se por verdade e erro entendemos coisas relacionadas à cognição. Só erra (ou acerta) quem emite opinião . O discurso religioso não tem opinião a defender, pois não descreve ocorrências nem define objetos. Sua função consiste em expressar sentimentos, dinamizar ações, oferecer segurança, ativar esperança, abrir horizontes. No momento em que se quer saber qual o conteúdo cognitivo de determinadas terminologias religiosas (como encarnação, aparição, ressurreição, ascensão, céu, inferno, milagre, salvação), elas perdem seu sentido. Pois a religião não serve para explicar as coisas, ela nos transporta para além do universo da cognição e nos introduz no universo propriamente humano da ação e revelação (no sentido acima indicado), do desejo, da esperança, do compromisso. A religião não é nem indicativa, nem afirmativa, nem informativa. Quando alguém diz ‘tenho fé em Deus’, ele não está se referindo a uma ocorrência, mas a uma ‘revelação’. Ele está em busca de um sentido para a vida. Por isso mesmo, quem diz ‘não penso em Deus’, não diz o contrário de quem diz: ‘tenho fé em Deus’. Apenas sente as coisas de maneira diferente. Quem diz ‘depois de minha morte, serei julgado por Deus’ não contradiz aquele que diz ‘eu não penso no último juízo’. Pois aqui não se trata de opiniões, mas de sentimentos. É por isso que religião não se discute. Como não respeitar quem beija a foto de um ser querido, manda celebrar uma missa por seu pai falecido ou pede a absolvição dos pecados antes de morrer? Ateísmo e religião não são teorias rivais, são sentimentos diferentes. 5. Finalmente: não conhecemos a Deus. Somos herdeiros de uma longa tradição bíblica, o que nos pode dar a impressão que ‘conhecemos a Deus’. Mas, já no século XVII, o filósofo Spinoza (1633-1677) nos mostrou os perigos dessa pretensão. Ele lembra que, embora todos os teólogos digam que Deus é mistério e que esse mistério não é desvendado pela bíblia, houve sempre tentativas para descobrir vestígios de Deus nos relatos bíblicos. Finalmente chegou-se à conclusão que esses pretensos relatos são na realidade obras literárias, com tudo que isso implica. Aos poucos, por meio de estudos pormenorizados, os pretensos relatos bíblicos, do livro êxodo, por exemplo, vão sendo despojados de sua base histórica. Até hoje nenhum documento ou monumento do Egito antigo encontrado por arqueólogos ou filólogos atesta a presença de hebreus em suas terras. Não foi encontrada em torno de Jericó a muralha mencionada no livro de Josué, apesar de exaustivas escavações. A descrição topográfica de Jerusalém feita nos textos bíblicos referentes aos reinados de Davi e Salomão não encontra nenhuma verificação arqueológica. Não se consegue descobrir em torno do monte Sinai nenhum resto (em cerâmica, por exemplo) da passagem de um importante agrupamento de pessoas por aqueles desertos, apesar do impressionante relato bíblico da permanência dos hebreus com Moisés ao pé do monte. Os caminhos da arqueologia e da bíblia levam para horizontes diferentes. Arqueologia é ciência e bíblia é literatura. Spinoza tira a conclusão que se impõe: não é sensato falar em ‘verdade’ quando se fala em Deus, pois este só se aproxima de nós em forma de imagens e comparações. O caminho para Deus passa por imaginações e afetos . Nós, seres humanos, não temos capacidade de conhecer a Deus, somos pequenos demais. Andando na superfície de um minúsculo planeta que gira em torno de uma estrela de quinta categoria, nem conseguimos tomar consciência da imensidão em que vivemos mergulhados ao longo de nossas breves vidas. Apesar de sua curiosidade incansável, de sua viva inteligência e dos enormes progressos intelectuais e materiais, o homem não avançou praticamente nada, em termos da compreensão de Deus, desde os tempos em que foi redigida a epopéia de Gilgamesh (2000 anos aC). Ele só consegue captar algo sobre Deus por meio de uma imaginação precária e incerta . Infelizmente, a filosofia religiosa de Spinoza ainda é pouco conhecida e insuficientemente valorizada entre nós.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O QUE HÁ POR TRÁS DA RELIGIOSIDADE POPULAR?

Eduardo Hoornaert Hoje em dia, já existem muitos estudos disponíveis sobre as variedades religiosas no Brasil. Num país culturalmente tão diversificado é de se esperar que também as formas religiosas sejam as mais diversas: indígenas, africanas, portuguesas, italianas ou alemãs, rurais ou urbanas, populares ou burguesas, católicas, protestantes, espíritas, islamitas, judaicas. Esse amálgama está sendo estudado sob os mais diversos ângulos e dentro das mais variadas perspectivas. Enfim, dispomos hoje de excelentes estudos sobre o assunto da religiosidade popular. Este modesto estudo pretende contribuir com uma apresentação sobre a importância fundamental da religiosidade popular nas origens do cristianismo. Penso que a distância histórica, ao mesmo tempo em que obscurece os detalhes, realça as grandes formas, ou seja, o que tem importância para nossos trabalhos hoje. Montanhas altas só se destacam na paisagem quando vistas de longe. Por isso convido você, leitor(a), a viajar comigo nestas páginas até os primeiros tempos do cristianismo para verificar como aí funcionava a religiosidade popular e a importância que ela teve na formação do cristianismo tal qual se apresenta ainda hoje. Não vamos nos deter em detalhes. O que nos interessa é saber o que existe por trás das imagens e dos ritos. Queremos conhecer o motor que impulsiona a primeira religiosidade cristã. Pois é disso que se trata, afinal. 1. Expansão sensacional do cristianismo nos primeiros séculos. Quem estuda as origens do cristianismo fica impressionado com a expansão sensacional do movimento cristão nos primeiros séculos. Nascido na humildade da Palestina, o movimento alcança, já no decorrer do século I, a Síria, depois penetra na Ásia Menor, espalha-se no delta do rio Nilo e nas terras litorâneas do Mar Mediterrâneo (Grécia e Itália). No decorrer do século II, o cristianismo penetra no interior da Síria e chega à longínqua cidade de Edessa, na margem direita do rio Eufrates. A partir de suas bases na Ásia Menor, chega às regiões da Capadócia e da Armênia, atravessa a África do Norte (Cartago), sobe o rio Nilo até a terra dos etíopes (acima da sexta catarata do rio). Do outro lado do mundo mediterrâneo, penetra pelo rio Ródano e daí se espalha pelos vales da Gália (atual França) e da península ibérica (Espanha). Essa rapidez impressiona, se consideramos as condições de viagem da época e os poucos recursos de que dispõem os cristãos. Fica a pergunta: de onde provém tão extraordinário desenvolvimento em tão pouco tempo? Qual o segredo de tão rápida expansão? 2. Razões tradicionalmente aduzidas para explicar essa expansão. Os livros clássicos costumam aduzir principalmente quatro razões para tão impressionante sucesso do movimento cristão: o martírio, a santidade, os milagres, a evangelização. Acontece que cada uma dessas explicações pode ser questionada. Os que falam numa ‘igreja dos mártires’, por exemplo, esquecem que o número de mártires vitimados pelo sistema romano foi bem menor do que se afirma frequentemente e que só em curtos períodos houve perseguições sistemáticas. Decerto, a igreja não era bem-vista pelas autoridades e as comunidades estavam sempre expostas a eventuais ‘pogroms’ (perseguições de caráter local). A qualquer momento, os cristãos podiam ser chamados para interrogatórios vexatórios e então eram humilhados perante as autoridades, mas isso ainda não é bastante para se falar em ‘igreja dos mártires’, da maneira em que alguns autores escrevem. Afinal, morreram mais testemunhas de Jeová nos crematórios nazistas da última guerra mundial (por volta de 3 mil) que cristãos em todo o período da ‘perseguição da igreja’. Quanto ao argumento de que a expansão do cristianismo se deva à ‘evangelização’ (no sentido que atualmente damos ao termo), não possuímos documentos históricos que comprovem isso. O primeiro documento histórico a mencionar um ‘evangelizador’, ou seja, um missionário que consiga reunir em torno de si pessoas para ouvir o que ele tem a dizer é um sermão que o padre da igreja Gregório de Nissa pronunciou em 380 (portanto, já no final do século IV), sobre seu parente Gregório o Taumaturgo, que trabalhou entre camponeses no Ponto Euxino. A imagem do evangelizador que fala alto em praça pública ou monta em púlpito para proferir um sermão, não corresponde a fatos históricos, pelo menos nos primeiros séculos. Quem desejaria ouvir um cristão naqueles tempos? Quem estaria interessado em ouvir falar de uma religião considerada inferior, proveniente do judaísmo, pelo menos na opinião do público romano? Quanto à pretensa santidade dos primeiros cristãos, a história de Judas já mostra que eles não eram mais santos que os de hoje. Finalmente, nós sabemos, por meio do aprimoramento da análise literária crítica, que histórias mirabolantes sobre extraordinários milagres praticados pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos, e que por muitos séculos circulavam intensamente no seio do cristianismo, não merecem confiança enquanto fontes históricas. 3. O que foi então que provocou a expansão do cristianismo? Será que essa expansão se deve a fatores relacionados com a religiosidade popular? Até pouco tempo atrás, era difícil responder a essa pergunta, pois a historiografia cristã estava principalmente baseada no estudo de fontes escritas. Ora, essas fontes praticamente nunca abordam a religiosidade dos primeiros cristãos. Os escritos sobre as origens do cristianismo não costumam mostrar interesse pelo que se passou entre o povo comum. Nem o filósofo judeu Filo de Alexandria, nem o historiador judeu Flávio Josefo informam algo sobre a religião do dia a dia. E historiadores romanos como Tácito e Suetônio só mencionam o cristianismo quando descrevem acontecimentos sensacionais, como o levante na Alexandria nos anos 39-41 ou o incêndio de Roma nos tempos de Nero (65). Aliás, é regra geral: intelectuais não costumam mostrar interesse pelo que se passa no meio do povo comum e anônimo. A ‘plebe’ não retém a atenção de filósofos como Platão, Aristóteles, Cícero ou Sêneca, ou de intelectuais proeminentes como Galeno, Plotino ou Marco Aurélio. Esses ‘humanistas’ dão a impressão de que a história é feita pelas classes dirigentes. Nem mesmo autores cristãos como Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Clemente de Alexandria ou Orígenes descrevem o que se passa entre cristãos comuns. Eles também pertencem à elite letrada e não se mostram interessados em saber o que se passa no meio do povo. Felizmente, dispomos hoje de bons estudos históricos baseados na arqueologia e a tendência é que a qualidade desses estudos ainda melhore no futuro. A arqueologia vem se tornando um recurso sempre mais utilizado nos estudos das origens do cristianismo. Atualmente dispomos de informações que resultam de pesquisas arqueológicas realizadas em muitos lugares onde viviam os primeiros cristãos, não só em metrópoles como Roma, Alexandria e Antioquia, mas também em pequenos vilarejos espalhados pela atual Turquia ou Síria ocidental. Esses dados arqueológicos abrem um panorama novo e inesperado, pois não estamos acostumados a estudar as origens do cristianismo focalizando a vitória de Cristo sobre Asclépio e/ou de Maria sobre Isis. 4. Cristo vence Asclépio. Escavações arqueológicas comprovam que durante os longos sete séculos entre o final do século V aC e o século III dC, Asclépio foi a divindade mais venerada em todo o território pan-mediterrâneo. Ficamos impressionados com o número de templos dedicados ao deus medicinal, desde o Oriente médio ao ocidente mediterrâneo. A razão é que Asclépio é o primeiro deus do panteão grego que desceu do repouso esplêndido no monte Olimpo para se envolver com a dor da humanidade. Chegando à terra, entre os mortais, Asclépio sentiu pena ao constatar a morte prematura de tantas criaturas humanas e os grandes problemas de saúde enfrentados pelas pessoas. Ele ganhou rapidamente a preferência popular. Os doentes vinham de longe fazer suas ‘incubações’ em algum templo de Asclépio. Passavam a noite deitados numa maca, dentro do recinto do templo, na esperança de ter um sonho com Asclépio e assim recuperar a saúde. A devoção generalizada em torno de Asclépio é uma prova cabal do pouco caso dado pela administração romana, à questões de saúde pública. Os doentes ficavam abandonados à própria sorte: 80 % da população viviam em condições muito precárias, seja por doença ou deformação física, seja ainda por trabalho escravo exaustivo ou violência. Os documentos escritos só registram dados esparsos sobre esse dado fundamental que nos mostra como funcionava a antiga sociedade romana. Assim sabemos, por exemplo, que um escravo normalmente não vivia mais que 25 anos e que na época de Jesus, em média, um terço das crianças que conseguiam sobreviver ao parto, morria antes de completar seis anos de vida. Cerca de 60% dessas crianças estariam mortas aos 16 anos, 75% aos 26 e 90% aos 46 anos. Apenas 3% das pessoas atingiam a idade de 60 anos. Eis o que explica o sucesso de Asclépio. Mas a mesma arqueologia que nos revela a importância de Asclépio, nos revela como a partir do século II dC, começa a aparecer, dentro de templos tradicionalmente dedicados a Asclépio, a figura de Cristo. São invocações gravadas em pedras ou grafites sobre paredes. Mais: aparecem igrejas cristãs que são na realidade acomodações improvisadas de antigos templos dedicados a Asclépio. Pedras com invocações a Asclépio são reviradas e nelas se inscrevem doravante invocações dirigidas a Cristo. Tudo isso mostra que Cristo começa a rivalizar com Asclépio no favoritismo popular. As incubações tradicionais começam a realizar-se em igrejas cristãs que, dessa forma, parecem enfermarias. Esse movimento inicia-se entre a população pobre das grandes cidades (Roma, Alexandria, Antioquia) e daí se divulga pelo interior. As escavações demonstram que o fato é global e se verifica por toda a extensão do império romano: Cristo vai aos poucos substituindo Asclépio, num processo que demora séculos e culmina, no ano 381, com a proclamação oficial de Cristo como ‘salvador do povo romano’ pelo imperador Teodósio. A partir desse momento, Cristo reina soberano sobre o imaginário ocidental e não encontra mais nenhum rival à sua altura. 5. Maria vence Isis. Na mesma época, uma evolução parecida acontece no universo feminino. Até o século II dC, a imagem de Isis reina soberana sobre o imaginário pan-mediterrâneo. A história dessa deusa começa no Egito, onde sua origem se perde nas brumas do passado. Mas já no século III aC se verifica como Isis incorpora gradativamente as demais divindades femininas do Oriente médio e da bacia mediterrânea, como Cibele, Demeter, Magna Mater, Mater Deum Magna e outras. Seu poder de assimilação é tão forte que, numa inscrição da época, ela ganha nada menos que 320 predicados e, aos poucos, se torna a única ‘rainha do céu’. Só não consegue assimilar Vênus, símbolo do amor livre. Isis usa os meios de transporte mais modernos da época. Ela cruza de barco o mar mediterrâneo e penetra nos grandes rios, como o rio Danúbio. Comerciantes internacionais e marinheiros a transportam por toda extensão do mundo romano. Na proa de um barco daqueles tempos ainda se pode ler hoje a inscrição latina ‘una quae es omnia dea Isis’ (você é tudo, deusa Isis). Isis viaja de barco e de canoa, em dorso de cavalo e jumento, alcança lugares tão distantes como a fronteira do Reno ou a muralha de Adriano na Britânia (Inglaterra). Em todos esses lugares ainda hoje se encontram estatuetas de Isis sentada num trono com seu filho Horus nos braços. É a imagem da mãe carinhosa, que protege seu filho e demonstra o cuidado que as pessoas têm com a maternidade, a procriação, a proteção da natureza e a educação dos filhos. Mas aqui, mais uma vez, a arqueologia nos reserva surpresas. Escavações nos mais diferentes sítios do universo romano da época mostram, a partir do século II, estatuetas de Isis que parecem intencionalmente quebradas e ruínas de igrejas toscas construídas em cima de templos dedicados a Isis. Isso indica que templos tradicionalmente dedicados a Isis passam a ser aproveitados para venerar a figura de Maria. O mundo está encontrando uma nova figura feminina representativa em substituição de Isis. Pois, o que é a imagem de Nossa Senhora com Jesus no colo senão uma apropriação cristã da imagem de Isis que cuida de seu filho Horus? Para conseguir essa proeza, Maria pode contar, desde o início, com o apoio de intelectuais cristãos letrados como Hipólito, Tertuliano, Justino e outros e, principalmente, com o apoio das autoridades. Constantinopla (330), a nova capital do império, inaugurada em 330, por exemplo, já conta com um número considerável de santuários dedicados a Maria. Aqui também a data definitiva é 381, quando o imperador romano Teodósio invoca Maria sob o nome de ‘mãe de Deus’, um nome tradicionalmente reservado à deusa Cibele. É verdade que a devoção a Isis ainda resiste por diversos séculos, mas quando o imperador Justiniano, em 560, manda fechar o último templo dedicado a Isis, um ciclo histórico chega ao fim. 6. Os bispos demoram a perceber a força da religião popular O que impressiona é que os bispos demoram em perceber a importância de toda essa movimentação no âmbito da religiosidade popular. Eles pensam em outras coisas. Mas, quando eles se reúnem em Niceia (325), na residência de verão do imperador Constantino, para sua primeira grande assembleia geral, eles pecebem que não há mais como fugir da realidade: quem toma conta de Cristo e de Maria é o povo. É a pressão da religiosidade popular que empurra os bispos a reconhecer a relação entre devoção e problemas que afetam as pessoas pobres (doença, marginalização, penúria, morte). Os sinais são por demais visíveis: Hércules cede diante de São Miguel nas artes da guerra e Apolo diante de São Sebastião na luta contra a peste. Então, é antes por considerações pragmáticas que os bispos aceitam o protagonismo da religiosidade popular na configuração histórica da instituição cristã. Como estão convencidos de que precisam manter as rédeas do movimento em mãos, eles se preocupam em apresentar aos fiéis imagens de Jesus e Maria que não entrem em choque com a fé do povo. Entre os séculos IV e VI, por exemplo, eles se reúnem reiteradas vezes para chegar a um acordo sobre como apresentar melhor a figura de Cristo ao povo. Sua principal dificuldade parece ter sido a aceitação da denominação ‘mãe de Deus’, que o povo teima em atribuir a Maria. A expressão lhes soa mal, já que na época designa a deusa pagã Cibele. Temos de esperar até a assembleia episcopal de Éfeso, em pleno século V (431), para encontrar um documento que aceite a formulação ‘Maria mãe de Deus’. Os bispos hesitam, pois não encontram no novo testamento nenhum indício do lugar tão proeminente de Maria na história de Jesus. Mas os devotos de Maria não deixam por menos e exercem uma pressão considerável sobre a assembleia de Éfeso, como comprovam documentos da época. Finalmente, por considerações antes políticas que propriamente evangélicas, os bispos acabam chegando a um acordo acerca da devoção a Maria. Já está na hora. Se não aceitam as expressões da fé popular, os bispos arriscam perder o chão em baixo dos pés e isolar-se de seus próprios fiéis. Isso significa que a sobrevivência da instituição eclesiástica depende da aceitação popular. Dito em outras palavras, a instituição, da maneira como funciona concretamente, tem de ser considerada uma criação da religiosidade popular. Para os bispos, não é tão fácil aceitar isso, mas não há como fugir da evidência. Inclusive, o povo sustenta financeiramente a hierarquia e lhe confere prestígio e honorabilidade. Aceitar essa dependência estrutural exige uma boa dose de humildade por parte do episcopado. Mas não existe alternativa. Afinal, o que é um bispo sem a religiosidade popular? Podemos fazer a mesma pergunta hoje em relação ao papa: o que seria dele sem a religiosidade popular? Penso que no futuro, com o avanço dos estudos históricos e críticos, será mais fácil aceitar essa verdade: sem a religiosidade popular, a igreja não se sustenta. A partir dessa compreensão, a afirmação ‘a igreja é o povo de Deus’, hoje tão controvertida, um dia será aceita como uma evidência. 7. O que se passa por trás da religião e dos ritos? Para avançar na nossa reflexão, temos de cavar mais fundo. O que existe por trás da religião popular? qual a vida vivida que se expressa em símbolos, imagens, gestos e ritos? Concretamente, qual a razão porque as pessoas, a partir do século II, começaram a preferir Cristo a Asclépio e Maria a Isis? A resposta que se impõe é a seguinte: o movimento cristão consegue articular, dentro da sociedade romana, uma rede associativa de socorro a prementes necessidades humanas e nisso se mostra mais eficiente que as tradicionais iniciativas tomadas em nome de Asclépio ou Isis. Cristo e Maria são mais ‘eficientes’ que Asclépio e Isis. Essa maior eficiência provém do fato que o movimento cristão cava mais fundo nos pressupostos da desigualdade social existente no império romano. Em seu texto ‘A antiguidade tardia’ (que faz parte do livro ‘História da vida privada’, editado pela Companhia das Letras de São Paulo em 1990), o historiador irlandês Peter Brown descreve em pormenores de que modo a sociedade romana é fundamentada no postulado de um inexorável e intransponível distanciamento social entre os ‘bem-nascidos’ e seus inferiores (na maioria escravos). É aqui que se percebe a radical novidade do cristianismo, que parte do pressuposto contrário: somos todos iguais diante de Deus. Mais ainda: Deus prefere os pobres, como fica claro nos textos do novo testamento. Essas ideias têm enorme influência pelo fato de que as primeiras gerações cristãs vivem em contato direto com categorias sociais marginalizadas, onde violência, injustiça e mesmo suicídio (por desespero) são tristes ocorrências da vida diária. Tendo uma comunidade cristã por perto, os pobres sabem por onde se dirigir em suas necessidades de saúde, maternidade, educação dos órfãos, amparo às viúvas, cuidados com os mais velhos, atendimento aos presos, sepultamento digno. A montagem de uma estrutura para socorrer pessoas humildes em suas prementes necessidades, submergida nos subterrâneos da história, constitui, pois, a real novidade do cristianismo emergente, da qual as manifestações de religiosidade popular são a expressão visível. As vitórias simbólicas de Cristo e de Maria são na realidade vitórias do povo analfabeto na sua luta por dignidade e bem-estar. O mais impressionante é que esse movimento consegue introduzir a figura de Maria, que não encontra muito realce nos textos do novo testamento, na intimidade do próprio Deus. Ela sobe ao céu, é acolhida pela santíssima trindade e fica sentada no trono, como rainha do céu e da terra. 8. No mundo dos símbolos, nenhuma vitória é definitiva O tipo de análise que fazemos aqui evita um erro comum na interpretação do cristianismo das origens. Quem afirma que os primeiros cristãos, os anônimos, lutavam contra o paganismo, está equivocado. Pode ser que os bispos estivessem engajados numa luta desse tipo, mas os cristãos anônimos não. Eles não lutavam especificamente contra o paganismo, mas sim contra os males que afligiam a vida humana. Era uma luta positiva a favor da vida, da saúde, da dignidade. É perfeitamente compreensível que os atendentes nos templos de Asclépio estivessem tão empenhados em lutar pela saúde de seus pacientes que seus colegas cristãos. Assim, no fundo, não há incompatibilidade entre Cristo e Asclépio. Só que Cristo, pelo menos a partir do século II, se mostra mais eficiente. Mas isso não significa que possamos rasgar os longos séculos do paganismo das páginas da história. Os longos séculos, em que pessoas cuidavam de doentes por devoção ao deus Asclépio, foram sucedidos por outros séculos (cristãos) em que pessoas, igualmente empenhadas na luta contra a doença, invocavam a Cristo. Os séculos em que mulheres parteiras se empenharam na luta contra a mortalidade materna em nome de Isis, foram seguidos por séculos em que se fez esse mesmo empenho em nome de Maria, nas maternidades cristãs. Acontece que, no universo dos símbolos, nada é definitivo. Tomemos o exemplo do que está acontecendo hoje em Salvador da Bahia. A mãe-de-santo Stella de Oxóssi (veja Google), do terreiro Axé Apo Afonjá, escreveu em 1993 um livro intitulado ‘Meu tempo é agora’ (editora Oduduwa, São Paulo), em que conclama os afro-descendentes na Bahia a venerar Iemanjá com a mesma devoção com que os católicos veneram Maria. Uma eventual vitória de Iemanjá sobre Maria, no Recôncavo baiano, pode significar no futuro a maior eficácia de serviços sociais a favor dos afro-descendentes (escolas, centros de saúde e de cultura) por parte de organismos como o candomblé e outros. Como a igreja católica praticamente não tem uma estrutura tradicional nesse campo, uma reviravolta como essa não é de forma nenhuma impossível. Por conseguinte, a novidade do cristianismo não tem de ser procurada no nível dos símbolos, ou seja, das imagens ou dos ritos, mas no nível de uma ação eficiente no campo das relações sociais e políticas. Os primeiros cristãos, ao combaterem os deuses, na realidade combatiam a falta de sensibilidade pela humanidade sofredora. A mesma lei hoje vale para o candomblé e muitas outras expressões religiosas. O sincretismo, sempre mal compreendido pelos que têm a ilusão de pensar que a luta se trava no nível da religião, ou seja, dos símbolos, expressa no fundo uma movimentação nos relacionamentos reais de ordem social e política. 8. A eficácia de uma ação modesta Este trabalho quebra uma lança a favor da ação persistente e modesta na base da sociedade. Um bom trabalho pastoral sempre consistirá no aproveitamento das brechas existentes nos sistemas simbólicos, políticos e sociais em que vivemos, no intuito de abrir oportunidades iguais para todos. Desde as suas origens, a novidade do cristianismo não deve ser procurada em mega-projetos, mas em trabalhos humildes. Eis uma das mais importantes lições que podemos tirar de um estudo das origens do cristianismo. O jovem movimento de Jesus não embarca em grandes projetos, não participa de sucessivos levantes contra Roma que sacudiram a Palestina da época, tanto nos anos 67-70 como mais tarde no ano 135, com a revolta palestina liderada por Bar Kókeba, que custou a vida a quase meio milhão de pessoas. Os seguidores de Jesus preferem projetos concretos, mini-utopias realizáveis. Em grandes metrópoles como Alexandria, Roma ou Antioquia, os cristãos organizam um serviço de acolhimento aos estrangeiros que procuram trabalho na cidade. Os recém-chegados sempre podem ir à casa do bispo cristão, hospedeiro por excelência, como você pode ler em meu livro ‘Hermas no topo do mundo’ (Paulus, 2002), um comentário de um dos primeiros escritos cristãos, redigido por um ex-escravo chamado Hermas. Esse Hermas conta que os imigrantes em Roma encontram na casa do bispo a mesa posta e um abrigo para os primeiros dias de sua permanência na grande cidade. Em algumas comunidades há um serviço regular de alimentação e hospedagem para necessitados, viúvas e órfãos. Organiza-se uma caixa de dinheiro comunitário destinado a casos de urgência (como atesta o escritor Tertuliano). Em dias de jejum, as pessoas oferecem gêneros alimentícios. Outro serviço bem organizado é o do enterro de falecidos. São beneficiados não só os da comunidade, mas os vizinhos em geral. Os cemitérios cristãos chegam a ser tão famosos que no século III temos um papa (Calisto) que foi administrador dos cemitérios cristãos em Roma. Quando alguém adoece, pode contar com visitas regulares. Nos melhores casos, pode encontrar um lugar tranquilo para se recuperar. Na hora de interrogatórios pelas autoridades, os cristãos se dão mutuamente apoio moral. Procuram manter o moral quando acontece um pogrom ou alguma investida de hostilidade por parte de grupos e autoridades. Há um serviço de visita aos presos e, em certos casos, um amparo psicológico para os que, desesperados, tentam o suicídio. Tudo isso está documentado no Pastor de Hermas. Estamos diante de um cristianismo ‘de mãos calejadas’ e quase nenhuma escrita, de mãos habituadas a lidar com mesa e cozinha, fuso e agulha, enxada e arado, na fonte, na oficina do pisoeiro e do trabalhador na lã, mãos de trabalhadores no campo e na cidade, de escravas domésticas nas casas senhoriais. Com um rol tão impressionante de serviços no campo social e humanitário, é de se compreender que o cristianismo tenha recebido em relativamente pouco tempo um sólido apoio popular. E esse apoio se expressa simbolicamente na religiosidade popular. Resumindo: não pensemos que o cristianismo se tenha divulgado por meio de uma ‘evangelização’ planejada e liderada por bispos, sacerdotes ou diáconos. Essa é uma falsa imagem das origens cristãs. O cristianismo não venceu tampouco pela pregação, nem pelo testemunho destemido de mártires, pela santidade de seus heróis, pelas virtudes ou milagres de seus santos. Venceu, isso sim, por uma atuação persistente e corajosa na base do edifício social e político da sociedade, assim como ainda hoje vence na medida em que apresenta resultados positivos na vida das pessoas. Os resultados sempre foram e continuam sendo limitados e bastante modestos, mas mesmo assim fundamentais para evitar absurdos maiores numa sociedade que por vezes parece mais uma casa de loucos.
 

Prof. Eduardo Hoornaert II semana Teológica padre José Comblin


Entrevista concedida em outubro de 2012 por ocasião de uma semana teológica, celebrada em João Pessoa, sobre a teologia de José Comblin.

CLIQUE AQUI PARA ACESSAR A ENTREVISTA

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

JESUS DO PAPA BENTOXVI

Na sua autobiografia Minha Vida (Memórias 1927-1977) (Ediciones Encuentro Madrid, 2005), Joseph Ratzinger (Bento XVI), reconhece que a sua nomeação como arcebispo de Munique e Freising, prestes a completar 50 anos, não lhe permitiu levar a cabo o trabalho teológico que estava desenvolvendo.

“Gostei -diz ele- tive a alegria de poder dizer algo meu novo e, ao mesmo tempo, plenamente inscrito na fé da Igreja, mas, obviamente, eu não estava destinado a terminar esta obra. Na verdade, estava apenas começando, quando fui chamado para outra missão.” Isso aconteceu em 1977. Quatro anos depois, João Paulo II o convocava a Roma, para lhe confiar a presidência da Congregação para a Doutrina da Fé, onde permaneceu quase um quarto de século velando pela ortodoxia que assegurou, vigiando o trabalho teológico de antigos assessores, seus companheiros no Concílio Vaticano II, discípulos e até mesmo colegas de trabalho, e condenando alguns dos mais qualificados cultores da teologia moral, da teologia da libertação, da teologia das religiões ou, simplesmente, da teologia conciliar. Em 2005 assumiu o papado com um discurso memorável sobre a ditadura do relativismo, que continua sendo o guião ideológico de seu pontificado.
Durante os últimos cinco anos, escreveu uma trilogia sobre Jesus Cristo: Jesus de Nazaré.
1. Do Batismo à Transfiguração (2007), Jesus de Nazaré.
2. Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição (2011) e
3. A Infância de Jesus (2012),
todos os três assinados com o nome duplo de “Joseph Ratzinger-Bento XVI”, cujos conteúdos e orientação confirmam seu próprio testemunho de afastamento da teologia, de sua desconfiança em relação aos métodos histórico-críticos, de seu desconhecimento dos estudos de sociologia e antropologia cultural sobre as origens do cristianismo e do contexto em que ele surge, e sua falta de consideração pela pesquisas mais significativas sobre os Evangelhos, que contam com um alto grau de consenso entre os pesquisadores e pesquisadoras.
O resultado é, na opinião de não poucos especialistas na matéria, uma falta de rigor científico na análise dos documentos neotestamentários, nas suas reflexões sobre o Jesus histórico. Isso resulta claro de uma maneira especial em sua recente obra A infância de Jesus, da qual se vem fazendo uma leitura superficial, centrando a atenção sobre a ideia da não-existência do boi e do jumento no estábulo de Belém, da qual se tem feito eco na mídia a partir de um flash informativo do Vaticano e que, aliás, não se deduz da leitura do livro do papa.
Nesta obra Bento XVI se distancia das investigações sobre as origens de Jesus, pelo menos em três campos: a historicidade ou não das fontes, a concepção virginal e o nascimento em Belém.. Há, certamente, outras maneiras em que ele se distancia, mas eu vou focar só os três indicados.
As fontes do Evangelho, que narram o nascimento de Jesus, são mito ou história? Bento XVI afirma taxativamente: “Os dois capítulos da narrativa da infância de Mateus não são uma meditação expressa em forma de história, bem pelo contrário: Mateus nos relata a verdadeira história (ênfase minha), que tem sido meditada e interpretado teologicamente”. Eu creio que o papa, ao fazer esta afirmação, não tem suficientemente em conta a peculiaridade do gênero literário dos Evangelhos da Infância, que não estão longe dos relatos sobre o nascimento, infância e adolescência de muitas das figuras históricas relevantes do mundo mediterrâneo antigo ou de muitos dos heróis e figuras importantes do Antigo Testamento. Assim, John P. Meier, autor da magna obra, em seis volumes Um judeu marginal, diante deste tipo de relatos, pede o máximo cuidado, que ele considera “mais aconselhável no caso dos relatos da infância dos Evangelhos canônicos”.
Sobre a concepção virginal, Ratzinger-Bento XVI se expressa ainda com mais contundência – se isso é possível. Depois de definir Maria como “a humilde Virgem de Nazaré”, afirma Bento XVI: “Maria é um novo começo. Seu filho não vem de nenhum homem, mas é uma nova criação, foi concebido por obra do Espírito Santo… só Deus é seu “Pai” em sentido estrito”. Mais adiante, após a referência a um texto da quarta Écloga de Virgílio, que diz “já retorna a virgem” e que Bento XVI considera “um prenúncio do nascimento virginal” se pergunta: É verdade o que dizemos no Credo: “Creio em Jesus Cristo… que foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”? Para afirmar logo em seguida: “A resposta é um “sim” sem reservas”. E não para por aí, mas entende a concepção e o nascimento de Jesus da Virgem Maria, como elementos fundamentais da fé cristã.
São estas afirmações, não compartilhadas por boa parte dos exegetas do Novo Testamento que concordam que o principal interesse de Mateus e Lucas nesta questão é teológica e não corresponde às nossas abordagens modernas sobre a historicidade. Além disso, fora das narrativas da infância de Mateus e Lucas, não há referência explícita – nem implícita, segundo Fitzmyer – à concepção virginal no resto do Novo Testamento. Ao contrário da opinião de Bento XVI, os especialistas não consideram Maria fonte direta dos acontecimentos de que ela possa ter sido protagonista. De que depende, então, a aceitação ou rejeição da concepção virginal? Das idéias filosóficas e teológicas das quais se parte, assim como do peso a ser dado ao ensinamento da Igreja.
Outro exemplo do distanciamento das pesquisas é o nascimento de Jesus em Belém. Bento XVI diz: “Se nos atemos às fontes e se não nos deixamos levar por conjecturas pessoais, é claro (grifo meu) que Jesus nasceu em Belém e foi criado em Nazaré.” Novamente, estamos diante de uma afirmação que os métodos histórico-críticos aplicados aos Evangelhos da Infância põem em dúvida ou desmentem com bons argumentos. Não se pode excluir categoricamente que Jesus nasceu em Belém, mas a idéia prevalente nos Evangelhos e nos Atos é que Jesus era de Nazaré e só de Nazaré. Assim, a conciliação um pouco tortuosa e suspeita que levam a cabo Mateus e Lucas, entre a tradição predominante de Nazaré com a tradição especial de Belém, nas narrativas da infância, indica que o nascimento de Jesus em Belém não deve ser interpretado como um evento histórico, mas como uma declaração teológica, sob a forma de uma narrativa histórica, cujo objetivo é mostrar a messianidade de Jesus e sua origem de Davi.
Em suma, creio que o livro de Bento XVI é uma meditação espiritual que não tem na devida conta a peculiaridade do gênero literário dos Evangelhos da Infância, com uma conclusão dogmática sobre a concepção virginal, que apresenta como uma verdade histórica. Este é um trabalho que, sem dúvida, alimentará e fomentará a piedade popular e a instalação do cristianismo no dogma, mas que vai fazer um desserviço à investigação sobre as origens de Jesus de Nazaré e sobre o movimento que Ele pôs em marcha e que deu lugar ao nascimento do cristianismo.
PAÍS-Babelia, 22 de dezembro de 2012, p. 2
Autor: Juan José Tamayo,
Diretor da Cátedra de Teologia e Ciências das Religiões,
Universidad Carlos III de Madrid.
Seu livro mais recente é Convite à Utopia (Trotta, 2012).
Fonte: Enviado por e-mail, pelo autor: jjtamayo@telefonica.net
Tradução: João Tavares

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

JESUS, VERDADEIRO HOMEM

Jesus foi um homem comum, carpinteiro em Nazaré até a vida adulta. Sua divindade esteve oculta, inclusive para ele. Demonstrou sempre a vontade natural e o gosto de viver. Na sua vida pública, fez amigos e amigas, convivia com o povo e tinha uma personalidade cativante.
Num primeiro momento se integra ao grupo de seguidores de João Batista. A adesão à proposta e à pregação de João é formalizada pelo batismo, que significa justamente integração a um grupo, ou a uma comunidade. Pouco depois, passa a pregar ele mesmo, a anunciar o Reino, assumindo a sua missão. Vai tomando consciência da sua vocação.
Sua pregação é arrebatadora e muitos o seguem. As exigências da missão que assume não impedem que visite amigos, vá a festas e viva o seu cotidiano normal, animado pelo impulso de socialização, como qualquer pessoa comum.
Jesus desenvolveu uma personalidade firme e assumiu um projeto de vida claro, fruto de reflexão madura e da sua consciência crítica em relação às pressões a que estava sujeito. Construiu uma identidade que não o deixava ceder a pressões. Quando elas se tornavam muito fortes, Jesus se retirava para um lugar deserto, no campo ou na montanha, para refletir e tomar decisões.
O episódio das tentações no deserto ilustra esse aspecto da sua identidade. Com efeito, logo que Jesus começa a sua vida pública e se apresenta como o messias esperado, afloram as expectativas dos judeus de diferentes grupos sociais e religiosos. O povo, os fariseus, os essênios, os zelotes, os sacerdotes, cada grupo segundo os seus interesses e concepções religiosas ou políticas, esperavam um determinado tipo de messias. Uns queriam aquele que saciaria a fome dos famintos por uma intervenção mágica e poderosa sobre a natureza, transformando pedras em pães. Outros esperavam um rei que os libertasse do jugo político. Outros mais desejavam um enviado com poder divino que viesse com as suas legiões de anjos impor a todos as suas leis e normas religiosas contra os que não a respeitavam.
Certamente, outras concepções de messianismo terão tentado influenciar Jesus. Mas ele reage a essas insinuações ou tentações e se retira para refletir e orar, sozinho, e assim decidir sobre o seu projeto de vida. Contraria quase todos, rechaçando essas pressões e assumindo um messianismo de serviço, sem poder religioso, político, material ou qualquer outro senão o de suas convicções, sua autoridade moral e sabedoria.
O povo se admira porque “ele fala com autoridade”. Não é um repetidor de fórmulas e escritos antigos. Ao contrário. Muitas vezes se refere à lei para modificá-la ou dar-lhe outra interpretação, sempre em vista da humanização. Cita o que está escrito na lei e nas escrituras para acrescentar: “entretanto eu vos digo”. Desobedece ostensivamente a leis religiosas rígidas dos judeus, quando elas impedem ou conspiram contra a humanização. Afirma que o sábado foi feito para o homem, para sua humanização, e não o homem para o sábado. O descumprimento da lei é considerado uma ameaça à ordem religiosa estabelecida.
As autoridades religiosas reagem e Jesus passa a ser hostilizado e patrulhado como subversivo. Prenúncio do desfecho cruel.
Hélio Amorim
helioamorim@ism.com.br

O dia 25 de dembro não é, necessariamente, a data histórica do nascimento de Jesus em Belém, na Judeia, no ano 748 da fundação de Roma. O ‘Dies Natalis’ ou ‘Natalis Domini’ foi marcado no dia 25 de dezembro pela Igreja, com o Papa Libério, desde o século IV, a fim de suplantar a festa pagã do deus Sol, celebrada no solstício de inverno. O nascimento de Jesus terá mesmo ocorrido no ano 6 ou 7 a.C.
Para afastar os fiéis da prática dessas festas pagãs, a Igreja quis ressaltar que a verdadeira luz que ilumina todo homem é Cristo e a celebração de seu nascimento é a solenidade própria para afirmar a autêntica fé no mistério da Encarnação do “Verbo”, contra as grandes heresias cristológicas dos séculos IV e V, solenemente afirmada nos quatro concílios ecuménicos de Niceia, Éfeso, Calcedónia e Constantinopla.
Liturgicamente, a solenidade é caracterizada por três missas: a da Meia-Noite ou do Galo (‘ad noctem’ ou ‘ad galli cantum’), que remontará ao Papa Sisto III, por ocasião da reconstrução da basílica liberiana no Esquilino (Santa Maria Maior), depois do concílio de Éfeso, em 431; a da Aurora (‘in aurora’), originariamente em honra de Santa Anastácia, que tinha um culto celebrado com solenidade em Roma no século VI e, na liturgia atual, conserva ainda uma oração de comemoração; a do Dia (‘in die’), a que primeiro foi instituída, no séc. IV.
O tempo litúrgico do Natal compreende ainda as festas da Sagrada Família (Domingo após o Natal, ou, se este não ocorrer, a 30 de dezembro); a de Santa Maria, Mãe de Deus, a 1 de janeiro; a Solenidade da Epifania do Senhor, a 6 de janeiro ou no Domingo que ocorre entre os dias 2 e 8 de janeiro.
      O tempo de Natal termina com a festa do batismo do Senhor, no Domingo após a Epifania, ou, se esta coincide com o dia 7 ou 8 de janeiro, na segunda-feira seguinte.
Têm também lugar a celebração das festas de S. Estêvão, S. João evangelista e dos Santos Inocentes respetivamente a 26, 27 e 28 de dezembro, dentro da oitava do Natal, que vai do dia 26 até 1 de janeiro, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz.
Em dezembro de 2009, Bento XVI dedicou uma catequese à origem histórica do Natal, frisando que “o primeiro que afirmou com clareza que Jesus nasceu a 25 de dezembro foi Hipólito de Roma, no seu comentário ao Livro do profeta Daniel, escrito por volta de 204”. Depois, alguns exegetas observam que naquele dia se celebrava a festa da Dedicação do Templo de Jerusalém, instituída por Judas Macabeu em 164 a.C. A coincidência de datas “significaria então que com Jesus, que apareceu como luz de Deus na noite, se realiza deveras a consagração do templo, o Advento de Deus nesta terra”.
Na cristandade, explicava o Papa, a festa do Natal assumiu uma forma definitiva no século IV, quando substituiu a festa romana do “Sol invictus”, o sol invencível, como foi referido, mas “a particular e intensa atmosfera espiritual que rodeia o Natal desenvolveu-se na Idade Média, graças a São Francisco de Assis, que estava profundamente apaixonado pelo homem Jesus, pelo Deus-connosco”.
O seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, na Vida segunda narra que São Francisco “acima de todas as outras solenidades celebrava com inefável solicitude o Natal do Menino Jesus, e chamava festa das festas ao dia no qual Deus, feito pequeno infante, se tinha amamentado num seio humano” (Fontes Franciscanas, n. 199, p. 492).
Tomás de Celano fala da noite do presépio de Greccio de modo vivo e comovedor, oferecendo uma contribuição decisiva para a difusão da tradição natalícia mais bonita, a do presépio. “De facto, a noite de Greccio voltou a dar à cristandade a intensidade e a beleza da festa do Natal, e educou o Povo de Deus para compreender a sua mensagem mais autêntica.”