segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

90 anos de transformações na Igreja. Entrevista especial com Dom Tomás Balduíno

“Num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas”, declara bispo emérito de Goiás.
Confira a entrevista.
Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, pertence a uma geração de bispos brasileiros que identifica na missão da Igreja uma transformação social. Ele esteve à frente da criação da Comissão Pastoral da Terra CPT e do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, onde, ainda hoje, atua com bastante entusiasmo. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Dom Tomás recorda sua trajetória na Igreja e enfatiza que a “CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín”. Para ele, tanto a CPT quanto o Cimi “trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles”. E conclui: “Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica”.
Poucos dias antes de completar 90 anos de idade, Dom Tomás Balduíno conversou com a IHU On-Line e diz se sentir “livre”. “Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor”.
Depois de ter presenciado momentos difíceis na Igreja, como o período militar, Dom Tomás gosta de pensar o futuro da Igreja numa perspectiva de “esperança”. “O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei”, conclui.

Dom Tomás Balduíno nasceu em 31 de dezembro de 1922, e no final do ano passado completou 90 anos. É teólogo católico, bispo emérito de Goiás e assessor da Comissão Pastoral da Terra. Pertence à Ordem Dominicana.

Confira a entrevista.

IHU On-Line Quando e por que decidiu seguir a vida religiosa e entrar na Ordem Dominicana?

Dom Tomás Balduíno –
Desde menino eu já tinha vontade de ser padre. Talvez por influência familiar dos tios padres por parte da minha mãe, ou de um tio padre por parte do meu pai. Na cidade onde morava, Formosa-GO, havia uma comunidade de religiosos dominicanos franceses. Admirava estes monges pela vida missionária deles, pelo sacrifício de rodar boa parte do estado de Goiás a cavalo. Então, me engajei na Igreja, e quando era adolescente fui encaminhado para o seminário, depois para o noviciado em Uberaba. Mais tarde estudei em São Paulo e cursei Filosofia; na França, mais tarde, estudei Teologia, porque faltam professores no Brasil. Nessa época tivemos uma influência interessante dos precursores do Concílio Vaticano II. Fui ordenado padre na França e, ao voltar ao Brasil, depois de um certo tempo de lecionar nas faculdades de Filosofia, meu provincial me designou para a missão indigenista. Esse foi o início de uma nova etapa. Não que eu escolhesse, mas fui levado a isso pelas circunstâncias, porque eu era o superior da missão, e a partir de um certo momento, na década de 1960, fui procurado pelos lavradores que estavam sendo pressionados pelos proprietários da terra no estado do Pará. Acabei me envolvendo com esse mundo. Depois também trabalhei com os povos indígenas. Tive mais contato com o povo Xikrin, do Alto do Itacaiúnas; aprendi a língua convivendo com eles.

Injustiça social

O que me marcou profundamente foi a questão da injustiça social no sentido de o governo do estado do Pará vender terras sem levar em conta a população que estava dentro daquele território. Houve conflitos e eu participei deles no início, porque depois fui transferido para Goiás, como bispo diocesano, onde fiquei durante 31 anos. Lá me deparei novamente com a questão da terra, porque é uma região de muito latifúndio, de dominação da elite dos caiados. Nesse tempo que vivi em Goiás, ajudei a inaugurar duas fundações importantes para a Igreja e para a sociedade: o Conselho Indigenista Missionário Cimi, que foi substituindo pouco a pouco as antigas missões de caráter paternalista; e a Comissão Pastoral da Terra, que surgiu graças a Medellín e ao Concílio Vaticano II, nos anos de1972 e 1973. O Cimi surgiu como opção pelos pobres, mas considerando os pobres como sujeitos, autores e destinatários de sua própria caminhada, como protagonistas de sua própria luta.

Quer dizer, mudou, naquele tempo, completamente a postura da Igreja com relação aos povos indígenas e com relação aos camponeses. As experiências que se tinham eram de criar organizações, confrarias de operários, trabalhadores rurais ligados religiosamente à Igreja. Na posição da Comissão Pastoral da Terra, que nasceu em 1975, houve uma revolução Copernicana, assim como houve no Universo Indígena Pastoral Indigenista de respeitar a condição de sujeito dos trabalhadores rurais e não objeto de nossa ação caritativa.

IHU On-Line O senhor foi cofundador do Conselho Indigenista Missionário em 1972 e seu segundo presidente. Como avalia a questão indígena no país 40 anos depois?

Dom Tomás Balduíno –
Houve avanço no sentido das organizações indígenas. O próprio Conselho Indigenista Missionário tem numa nova política de tratamento aos povos indígenas. Em vez de querer confiná-los em um determinado lugar pastoral, como era antigamente, sugeriu uma proposta que no início nos chocou e depois se viu que era o “ovo de Colombo” de favorecer assembleias de chefes de tribos diferentes. Tínhamos receio, porque eram tribos muitas vezes hostis entre si, mas constatamos que eles atenderam ao convite para se reunirem. Passamos a reunir chefes indígenas em assembleias, e eles saíam convictos de que o inimigo do índio nunca era outro índio, e que precisavam recuperar sua cultura e, consequentemente, as terras. Para isso, eles começaram a se organizar em diversas articulações, associações regionais e nacionais. Assim, do lado dos índios houve avanço e eles continuam avançando.

O retrocesso foi do lado do governo que, aliado aos grupos capitalistas do agro e hidronegócio, se negou a demarcar as terras indígenas e enfraqueceu o próprio organismo da Funai, sucateando, de outro lado, o Incra. A mesma falta de vontade para com os povos indígenas é a falta de vontade para com os camponeses em relação à reforma agrária.

IHU On-Line Como começou seu trabalho na Comissão Pastoral da Terra CPT? Em que contexto histórico e político ela surgiu e como vê sua atuação nos dias de hoje?

Dom Tomás Balduíno –
A CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín. Havia um clima geral de entusiasmo dentro da própria igreja, na diocese, sobretudo nas congregações religiosas. Portanto, a CPT nasceu com a aceitação da Igreja , e tanto ela quanto o Cimi são pastorais de fronteira, diferentemente das outras pastorais litúrgicas, ecumênicas, bíblicas, de formação catequética ou presbiteral de seminaristas. A CPT e o Cimi trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles. Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica.

Mas essas pastorais mudaram no governo de João Paulo II. Houve um retrocesso dentro da Igreja, no sentido de desconfiança com relação a este mundo externo, essas pastorais, a própria Teologia da Libertação, que é fruto dessas duas pastorais. Então, a Igreja acompanhou um pouco, nesse movimento pendular, o fechamento das pastorais. A CPT chega a ser proibida em determinadas dioceses e isso mostra um pouco o clima que nós vivemos hoje.

Com relação ao seu trabalho, foi um trabalho samaritano, eu diria. O que fez o samaritano? Ele se inclinou diante do caído. Mas ela não criou uma instituição para recolher aquele caído e outros caídos; o levantou e no dia seguinte aquele caído já podia levantar outro caído. A CPT criou vários instrumentos. Quer dizer, na evolução da pastoral, percebeu que direitos humanos, terra e água são três prioridades. Para ajudar o pessoal da terra, ela criou um corpo de advogados, porque ela luta contra o latifúndio, contra o próprio Judiciário, contra todas as forças da elite para garantir o status quo, ao passo que os camponeses vinham trazer uma transformação, por exemplo, contra o latifúndio. Eles ocupavam a terra e o que fazia a CPT diante de toda a aula de legalidade da propriedade? Ela simplesmente apoiava as ocupações de terras numa nova perspectiva que, aliás, é constitucional de prioridade à função social da terra. Isso não era muito bem aceito, nem dentro da Igreja nem dentro da sociedade. O próprio poder Judiciário era muito preso às normas antigas de direitos absolutos à propriedade privada. Isso foi sendo quebrado. A CPT, em um tempo mais remoto, ajudou com agrônomos, porque muitas vezes o pessoal recuperava a terra, mas não sabia mais trabalhar.

IHU On-Line – Quais são as dificuldades de manter a CPT no Brasil e também dentro dos atuais rumos que a Igreja vem seguindo?

Dom Tomás Balduíno –
Com relação à manutenção, a CPT está “ralada”, sem recurso. Ela sofre disso, porque desde o início foi apoiada com recursos externos da Europa. Mas devido à crise econômica e à diminuição no contingente católico, os recursos diminuíram. Outro fenômeno é que essas entidades entraram em convênio com o governo, e passaram a se deparar com exigências capitalistas. Então, a CPT está com esse desafio para resolver. Não se trata do fim ou da dissolução da CPT por faltas de recursos. Mas num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas.

IHU On-Line – Como o senhor se tornou bispo? Que aspecto destaca da sua atuação como bispo de Goiás?

Dom Tomás Balduíno –
Eu era prelado um padre com direitos de bispo numa prelazia, que é uma área confiada a uma ordem religiosa. Fui parar em Goiás porque sou goiano. O povo cuidadosamente foi atrás do núncio e disse: “Nós queremos um bispo goiano!”. Ele olhou assim, no elenco deles, e me achou lá no sul do Pará. Eu fui então nomeado o bispo de Goiás, o bispo diocesano por pedido do povo. Muitos se arrependeram. (Risos)

IHU On-Line – Será?

Dom Tomás Balduíno –
Eles queriam um goiano, mas de outro tipo.

IHU On-Line – Por quê?

Dom Tomás Balduíno –
No meu episcopado, iniciado em 1967, propus fazer uma caminhada na linha do Concílio do Vaticano II. Foi interessante, porque era um momento de muito entusiasmo na Igreja como um todo, e eu comecei a receber voluntários de diversas partes do país, que iam para lá colaborar com esse trabalho. Temos um hospital na diocese, e médicos que tinham um futuro promissor em outras áreas deixaram suas carreiras para vir trabalhar aqui. Com isso, houve um fortalecimento da caminhada. Desde o início valorizamos a participação popular na Igreja, não a Igreja Clerical, reservada aos padres, aos religiosos, mas a Igreja Comunhão e Participação.

Iniciei meu episcopado no final de 1967, e no início de 1968 tivemos a convocação da Primeira Assembleia Diocesana. A maioria dos membros da Assembleia já era de leigos e pessoas das comunidades eclesiais de base. Então, você vê o que isso significa como revolução, como transformação. Claro que houve problemas, sobretudo em Goiás, onde há muita tradição das celebrações tradicionais. Eu esclareci que assumiria aquela pastoral do jeito que o povo queria.

Bispos

Como era um momento propício dentro da Igreja, nos ligamos a bispos de outras dioceses, com Dom Pedro Casaldáliga, Dom Antônio Fragoso, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Fernando Gomes dos Santos. Além das assembleias da CNBB, nós tínhamos um grupo informal de bispos, que tinha muita liberdade de sentar e chamar a assessoria, coisa que era muito difícil naquele tempo na assembleia dos bispos. Esse grupo informal se reunia com muita cautela, porque tudo era vigiado naquele tempo. Facilmente a polícia e o DOPS entravam em alguma reunião. Então, fazíamos as reuniões às sombras das assembleias da CNBB, que eram muito respeitadas. Isso ajudou a cada um de nós na nossa diocese, e ajudou a própria CNBB, até na escolha de seus presidentes. Não pensem que a aparição de Dom Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter caiu do céu; foi trabalho desse grupo.

IHU On-Line – Quais as dificuldades de atuar no período da ditadura? A Igreja esteve bastante dividida nesse período.

Dom Tomás Balduíno –
Houve até apoio ao Golpe, “porque nos livrou do comunismo sem derramamento de sangue”, diziam os próprios bispos. O sistema ditatorial tem muita tensão com a Igreja; um coronel inclusive declarou: “Nós conseguimos barrar os estudantes, silenciar a imprensa, está faltando só o púlpito das igrejas”. Nós sabíamos da resistência militar às nossas propostas, porque eram propostas não apenas de aprimoramento da pastoral interna da Igreja, mas de apoio às organizações populares. Segundo José de Souza Martins, o Golpe Militar de 1964 foi dado não exclusivamente, mas principalmente, para quebrar a espinha dorsal das organizações camponesas. Os militares achavam que através delas o comunismo internacional entraria no Brasil.

IHU On-Line – Como o senhor se sente hoje sendo bispo emérito depois de toda a sua atuação na Igreja?

Dom Tomás Balduíno –
Me sinto muito livre. O bispo tem um grande espaço em que pode atuar dentro da Igreja. Isso é tradição, desde Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Irineu. Há bispos que eu reconheço, são tímidos, que, aliás, foram ordenados porque são mais piedosos, às vezes, medíocres. Então, depois de emérito, podemos dizer: “Ah, o bispo agora é general de pijama e não tem mais problemas”. Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal, sou membro do Concílio Ecumênico. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor.

Sou conselheiro da CPT nacional, e assessor do Cimi. Então, sou convidado a participar das assembleias, dos encontros, de maneira que estou presente. Quando mudei de Goiás e vim morar na casa de dominicano, trouxe minhas caixas, meus pertences de serviços, de utilidades, livros etc. Levei quatro meses para começar a abrir aquilo. Eu era chamado para todo o canto. Por isso muitas vezes eu digo, lembrando a palavra de Mandela: “Eu preciso aposentar da aposentadoria”. Mas, por outro lado, isso me estimula.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a situação de Dom Pedro Casaldáliga? E de outros bispos, como Dom Erwin, que também são ameaçados de morte pelo trabalho que desenvolvem?

Dom Tomás Balduíno –
O Pedro para mim é um ícone. Ele me considera como padrinho, porque no dia em que ele ia responder a carta desistindo de ser bispo, conversou comigo e mudou de ideia. Ele me chamou no quarto e mostrou aquela carta. Eu falei na cara dele: “Olha, Pedro, eu não entendo você! Você aceitou ser prelado, pastor dessa Igreja como presbítero, e na hora de receber o sacramento, a consagração desse pastoreio, você recusa?”. Aí ele pensou um pouco mais, reuniu o pessoal, conversou e a resposta foi favorável. Por causa desse incidente, ele me considera como padrinho. Eu o considero como um verdadeiro irmão e exemplo para a minha vida. É um homem de uma vida extraordinária, uma profunda vida espiritual, mística, um profeta e também um poeta da melhor estirpe.

Pedro ultimamente deu apoio à entrada dos Xavantes na antiga fazenda Suiá-Missu, que estava ocupada por inúmeros fazendões. Mas graças a Deus o Judiciário deu ganho de causa aos Xavantes. Dom Pedro deu apoio, estímulo, e sempre cutucou o governo para não retroceder. O processo está caminhando firmemente. O que fizeram então? Ameaçaram Dom Pedro: “Esse aqui tem poucos dias para ser eliminado”. Então, Pedro está refugiado.

IHU On-Line – Que perspectiva vislumbra para a Igreja brasileira a partir de agora?

Dom Tomás Balduíno –
A Igreja depende 99,9% do Papa. Então, o Concílio e o Pós-Concílio aconteceram graças primeiro a um papa, um homem extraordinário que foi colocado ali como transição. Ele revirou a igreja de pernas para o ar. O Concílio Vaticano II foi uma coisa notada não só nas Igrejas, mas também no mundo não cristão. Depois Paulo VI aplicou pacientemente o Concílio Vaticano II, e o papa João Paulo II trouxe outra perspectiva. Então, quando muda o Papa, muda tudo. Não tudo, porque a Igreja é plural. Mesmo com toda a perspectiva de unidade, ela é plural.

O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei. O futuro a Deus pertence. Mas tem potencial. E o potencial, a meu ver, aponta para outro rumo, não na linha da hierarquia, do clero, do masculino. Mas na linha do leigo e na valorização da mulher.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Dom Tomás Balduíno –
Acho importante, com relação a esse conjunto que eu falei, a perspectiva de esperança diante de uma situação de muito sofrimento, de angústia e tristeza.

Sucedeu uma coisa na região da Serra da Mesa onde estão os Avá-Canoeiro: nasceu uma criança chamada Pantio. Fazia 22 anos que não nascia nenhuma criança naquela etnia, que é um grupo destinado à extinção. E, de repente, nasce o Pantio, uma linda criança. Isso tem um sabor de Natal, você não acha? Uma estrela que aponta um caminho bonito, um caminho de esperança, um caminho da boa nova, como aconteceu para os magos. Isso que eu queria colocar aqui como perspectiva. De onde se esperava a morte nasceu a vida. E essa vida não é só para os povos indígenas, não é só para o grupo Avá-Canoeiro, mas para todos nós, para o mundo todo. Amém!

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/516656-90-anos-de-transformacao-na-igreja-entrevista-especial-com-dom-tomas-balduino

''Pfarrei-Initiative Schweiz'': manifesto das paróquias suíças

O nosso objetivo é dizer claramente o que fazemos para refletir de modo autocrítico sobre as nossas próprias ações, "interpretá-lo à luz do evangelho" e assim reforçar a convicção solidária entre os agentes de pastoral.

Publicamos aqui o texto da Iniciativa das Paróquias Suíças (Pfarrei-Initiative Schweiz), escrito por agentes de pastoral suíços. O texto foi publicado no sítio da iniciativa (www.pfarrei-initiative.ch), 17-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A situação eclesial atual se caracteriza por comportamentos que muitas vezes levam a quebrar as regras. Nós, agentes de pastoral, queremos expressar claramente qual é a boa prática hoje, para que se reconheça onde exceções e desobediência se tornaram a regra.

O nosso objetivo é dizer claramente o que fazemos para refletir de modo autocrítico sobre as nossas próprias ações, "interpretá-lo à luz do evangelho" e assim reforçar a convicção solidária entre os agentes de pastoral.

Queremos continuar na nossa práxis e rezamos para que a renovação da Igreja continue. Para um resultado positivo, são indispensáveis a oração e a ação crível: porque a nossa vida como Igreja é fundada sobre o exemplo de Jesus de Nazaré, o Senhor crucificado e ressuscitado, que viveu em solidariedade sem restrições com as pessoas ao seu redor, para realizar neles a graça e mostrar a cada um a sua perspectiva de salvação. Por isso, ele também morreu e ressuscitou por nós. Em um projeto de vida orientado pelo seguimento de Jesus Cristo, por isso, vale a palavra do apóstolo: mulheres e homens devem "obedecer antes a Deus do que aos homens" (Atos 5, 29).

Em nosso esforço de identificar o que é natural para nós e o que nos leva à desobediência, sentimo-nos em comunhão com a Pfarrer-Initiative austríaca (Iniciativa dos Párocos austríaca) e com iniciativas semelhantes na Igreja Católica em todo o mundo.

O que é claro para nós:

1. Acreditamos que o próprio Deus opera a salvação na Igreja e nos sacramentos. Não devemos distinguir entre os "dignos" e os "indignos". Compartilhamos, portanto, com todos os batizados que se sentem convidados para a festa do ressuscitado e que por isso vem receber a Comunhão, o "pão da vida" (Jo 6, 48).

2. Compartilhamos com as irmãs e os irmãos de outras Igrejas cristãs a ceia que Jesus nos ofereceu, celebramo-la com eles e participamos também da celebração da ceia nas suas tradições.

3. Pedimos para os casais em segunda união uma bênção para a sua relação e abordamos com atenção e prudência o problema da culpa, da reconciliação e do novo início. Compartilhamos com eles o pão da vida.

4. Consideramos as pessoas em suas diversas orientações sexuais como nossas irmãs e nossos irmãos e nos comprometemos para que façam parte da nossa Igreja com todos os direitos e deveres.

5. Na celebração da Eucaristia e da Palavra, a Palavra de Deus também é apresentada na pregação (homilia) por mulheres e homens batizados e crismados, formados teologicamente.

6. Aos doentes, expressamos encorajamento e celebramos com eles e com suas famílias, se o desejarem, a unção revigorante.

7. De vários modos, propomos às pessoas um caminho em uma vida reconciliada. Estamos convencidos de que o essencial do perdão ocorra no diálogo de reconciliação, na mudança pessoal e na disponibilidade para a reconciliação.

8. Os diáconos e os outros agentes de pastoral recitam junto com o padre partes da Oração Eucarística de intercessão e assim evidenciam a conexão entre os vários encargos e serviços dos quais são responsáveis na Igreja.

9. Como normalmente o testemunho de solidariedade cristã necessita de um encontro direto, esforçamo-nos para que nas nossas paróquias permaneça um espaço para a pastoral, uma sala de pastoral, uma sala de aconselhamento e unidade de agentes de pastoral que ali trabalhe em apoio da comunidade.

10. Cada paróquia celebra a cada domingo, o "Dia do Senhor", com as pessoas e com os agentes de pastoral locais. Além disso, cada paróquia tem uma pessoa específica de referência para a liderança da comunidade.

Por isso, comprometemo-nos para garantir que mulheres e homens qualificados, independentemente do seu status de vida, sejam consagrados para ministérios de responsabilidade na Igreja.

17 de setembro de 2012.

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515571-pfarrei-initiative-schweiz-manifesto-das-paroquias-suicas

Abade beneditino alemão define como dramática a situação atual da Igreja


A publicação mais recente do abade beneditino de Einsiedeln, Martin Werlen, 50 anos, traz o inofensivo título “Descobrir juntos a brasa debaixo das cinzas” (em alemão: Miteinander di Glut unter der Asche entdecken). Mas a sua “provocação” para o Ano da Fé 2012-2013 se centra sobre os problemas que, muitas vezes, na Igreja Católica, são varridos para debaixo do tapete.
O fato de o abade Werlen falar muito claramente deveria causar um certo celeuma em uma polarizada Conferência dos Bispos da Suíça.
A reportagem é de Josef Bossart, publicada no sítio Tagsatzung.ch, 09-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
“Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas debaixo das brasas que muitas vezes me assalta um sentimento de impotência”, declarava em sua última entrevista o cardeal de Milão, recentemente falecido, Carlo Maria Martini.

Martin Werlen citou essas palavras em uma palestra proferida no dia 21 de outubro, por ocasião da abertura do Ano da Fé na igreja da abadia beneditina de Einsiedeln. O texto, que causou alvoroço nos últimos dias, foi revisto e publicado em forma de livreto. Trata-se de um documento de trabalho, que deve ser discutido e talvez criticado, como diz o breve texto de apresentação. “Esperamos que estas palavras encorajem as pessoas envolvidas na Igreja, para além de toda tentação de desespero, a buscar juntas as brasas debaixo das cinzas, para que o fogo volte a arder”.
Punhados de cinzas frias
Martin Werlen considera a sua reflexão absolutamente como uma “pro-vocação”. Nessa palavra, estão contidos os termos “vocação”, que significa “chamado, convite”, e o prefixo “pro-”, que diz claramente que esse chamado é um desafio e um estímulo “positivos”.
Werlen percebe inúmeros punhados de cinzas frias na Igreja de hoje. O seu diagnóstico é impetuoso: a situação da Igreja, 50 anos depois da abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965), é dramática, e não só nos países de língua alemã. Não se trata apenas do agravamento da situação de falta de padres e religiosos, nem se trata apenas do constante declínio da frequência às igrejas… O verdadeiro problema, segundo Werlen, está além disso: “Falta fogo!”.
Cerca de 20% da população suíça não pertence a nenhuma comunidade de fé, e essa tendência está aumentando. Para Werlen, é claro: “Se as coisas continuarem assim, a nossa fria Igreja, nestas latitudes, pode efetivamente desaparecer, juntamente com as suas instituições”.
Nessa situação, é grande a tentação de permanecer apegados às cinzas, diz Werlen, chegando a falar da forte polarização existente entre conservadores e progressistas na Igreja de hoje. Em ambos os lados, gira-se muito ao redor das cinzas. Para ele, é claro: “Se, como Igreja, nos bloqueamos nas polarizações, impedimos que as pessoas descubram a brasa que dá a vida e que quer continuar ardendo hoje também”. O objetivo deve ser “ouvir hoje o que Deus quer nos dizer, e também fazê-lo”.
Problemas por culpa própria

Werlen fala muito claramente sobre os problemas em que a Igreja se encontrará por culpa própria. Se ainda há hoje expoentes do clero que se lamentam de que há 40 anos são propostos à discussão sempre os mesmos problemas, significa que nisso há algo central em jogo, diz Werlen. “Se os problemas não forem enfrentados ou se nem mesmo é lícito falar a respeito, com esse comportamento colocamos em jogo a nossa credibilidade – e, com ela, também a fé. O essencial está em jogo!”.
E ainda: ato de desobediência é não levar a sério as pessoas e as situações. Aludindo à Pfarrei-Initiative Schweiz (Iniciativa das Paróquias da Suíça) e tentativas semelhantes, espalhadas em várias partes do mundo, Werlen escreve: “Como aqueles que têm a responsabilidade não se dão conta da situação e são, portanto, desobedientes, nascem iniciativas que são gritos de socorro, medidas de emergência, que são, sim, compreensíveis, mas que também podem levar à divisão ou ao abandono da instituição”. Ele expressa, por isso, compreensão pelas muitas iniciativas que surgiram nas últimas décadas, mas quer continuar por outro caminho: “Descobrir juntos a brasa debaixo das cinzas”.
Credibilidade perdida
Segundo Martin Werlen, nos últimos anos, a Igreja “perdeu muita credibilidade”. Se, por exemplo, hoje, ainda há responsáveis eclesiásticos que chegam a dizer publicamente que “a maior parte dos abusos sexuais não acontecem na Igreja, mas nas famílias”, eles demonstram, dessa forma, que “não só têm uma posição defensiva irresponsável, mas também incompetência teológica”.
Desse modo, enfraquece-se o testemunho da Igreja: “Mesmo quando os abusos sexuais ocorrem nas famílias dos batizados e batizadas, são abusos cometidos na Igreja. Todos os batizados fazem parte da Igreja. O testemunho deve ser de todos os batizados”.
Sistema das nomeações dos bispos
Werlen vê cinzas frias a serem removidas, por exemplo, no atual sistema da nomeação dos bispos. Para a Igreja do século XXI, deveria ser natural que batizados e batizadas, crismados e crismadas de uma determinada diocese fossem envolvidos “adequadamente” no processo de nomeação.
Werlen vê cinzas frias também na discussão emperrada sobre o celibato dos padres. Ele considera que a vida celibatária é um caminho possível para seguir a Cristo, assim como a vida conjugal. Ambas as formas de vida são dons de Deus, mas isso já não é mais percebido pelas pessoas, nem pelo batizados e batizadas. “Conseguimos apresentar o seguimento de Cristo no celibato de tal modo a ser considerado lei”.
Também há cinzas frias na questão de gênero, com relação à qual a Igreja sempre se mostra “desajeitada e impotente”: “O ser humano é homem ou mulher. Mas a Igreja continua tendo dificuldade para dizer sim à mulher”.
Aconselhar o papa por cinco anos
O abade de Einsiedeln também vê a possibilidade de percorrer novos caminhos no órgão que reúne os conselheiros do papa. Ele acredita que há espaço suficiente para novas formas, levando-se em conta que, no fim, o cardinalato não faz parte do depósito da fé. Werlen faz uma proposta: a cada cinco anos, pessoas provenientes de todas as partes do mundo – mulheres e homens, jovens e velhos – poderiam ser nomeados no órgão dos conselheiros. A cada três meses se encontrariam em Roma com o papa. Nenhum dos presentes diria ou calaria nada por preocupação com a sua carreira. Esses encontros, escreve Werlen, “poderiam trazer uma dinâmica nova na direção da Igreja”.

sábado, 12 de janeiro de 2013

CRONISMO DO REINO DE DEUS A CAMINHO

No passado dia 10 de Dezembro, realizou-se em Lisboa uma merecida homenagem a Frei Bento Domingues, com a apresentação do livro Frei Bento Domingues e o Incômodo da Coerência, onde escrevem personalidades destacadas de diferentes quadrantes da cultura, da política, da religião.
Os intervenientes na sessão salientaram os valores por que Frei Bento se rege: a coerência, o diálogo, o humanismo universalista (Guilherme d’Oliveira Martins), a sabedoria, a dignidade humana, a ética (Maria José Morgado), o amor, a tolerância (Luís Osório, que concluiu: “Sempre que vejo um homem e penso em Jesus, penso em Frei Bento”).
Ao longo da sua vida, foi deixando lições fundamentais: a paixão por Jesus Cristo, a liberdade cristã – “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, escreveu São Paulo -, uma teologia que tem de ser encarnada, o combate pelos direitos humanos, a magnanimidade com os perseguidores, o despojamento em relação ao Poder, que conhece, mas ao qual nunca se colou, a alegria, aliada a uma ironia fina, uma generosidade sem limites. É enorme a dívida da Igreja e dos portugueses para com Frei Bento Domingues.
O que aí fica é uma brevíssima tentativa de leitura da sua teologia, expressa cada domingo nas suas crônicas. Ele também lê o Evangelho, e lá está, no Prólogo do Evangelho segundo São João: o Logos, a Palavra, fez-se carne, ser humano frágil, fez-se tempo (Chronos), assumindo-o na sua fragilidade e dando-lhe sentido. Aí está a crônica no sentido teológico: a Palavra no tempo – a Palavra habita o tempo, e então o ser humano transcende o tempo na sua voragem, há um Sentido de todos os sentidos – quantas vezes, nos seus textos, Frei Bento refere esta ideia: a articulação do Sentido de todos os sentidos.
O que são os Evangelhos senão narrativas – histórias do e no tempo, iluminadas pela Palavra? O que são os evangelistas senão cronistas do Reino de Deus a acontecer em histórias paradigmáticas? Será possível uma teologia viva que não seja teologia narrativa? Concretamente a teologia cristã o que é senão reflexão explicitada sobre a praxis do Reino de Deus? É assim que Frei Bento é o teólogo-hermeneuta, se se quiser, cronista do Reino de Deus, que é o reino do homem bom, justo, livre, fraterno e feliz.
E aí estão os seus grandes princípios arquitetônicos: teologia do Reino de Deus; contra a gnose, porque “não há salvação fora do mundo”; teologia que não abandona a razão crítica, também em relação à Igreja, frequentemente “pasmada e sentada”, no dizer de Fernando Alves, até porque sabe que a razão autônoma, feito o seu percurso todo, descobre que ela própria se acende na noite do Mistério e que só um homem livre pode dizer sim a Deus; teologia que vincula ética e estética; teologia ecumênica: todos estão incluídos, sem anular, pelo contrário, implicando, as diferenças; teologia para a paz e articulando-se à volta da ética e da mística, num vínculo indissolúvel, pois a nova catolicidade passa por essa outra nova globalização desde baixo, desde os débeis, pobres e marginalizados, à escala mundial.
O tempo, na sua fragilidade e caráter efêmero, é habitado: o Verbo fez-se carne no tempo. Frei Bento Domingues continuará a alumiar-nos como cronista do Reino de Deus a caminho, Reino de uma humanidade boa, livre, justa e feliz. Precisamente a concretização desta bondade, liberdade, justiça, fraternidade, diálogo, felicidade, no horizonte sempre mais aberto de esperança no Sentido de todos os sentidos, irá sendo o critério de verificação da verdade da fé e da teologia, uma verificação sempre frágil, porque, num mundo que é processo, a verificação última é para todos escatológica: só no fim se saberá.
De todos os modos, como ele escreveu, “A religião verdadeira é a respiração da alegria da terra ou o projeto contra o sofrimento do mundo. Quando uma religião, uma igreja ou uma seita se cala perante a humilhação da condição humana, é porque se esqueceu da pergunta de Deus que percorre a história da desumanidade: ‘que fizeste do teu irmão?’ A arte de viver de Jesus de Nazaré foi esta pergunta feita carne, humanidade de Deus.”
Anselmo Borges – 05-01-201

Fonte: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2977034&seccao=Anselmo%20Borges&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-1

CELEBRAÇÃO NATALINA GUARAPUAVA - PARANÁ - 2012


 

Conforme bela sugestão sua, estamos encaminhando algumas fotos do encontro do nosso grupo de Guarapuava. Nos reunimos aqui em casa e fizemos uma celebração primeiramente buscando entender que a solenidade do natal nasceu como um forma de substituir as festas pagãs dedicadas ao deus sol no solstício de dezembro e buscamos em seguida aprofundar nossa celebração assentada na fé em Jesus que se manifesta despjado de toda divindade e revestido da fragilidade humana. Celebramos com quatro gestos: proclamamos primeiro o Evangeelho de Lucas, em seguida buscamos partilhar o que a Palvra de Deus inspirou a cada um.Depois como celebração cada um deus um presente a um dos particippantes para dizer que quer estar presente na vida de quem recebeu o presente assim como Cristo habita conosco.Continuando a celebração rezamos juntos e encerramos partilhando uma refeição para a qual cada um troxe uma parte.

Um grande abraço para todos.

 Armando e Altiva

 Guarapuava
Localizada no centro-sul do estado do Paraná, Guarapuava está no trajeto entre a cidade de Curitiba e Foz do Iguaçu, nas margens da BR 277, principal Rodovia do Mercosul, que liga o Porto de Paranaguá ao Paraguai e à Argentina.

Guarapuava é servida por duas ferrovias, operadas pela ALL e pela Ferroeste, que interligam o Porto à região oeste. O aeroporto de Guarapuava é equipado e homologado para vôos por instrumentos (IFR) e pode operar aeronaves de médio porte, além de contar com o serviço de abastecimento de aeronaves AVGAS e QAV.

Além da BR 277, o sistema rodoviário é integrado pelo entroncamento da PR 170 e da PR 466, que fazem ligação com o sul do estado, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e também com o norte do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Economia
Com uma economia diversificada, Guarapuava é local para investimentos em todas as áreas. A cidade se destaca no segmento agrícola, madeireiro e de produção de grãos, especialmente o milho. Outros setores que estão em pleno desenvolvimento são a indústria alimentícia e de papel e da produção de pintainhos.

Além das indústrias instaladas nos distritos industriais, Guarapuava conta com uma imponente Planta Industrial em Entre Rios, operada pela Cooperativa Agrária, onde se encontra também a maior Maltaria Cervejeira da América Latina.

Educação
Além de uma educação fundamental de qualidade, Guarapuava se consolida como pólo referência em educação de nível superior. Juntas, a Unicentro, Faculdades Guarapuava, Faculdades Guiaracá e a Faculdade Campo Real, ofertam mais de 70 cursos de graduação, 45 cursos de pós-graduação e mestrado.

História e Turismo
Com 200 anos de história, Guarapuava é um lugar perfeito para aprender muito da história do nosso país e desfrutar das belezas naturais que a cidade oferece.

A cidade conta com belíssimos parques, praças, casarões antigos, igrejas e capelas, além de um museu, que registra a colonização da região e do estado.

Em uma área de preservação, localizada a 46 quilômetros da cidade, está o Parque Municipal São Francisco da Esperança, com uma das maiores saltos do Brasil. Os 196 metros de queda d’água livre se encontram no centro de um belíssimo cânion, coberto de vegetação, e frondosos pinheiros araucária.

Estrutura
Com uma população de mais de 172 mil habitantes, Guarapuava dispõe de elementos estruturais para o desenvolvimento de novos empreendimentos na cidade, bem como a realização de eventos de negócios, congressos, seminários, encontros técnicos e exposições nacionais e internacionais. Além de espaços para a realização de eventos empresariais, a cidade dispõe de um belíssimo ginásio poliesportivo e uma grande praça para eventos religiosos. A cidade conta com uma estruturada rede hotéis e dispõe ao visitante todo o conforto e facilidade de acesso.

Tudo isso faz de Guarapuava um excelente lugar para se investir, trabalhar e viver.

Localização
Guarapuava está localizada na região sul do Brasil, centro-sul do estado do Paraná, terceiro planalto, chamado Planalto de Guarapuava.

Coordenadas Geográficas
Latitude Sul: 25º 23′ 26”.
Longitude Oriental: 51º 27′ 15” Oeste – W. Greenwich.

Clima
Moderado, subtropical, úmido. Invernos com geadas e até neves. A temperatura média anual é de 16,8ºC. A média máxima é 36ºC e a mínima, 6,8ºC.

Geologia
Formação botucatu, formada por arenitos, aflora em uma estreita faixa na Serra da Esperança e a Formação Serra Geral a qual é a mais representativa, sendo constituída de rochas vulcâncias, principalmente basalto e riodacitos.

População (dados oficiais IGBE 2010)
População: 167.328 habitantes.
Urbana: 152.993 habitantes.
Rural: 14.335 habitantes.
Homens: 81.797
Mulheres: 85.531

Limites
Norte: Campina do Simão e Turvo.
Sul: Pinhão
Leste: Prudentópolis e Inácio Martins.
Oeste: Candói, Cantagalo e Goioxim.

Hidrografia
Os principais rios são: Jordão, Pinhão, Coutinho, Campo Real, das Mortes, Piquiri e São João.



 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O gozo de cada dia

Ivone Gebara, no seu livro ‘Rompendo o Silêncio’ (Vozes, 2000), quebra uma lança a favor do ‘gozo de cada dia’. A teologia da libertação tem insistido muito, e com razão, nos aspectos negativos e até deprimentes da formação do Brasil e da América Latina. O continente anda curvado sob o peso quase insuportável da opressão. Gebara faz muito oportunamente o contraponto, a partir de sua experiência de vida num bairro periférico de Recife. Ela apresenta a vida como sendo ao mesmo tempo perdição e salvação, pecado e graça, paixão e ressurreição. Não a gloriosa ressurreição do fim dos tempos, mas a mini-ressurreição de cada dia, que dá coragem para viver. Um gesto, um olhar, uma mão estendida, tudo pode ser a salvação em momentos de sofrimento. A solidariedade do terceiro mundo contrasta vivamente com a ‘nova pobreza’ do primeiro mundo, onde existe muito menos solidariedade concreta e onde há pessoas que morrem na mais completa solidão. Afinal, mesmo sem ter acesso a uma boa educação formal, o povo destas terras vive a teologia da solidariedade com sabedoria, assimila com tranqüilidade as contradições na vida, aprende na dura sorte que a vida é contraditória, ou seja, bonita e feia ao mesmo tempo. A cultura popular, ao mesmo tempo em que manifesta evidente sofrimento, revela não menos evidente alegria, uma combinação entre dor e festa, privação e senso de abundância. Cultiva-se um agudo senso por pequenos sinais de salvação e prazer no meio da favela, da miséria. O que há de mais bonito em movimentos como o dos Sem Terra (MST) é essa experiência de salvação imediata e instantânea: um gesto de solidariedade e estima, ajuda e bondade. O momento presente é momento de salvação. Essa insistência no gozo do momento encontra resistência por parte das igrejas, que costumam ensinar que o cristão tem de lutar agora para poder gozar depois (no céu). As igrejas dizem: ‘Ainda não é tempo de gozar, é tempo de lutar’. Mas isso não funciona na vida concreta, pois aí a luta muitas vezes é sem perspectiva à vista. A pessoa que luta a vida toda e nunca goza, acaba cansando e finalmente abandona a ‘luta’. Na sua sabedoria, o povo sabe alternar a luta com o gozo. E Ivone Gebara acrescenta: um dos grandes ‘fenômenos’ da vida nos meios populares está nessa aparente contradição entre um povo sofredor e um povo extremamente alegre. Como diz o bloco carnavalesco: ‘Nós sofre, mas nós goza’. É isso que fascina e atrai as pessoas. Inclusive, penso que é isso, afinal, que constitui o sucesso da política de Lula, que conserva na alma a sabedoria tipicamente popular do valor das coisas provisórias. A maturidade e sabedoria do povo fazem com que as pessoas não acreditem muito nas mega-libertações, mas se alegrem com as mini-libertações de cada dia. Sinal de uma admirável capacidade em superar o sofrimento por um indestrutível otimismo, uma coragem para viver ‘aqui e agora’, de passar por cima de muita coisa para poder viver. Eis a tática, eis a metodologia. Na medida em que a pessoa melhora, o mundo melhora. E quando todos melhoram, o mundo muda. Recomendo vivamente o livro de Ivone Gebara ‘Rompendo o silêncio’. Leitura que enriquece!

Eduardo Hoornaert.

“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz”

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.
Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.
Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’.
Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’.
‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’
‘Que tanta coisa?’, perguntei.
‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!
Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!
Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’
Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…
A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!’
O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.
Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno…
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald…
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático.’ Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:… “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz”!!
Frei Beto

Satisfação das necessidades fundamentais?

Satisfação das necessidades fundamentais?
fonte: Jornal do BrasilLeonardo Boff*
O ser humano é, por natureza, um ser de muitas carências. Precisa de grande empenho para atendê-las e assim poder viver, não miseravelmente mas com qualidade. Atrás de cada necessidade, se esconde um desejo e um temor: desejo de poder satisfazê-la de forma a mais satisfatória possível e o temor de não consegui-lo e aí sofrer. Quem tem, teme perder: quem não tem, deseja ter. Assim é a dialética da existência.
Mestres das mais diferentes tradições da humanidade e das ciências do humano convergem mais ou menos nas seguintes necessidades fundamentais:
Temos necessidades biológicas: numa palavra, precisamos comer, beber, morar, nos vestir e ter segurança. Grande parte do tempo é empenhada em atender a tais necessidades. A grande maioria da humanidade as satisfaz de forma precária, ou por falta de trabalho ou porque a solidariedade e a compaixão são bens escassos. A primeira petição do pai-nosso é pelo pão cotidiano, porque a fome não pode esperar.
Mas não pedimos a Deus que cada dia faça milagres e assim nos dispense de produzir o pão. Pedimos que os climas e a fertilidade dos solos sejam favoráveis e que haja a cooperação na produção e distribuição dos alimentos. Só então exorcizamos o medo e atendemos o nosso desejo básico.
Temos, além disso, necessidade de segurança: podemos adoecer e sucumbir a riscos que nos tiram a vida. Podem provir da natureza, das tempestades, dos raios, das secas prolongadas, dos deslizamentos de terra, de todo tipo de acidentes. Podem provir, principalmente, do próprio ser humano, que não só tem dentro de si o instinto de vida mas também o instinto de morte; pode perder a autocontenção e eliminar o outro. Tudo isso nos produz medo. E temos esperança de contorná-lo. O fato de termos vivido nas cavernas e depois em casas mostra nossa busca de segurança.
O fato é que nunca controlamos todos os fatores. Sempre podemos ser vítimas, ou inocentes ou culpadas. E é então que gritamos por Deus, não para que nos tire da beira do abismo mas que nos dê coragem para evitá-lo e sobreviver.
Temos, em terceiro lugar, necessidade de pertença: somos seres societários. Pertencemos a uma família, a uma etnia, a um determinado lugar, a um país, ao planeta Terra. O que torna penoso o sofrimento é a solidão, o não poder contar com um ombro amigo e uma mão acolhedora. Como somos frutos do cuidado da nossas mães que nos seguraram nos braços, queremos morrer segurando a mão de alguém próximo ou de quem nos ama.
No fundo do abismo existencial clamamos pela mãe ou por Deus. E sabemos que Ele nos atende, porque é sensível à voz de seus filhos e filhas e sente o pulsar de nosso coração amedrontado. Ser reduzido à solidão é ser condenado ao inferno existencial e à ausência de qualquer comunhão. Por isso, importa garantir o sentimento de pertença, caso contrário nos sentimos como cães abandonados e vagantes no mundo.
Em quarto lugar, temos necessidade de autoestima. Não basta existirmos. Precisamos que nossa existência seja acolhida, que alguém por palavras e atos nos diga “seja bem-vindo ao nosso meio, você conta para nós”. A rejeição nos faz ter, ainda vivos, a experiência de morte. Precisamos, pois, ser reconhecidos como pessoas, nas nossas diferenças e singularidades. Caso contrário, somos como uma planta sem nutrientes, que vai mirrando até morrer. E como é importante quando alguém nos chama pelo nome e nos abraça! Nossa humanidade negada nos é devolvida, e podemos seguir com esperança e sem medo.
Por fim, temos necessidade de autorrealização. Esse é o grande anseio e desafio do ser humano: de poder realizar-se a si mesmo e de tornar-se humano. Que é o humano do ser humano? Não sabemos exatamente porque até o inumano pertence ao humano. Somos um mistério para nós mesmos. Não é que nada saibamos do humano. Ao contrário, quanto mais sabemos, mais se alargam as dimensões daquilo que não sabemos. Temos saudades das estrelas de onde viemos.
Mas sabemos o suficiente para descobrirmo-nos seres de abertura, ao outro, ao mundo e ao Todo. Somos seres de desejo ilimitado. Por mais que busquemos o objeto que sacie nosso desejo, não o encontramos entre os seres à nossa volta. Desejamos o Ser essencial e topamos apenas com entes acidentais. Como, então, conseguiremos a nossa autorrealização se nos percebemos como um projeto infinito?
É nesse afã que ganha sentido falar de Deus como o Ser essencial e o obscuro objeto de nosso desejo infinito. Só Ele preenche as características do Infinito, adequadas ao nosso projeto infinito. Autorrealizar-se, portanto, implica envolver-se com Deus. Envolver-se com Deus é despertar a espiritualidade em nós, aquela capacidade de sentir uma Energia poderosa e amorosa que perpassa toda a realidade. É poder ver na onda o mar e na gota d’água, a imensidão do Amazonas. Espiritualidade é sentir a fome e a sede de um derradeiro aconchego onde, enfim, todas as nossas necessidades serão satisfeitas, onde morrem todos os temores e descansaremos.
Enquanto não elaborarmos em nós esse Centro, sentir-nos-emos sempre na pré-história de nós mesmos: seres inteiros mas inacabados e, no termo, frustrados.
Ao entrarmos em comunhão com o Ser essencial pela entrega silenciosa e incondicional, pela oração e pela meditação, abrimos um manancial de energias incomparável e insubstituível. O efeito é a pura alegria, a leveza da vida, a bem-aventurança possível aos caminhantes.
* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é escritor. - lboff@leonardoboff.com

Leonardo Boff - lboff@leonardoboff.com
Filósofo, Teólogo, Escritor

 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Católicos irlandeses gostariam de ver padres casados e mulheres ordenadas

padres
Nove em dez irlandeses católicos gostaria de ver os seus sacerdotes casados            
Uma maioria muito expressiva de irlandeses católicos (87%) acha que os padres deveriam ter o direito de casar e constituir família. O mesmo estudo indica que 60% dos intrevistados discorda da posição da Igreja sobre a homossexualidade.
Divulgado na quinta-feira (12) pelo jornal “The Guardian”, o estudo realizado pela Associação de Padres Católicos, uma organização não oficial, conclui que nove em dez irlandeses católicos gostariam de ver os seus sacerdotes casados.
O inquérito, feito com base em mil católicos irlandeses, revelou outras opiniões interessantes, como o fato de haver grande vontade de ver a ordenação das mulheres, defendida por 77%.
Mas foi a questão da homossexualidade que mais polêmica gerou, com 60% das pessoas a manifestar a sua “forte discordância” com a rigidez da Igreja no que se refere a pessoas com orientação sexual não heterossexual. Apenas 9% concorda com o fato de a homossexualidade ser “imoral”, tal como é pregado pela Igreja.
Os escândalos que têm ligado a Igreja irlandesa à pedofilia teria influenciado os 55% que consideram que os bispos deveriam ter mandatos definidos e não até aos 75 anos, como acontece no presente.
Fonte: Jornal de Notícias/Portugal



 

O cristianismo ainda é relevante para o mundo de hoje?

O CRISTIANISMO AINDA É RELEVANTE NO MUNDO DE HOJE? Eduardo Hoornaert Quarenta anos atrás, seria impossível abordar o tema acima indicado da forma em que está sendo formulado no título desta conferência. Até a década de 1960, ninguém duvidava da relevância do cristianismo para o mundo. A pergunta nem podia ser formulada. Todos os cristãos estavam convencidos que o cristianismo era relevante para o mundo. O fato de se abordar hoje o tema, da forma em que vai expresso acima, mostra que estamos vivendo tempos novos. Entre 1960 e os dias de hoje, algo muito importante aconteceu, sem fazer muito alarde. Pois no momento em que questionamos a relevância do cristianismo no mundo de hoje, mostramos que percebemos o cristianismo de forma diferente das gerações anteriores. Ora, quem pensa de forma diferente está vivendo um processo revolucionário. Os paradigmas fundamentais que guiam a compreensão das coisas estão mudando. Temos de ver o que isso significa para nós, com a possível precisão. Para tanto, proponho a comparação com uma revolução que nos precedeu de três ou quatro séculos. Efetivamente, a ‘revolução da modernidade’, que culminou na Revolução Francesa do final do século XVIII, tem importantes pontos em comum com a revolução que está em estado de incubação e (em certos casos) fermentação nos nossos dias. O que ocorre entre nós está na continuidade com o que ocorreu nos séculos XVII e XVIII. A eclosão de violência (guerra, perseguição, mortes), ocorrida na França a partir de 1789 (e que chamamos ‘revolução francesa’) nada mais era que a culminância de uma revolução que já fermentava nas cabeças e nos corações durante mais ou menos dois séculos, em diversos países da Europa. O grito a favor da liberdade, fraternidade e igualdade, que enchia as ruas de Paris em 1789, já existia na forma de sussurros, aspirações, sonhos, visões e reflexões muito tempo antes, de muitas formas. Apresento só um caso que me parece significativo (o caso Spinoza), pois toca de perto o tema que nos reúne aqui hoje: a relevância do cristianismo. Isso é meu primeiro ponto. Depois, num segundo ponto, tento qualificar a revolução que estamos vivenciando. Termino como um terceiro ponto, no qual procuro responder à pergunta: ‘O que fazer hoje?’. 1. Spinoza e o despertar do espírito crítico depois do sonho medieval 2. A onda que se iniciou nos anos 1970 3. Para um cristianismo dialogal. 1. É possível indicar com precisão uma das marcas iniciais da modernidade revolucionária. Num quarto simples da cidade de Haia, na Holanda, em 1670, Spinoza, um judeu holandês escreve um livro já imbuído do ’spirit’ da revolução moderna. Spinoza contesta pela primeira vez a autoria dos primeiros cinco livros da bíblia (Pentateuco) por Moisés, supostamente inspirados por Deus. Para Spinoza, o Pentateuco é uma coletânea de narrativas populares antigas e prescrições sacerdotais reunidas por Esdras e outros intelectuais após o retorno das elites judaicas do exílio babilônico no século V aC, portanto sete séculos após a morte de Moisés. As palavras de Spinoza caíram como uma bomba, não só sobre a cultura do Ocidente (cristãos e judeus), mas igualmente sobre o mundo islamita. Desde então, os tremores causados por Spinoza se alargaram e não mais deixaram as autoridades religiosas cristãs, judaicas e islamitas em paz. Pois Spinoza foi ganhando adeptos sempre mais numerosos, no decorrer dos últimos três séculos. Os exegetas passaram a estudar as línguas bíblicas (hebraico, o aramaico e o grego), ensaiaram uma leitura da bíblia em consonância com os ditames da ciência moderna e enfrentaram corajosamente obstáculos eclesiásticos. Graças à progressiva introdução da idéia de tolerância no decorrer do século XVIII, tanto na França como na Alemanha, ninguém mais foi queimado vivo por emitir opiniões contrárias às autoridades, como ainda aconteceu com Giordano Bruno em 1600. As idéias humanitárias triunfaram com a Revolução Francesa de 1789. O instituto eclesiástico sempre reagiu de forma muito nervosa diante de qualquer tentativa de se mexer com os antigos dogmas, mas ao mesmo tempo nunca permitiram que se discuta a maneira em que a extraordinária riqueza de metáforas, símbolos, parábolas e visões da bíblia ficou sendo ‘engarrafada’ em fórmulas cuidadosamente estudadas na base de um elaborado cálculo anti-herético. Ninguém podia nem de longe mexer com o símbolo da fé cristã, promulgado pela assembléia episcopal de Nicéia (325). Foi aí que as impressionantes imagens religiosas do evangelho de João (a Palavra de Deus desce do céu à terra, divulga a mensagem de um Deus Pai e volta ao céu, depois de ter deixado na terra o Espírito Santo) foram traduzidas em dogmas. Muitos continuaram mexendo com o que era ‘intocável’ e daí nasceu um labirinto tão intricado de explicações, controvérsias e hipóteses, que é praticamente impossível seguir tudo . Só quero lembrar que os papas católicos sempre quiseram colocar um dique contra a invasão do espírito científico em área que lhes parecia privativa, mas em vão. O embate faz vítimas, entre as quais se destaca o sacerdote francês Alfred Loisy (1857-1940) cujo livro ‘O Evangelho e a Igreja’ (L’Évangile et l’Église), publicado em 1902, defende uma tese desde muito defendida, inclusive por intelectuais do império romano (Porfírio e Celso): os evangelhos não correspondem fielmente à história de Jesus. Mas não só no mundo católico os estudos ‘modernos’ causaram problemas, o mundo protestante também foi afetado. Adolfo von Harnack, grande estudioso protestante alemão, encontrou também forte oposição por parte da igreja luterana. Mas tudo isso não parou o movimento. No século XIX nascem a egiptologia, a assiriologia, a epigrafia semita etc. No século XX entram a filologia e a arqueologia bíblica, provocando sucessivos sustos nos que acreditam nas ‘eternas verdades’ bíblicas. Ao mesmo tempo, avança-se no mapeamento de um universo religioso imaginário comum a todos os povos que mantiveram contato com o povo hebreu, não só a Mesopotâmia mas também o Egito. Percebe-se sempre mais que as grandes imagens bíblicas são comuns ao imaginário religioso do Oriente médio: o céu (Deus Criador), a terra (paraíso terrestre), o ar (ascensão), o sopro animador (Espírito Santo). Mesmo os utensílios agrícolas de cada dia como a enxada, o arado, a pá, o torno (Deus torneiro), a fornalha (inferno) servem como símbolos religiosos. O inferno fica em baixo da terra, onde vivem os demônios, monstros e outras ameaças. Entre nós e o céu atuam os anjos, protetores da vida. Fala-se em ‘filhos de Deus’ (título dado aos faraós do Egito) e em virgens que geram deuses. Estudiosos como Sir James George Frazer arrolam diversas narrativas de dilúvios na Babilônia, na Grécia, na Índia, na Austrália, em Nova Guiné e na Melanésia, na Polinésia e na Micronésia e até na América do Sul, na América central e no México, na América do Norte, na África, um pouco por todo o planeta, abrindo campo para um estudo dos mitos religiosos em escala planetária . Vai se diluindo sempre mais a ideia de que ‘a bíblia tinha razão’ , assim como a referência absoluta à formulação do Concílio de Nicéia (325). Já no século XIX, estudiosos alemães lançam dúvidas sobre o valor histórico do evangelho de João. Em torno de 1900 já é consenso que os evangelhos de Mateus e Lucas assimilam muita coisa do imaginário popular, em contraste com o evangelhos Q (dos anos 50) e Tomé, que não divinizam Jesus. Esse último, constituindo a descoberta mais famosa de Nag Hamadi (1945), faz sua entrada no rol dos evangelhos cujo estudo se impõe a quem quiser pesquisar as origens cristãs. Na virada do século vinte e um, a lingüística (Ricoeur, Bakhtin, Wittgenstein, Frege, Habermas, Gadamer) penetra nos estudos bíblicos e demonstra a necessidade de se estudar a mediação literária para se chegar ao Jesus da história. Assim a perspectiva de Bultmann (1926) (que dizia que não se pode dizer praticamente nada sobre Jesus a partir dos evangelhos) é revertida e os especialistas estão de acordo que podemos conhecer Jesus, mas não da forma em que está sendo apresentado pela tradição das igrejas. O problema é Nicéia, não os evangelhos. Concluindo: como Spinoza resume, em poucas palavras, o espírito revolucionário que o anima? No seu ‚Tratado teológico-político’ (1672), ele responde com toda clareza: ‘o mais grave erro da teologia consiste em ocultar a diferença entre conhecer e obedecer, fazendo-nos tomar o princípio da obediência como modelo do conhecimento’. A superação da subordinação do conhecimento (do espírito crítico, da ciência, do estudo, da pesquisa, do pensamento livre) à obediência (à igreja, ao estado, aos superiores), eis o que significa, em última análise, a revolução moderna. 2. Essa superação da obediência pelo conhecimento é o elo que liga a revolução moderna com a revolução atual (que ainda não tem nome). Todos sentimos, mais pelo coração que pela cabeça, que algo de fundamental está mudando, mas é difícil expressar com palavras o que acontece. Por isso dou aqui apenas uns itens em que a mudança se manifesta. Haverá decerto outros pontos (e seria bom se os(as) participantes apontassem alguns). - Até 1970, as igrejas ainda conseguem colocar um dique contra a invasão do pensamento livre no seu recinto, mas isso não é mais possível. O dique rompeu, as águas correm soltas. No caso da igreja católica, é marcante a diferença entre a primeira viagem de um papa ao Brasil (em 1980) e a viagem do papa em maio 2007. O papa João Paulo II ainda viajava sob aplausos universais. Agora, o papa viaja no meio da fermentação de novas idéias no campo religioso. A mídia faz tudo que pode para ‘esquentar’ o povo a participar da viagem do papa Bento XVI, mas não está mais conseguindo animar as pessoas, como antes. Os comerciantes de santinhos, bonés e bandeirinhas, em Aparecida, já estão reclamando. Vamos ver como se manifestará a diferença entre as viagens de João Paulo II e Bento XVI. Pode ser que a mídia oculte, vamos ver. De qualquer modo, é típica a atitude nervosa em torno da ‘beatificação’ de João Paulo II por seu sucessor. A coisa parece que não pega mais. São Frei Galvão já está sendo ridicularizado (as pílulas de Frei Galvão). São apenas sinais esparsos, mas eles indicam o futuro. - Quanto à sociedade em geral, o sinais de crise aparecem por todo canto, em todo o planeta (por onde se espalha a influência da cultura ocidental, pois se trata basicamente de uma crise da cultura ocidental): crise mundial da educação; crise da segurança; crise do casamento (ficar); crise do estado (as multinacionais mandam); crise da autoridade (não há ‘figuras’); emancipação da mulher; dignificação dos homossexuais; libertação do sexo; crise da democracia (discussões em torno de Chavez), universalização da corrupção. Vocês devem ter outros exemplos em mente. Com definir o âmago da presente revolução? Quais são os elementos fundamentais? O teólogo José Comblin responde, num artigo recente da Revista Eclesiástica Brasileira, Vozes, Petrópolis, janeiro 2007: ‘há uma terrível contradição entre a aspiração à liberdade que nasce na revolução cultural dos anos 1970 e o sistema de economia mundial que exerce uma ditadura nos corpos e nas mentes’. Nesta frase tudo está dito. Há dois ingredientes que fazem a revolução atual: (1) de um lado uma ‘aspiração à liberdade’ nunca dantes verificada com tanta amplidão; (2) de outro lado uma ‘ditadura nos corpos e nas mentes’ exercido pelo sistema de economia mundial (companhias multinacionais, a mídia, o mercado, o capitalismo). Essa contradição faz com que estejamos metidos num caldeirão em plena fermentação. Ninguém sabe o que vai resultar dessa fermentação, se haverá uma explosão violenta ou se a humanidade encontrará uma solução pacífica. O que sabemos é que o cristão tem de agir dentro desse processo. Aí está a relevância do cristianismo no mundo de hoje. 3. O que fazer? Penso que Chesterton, citado no portal deste texto, disse a coisa certa: O cristianismo tem de ser re-inventado para corresponder aos anseios da revolução em curso. Trata-se de um desafio imenso e nem todos captam sua importância. Muitos ainda vivem espiritualmente no passado e não chegam a perceber o problema, nem enxergam que tudo está desmoronando em seu redor. As autoridades eclesiásticas, de sua parte, não facilitam a percepção do problema, pois evitam falar do assunto, perdem contacto com a realidade vivida e vão se fechando em sua concha. O papa, por exemplo, se agarra a voláteis aclamações populares e mediáticas, mas não explica o que está acontecendo. Enquanto isso, ninguém presta atenção ao que está dizendo quando recita formalmente o ‘símbolo da fé’ ou participa de alguma liturgia. As palavras gastas que se ouvem nas igrejas viram relíquias mortas, mas, mesmo assim, muitos crentes preferem morrer com elas a colaborar na elaboração de um cristianismo renovado. Bispos como o anglicano Spong ainda são excessões. No seu livro ‚Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo’ (Verus, Campinas, 2006), cuja leitura recomendo vivamente, ele desenvolve as etapas penosas da conversão do cristianismo tradicional a um cristianismo sintonizado com a atual revolução nas mentes e nos corações. O que me parece fundamental em tudo isso é que passemos a divulgar o evangelho sem os recrusos tradicionais do poder, do dinheiro ou do prestígio. Como os evangelistas Marcos, Mateus e Lucas. Por puro dinamismo místico, pura vontade de caminhar com Jesus. Jesus não é atingido pela crise das igrejas, pelo contrário, ele apela para a evangelização dialogal. O cristianismo dialogal recusa os métodos autoritativos, quaisquer que sejam. O Deus de Jesus dialoga, não usa a palavra para emitir ordens. Os evangelhos são textos dialogais, eles provocam o público ouvinte ou leitor a participar ativamente de um diálogo com o autor, dando sua opinião, reagindo, refletindo ou discutindo. Textos autoritativos, pelo contrário, pressupõem um público passivo e obediente, atento às orientações. Durante séculos, os evangelhos foram lidos como textos autoritativos, fora das intenções de seus autores. A atual revolução pede que, doravante, eles sejam lidos como textos dialogais. Aí as pessoas sensíveis ao apelo da liberdade vão ouvir o que o evangelho tem a dizer. A divisão sociológica entre um universo de mando e obediência e um universo de discussão e participação encontra sua representação simbólica na maneira em que se usa a palavra. A palavra de Deus não pode ser usada por quem pensa num universo de mando e obediência. É verdade que, durante longos séculos, as igrejas interpretaram os evangelhos de forma autoritativa: a partir do palco, do centro da cena, do palanque, de microfone na mão. Hoje é diferente. O evangelho pertence à platéia, onde se pratica o diálogo. Assim como existem duas posturas básicas diante da socieade, a autoritária e a democrática, existem igualmente dois tipos de evangelização: a dialogal e a autoritativa. A nossa participação na revolução que acontece no mundo consiste exatamente no confronto entre esses dois tipos de evangelização. Se trabalharmos pelo diálogo, vamos ser ouvidos e vamos conseguir nos comunicar. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são de caráter marcadamente dialogal, tanto na sua redação como no seu relacionamento com os(as) leitores(as). Mas desde o começo houve líderes cristãos que rejeitaram o diálogo e impuseram regras de conduta sem tolerar a discussão. Isso já vem dos inícios do cristianismo. Não duvido da relevância do cristianismo para o mundo de hoje, mas duvido, isso sim, da relevância dos modos historicamente usados para propagar o cristianismo (pastoral do medo, penitência, inferno, pecado, repressão sexual, obediência). A revolução que presenciamos mostra que a leitura autoritativa do evangelho não funciona mais na sociedade em que vivemos. A relevância do cristianismo no mundo de hoje depende da maneira em que os cristãos vivem e divulgam o evangelho. Os próximos anos hão de mostrar se eles são capazes de abandonar os sermões, conselhos, orientações, mandamentos, ameaças (do inferno) e proibições, e partir resolutamente para o diálogo com a sociedade e a cultura.