quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Presidente Edson, secretário Carlos, Tavares e Gilberto,
De tudo o que li nestes dias, reparto com vocês o que Bismarck me repassou. É muito tocante e evangélico o modo como o bispo faz a reflexão sobre Bento XVI. Um abarço a todos. Escreverei esta semana sobre o XX Encontro, que está em gestação.
Armando - MFPC - PARANÁ
  Embora admirando o gesto de renúncia de Bento XVI, Jacques Noyer, bispo emérito de Amiens, na França, apresenta um primeiro balanço do pontificado que chega ao fim. Segundo ele, "quando ele foi eleito papa, não lhe deixaram escolha: ele devia continuar a obra do seu antecessor e se esforçou para encontrar o seu estilo próprio. Ao contrário, hoje, ele pede para que se tentem outras coisas. Podemos esperar que uma figura nova defina uma estratégia nova".
  Certamente, há o corpo que não responde mais, o cansaço que paralisa, a velhice que ameaça... Mas me parece que não fazer injúrias contra Bento XVI dar um espaço ao sentimento de fracasso pessoal que ele pode ter sentido. Mesmo sem ser do seu círculo mais próximo, posso imaginar que o seu gesto de renúncia se explica, ao menos em parte, pela consciência da inutilidade da sua política pessoal.
Por exemplo, sabemos que, depois do início do seu pontificado, ele quis reconciliar a nebulosa tradicionalista, cujo afastamento lhe era penoso. Ele multiplicou as iniciativas. Fez concessões. Ofereceu privilégios a quem voltava ao rebanho. Ultimamente ainda, relançou o diálogo que parecia em um impasse. E nada!
  Deve ter sido difícil de se conviver com essa impressão de ter entrado em uma negociação impossível. Ele cedeu em algumas posições e encorajou o adversário. Ele já deu muito e deve dar ainda mais. No fim, deveria dar tudo e renunciar ao Concílio. Como sair desse impasse?
  Ele se sentiu no dever de esclarecer os obscuros tráficos das finanças vaticanas. Encarregou homens de confiança para modificar os hábitos e obter a transparência necessária. A resistência dos homens do segredo foi tão grande que ele não obteve nada. As intrigas palacianas chegaram até os seus aposentos privados. Sozinho e impotente, ele não podia evitar que os bancos internacionais se recusassem a trabalhar em confiança com o Vaticano e o tratassem como um obscuro refúgio de fraudadores. João Paulo II havia renunciado a reformar a Cúria. Bento XVI, nessa tentativa, encontrou um osso duro demais para roer.
  Ele corajosamente quis enfrentar a chaga há muito tempo escondida que é a pedofilia . Ele acreditou, fazendo que tudo remontasse a Roma, que podia resolver a questão dentro da Igreja, como cabe a uma "sociedade perfeita". Infelizmente, ele logo constatou que era justamente esse princípio que causava escândalo. Ele foi obrigado a renunciar a ele e teve que pedir que os bispos entregassem os criminosos às autoridades locais.
  Seus antecessores haviam perdido os Estados pontifícios, tiveram que aceitar a separação da Igreja dos Estados laicos. A ele, coube renunciar ao mito da Sociedade Perfeita, isto é, de uma Igreja que escapa do poder das nações onde está implantada.
  Também se pode imaginar a humilhação que ele deve ter sentido quando certas frases incautas como intelectual provocaram agitações tão trágicas quanto as reações dos povos muçulmanos às declarações de Regensburg: o professor universitário havia esquecido que era papa! E ei-lo forçado a ir rezar na Mesquita Azul, em Istambul, seguramente mais distante do que imaginava.
  Ele teve que entrar na dinâmica do movimento ecumênico, nas boas relações com o judaísmo, nas orações de Assis. Sentiu-se prudente, hesitante. Sofreu os acontecimentos. Ele não os dirigia mais. Quanto um passo podia parecer como uma vitória, ele o viveu como uma derrota.
  É mais difícil imaginar o que ele sentiu na defesa de uma doutrina eterna jogada no turbilhão da modernidade. Em tal combate, todo sucesso é provisório, e inúmeros são os fracassos. Ele teve que defender o dogma contra as críticas do espírito moderno. Teve que defender a moral natural dentro de uma evolução dos costumes sem precedentes. Teve que defender tradições antigas que se tornaram obsoletas aos olhos das pessoas de hoje.
  Um combatente como João Paulo II sentia prazer em guerrear e nunca se declarava derrotado. A fineza da inteligência de Bento XVI, nessas circunstâncias, é uma fraqueza. As objeções dos adversários, sem dúvida, lhe atingem mais do que outros militantes blindados de certezas. A fé que o habita não suprime o peso da Razão.
  Coirmãos bispos me diziam que sofrimento haviam lido no seu rosto quando haviam evocado diante dele alguns impasses pastorais a que certas regras canônicas os constrangiam. Com a cabeça entre as mãos, ele sofria por não poder dar respostas. Cabe a vocês, in loco – lhes dizia –, encontrar um caminho pelo qual a observância da lei não impeça o anúncio do evangelho.
  Os bispos ficaram tocados por um papa tão frágil quanto eles diante das contradições da sua pastoral. Quem sabe em quais insônias se terá prolongado, na pessoa do papa, essa necessidade de coerência?
  Esses fracassos poderiam ter levado algumas almas menos santas ao desencorajamento total, a uma passividade resignada. Bento XVI viu neles a oportunidade para um sobressalto de esperança: reconheceu o seu fracasso. Ele sabe que está velho demais para recomeçar de outro jeito. Ele dá lugar a algum outro. Se estivesse certo dos combates travados, teria preparado um sucessor. Ele sente, ao contrário, a meu ver, no segredo do seu coração, que um papa novo deverá proceder de modo diferente.
  Quando ele foi eleito papa, não lhe deixaram escolha: ele devia continuar a obra do seu antecessor e se esforçou para encontrar o seu estilo próprio. Ao contrário, hoje, ele pede para que se tentem outras coisas.
  Podemos esperar que uma figura nova defina uma estratégia nova. Podemos esperar um papa que tenha qualidades diferentes. Acima de tudo, podemos esperar um papa que faça circular a palavra naquele grande corpo que é a Igreja e que, para isso, descentralize as decisões, que dê confiança ao Povo de Deus, em vez de ser o seu Guardião, que tente o novo onde o antigo está morto.
  Essa humildade certamente é um ato de esperança: um outro fará melhor do que eu, proclama ele. Eu rezo para que ele não seja esmagado por aquilo que ele chama de seus defeitos. A esperança não o abandonará.
  Ninguém pensa hoje em repreendê-lo por ter feito o que ele considerou bom fazer. Só se pode admirar que ele tenha ousado abrir a porta às iniciativas de um desconhecido que o Espírito Santo e os cardeais do mundo inteiro já estão nos preparando.
Témoignage Chrétien, 19-02-2013.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"Este é um momento muito delicado para a Igreja".

Entrevista especial com Massimo Faggioli
Segunda, 25 de fevereiro de 2013
"Essa mudança de pontificado em 2013 – que é a primeira nos tempos modernos após uma renúncia papal – poderia modificar muitas coisas, e poderia até pôr a Igreja em um estado de preparação para um novo concílio ecumênico", avalia especialista em assuntos do Vaticano.“A decisão de renunciar é surpreendente, mas não está em contradição com a identidade teológica de Ratzinger. Pode-se classificar Bento XVI como “teologicamente conservador”, mas ele está consciente da eclesialidade do ministério papal – na tradição e no Vaticano II”, afirma Massimo Faggioli, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Em sua opinião, ser papa no catolicismo global se tornou uma “tarefa muito moderna e desafiante, e é provável que um teólogo conservador a sinta como um fardo insuportável (além das razões relacionadas à sua saúde)”. Faggioli pontua que em certos aspectos o Concílio Vaticano II veio “cedo demais”, e questões silenciadas pela Santa Sé, como o papel das mulheres na Igreja, o casamento dos sacerdotes e a ordenação de homossexuais, devem ser revistas.
Massimo Faggioli (foto) é doutor em História da Religião e professor de História do Cristianismo no Departamento de Teologia da University of St. Thomas, de Minnesota, Estados Unidos. Seus livros mais recentes são Vaticano II: A luta pelo sentido (Paulinas, 2013) e True Reform: Liturgy and Ecclesiology in Sacrosanctum Concilium (Liturgical Press, 2012) e, em espanhol, Historia y evolución de los movimientos católicos. De León XIII a Benedicto XVI, (Madrid: PPC Editorial), 2011.
Confira a entrevista
IHU On-Line – Sob quais aspectos deve ser compreendida a renúncia de Bento XVI?
Massimo Faggioli O papa pode renunciar, e certamente esse ato não é ilegal. Mas ele também deve ser entendido como um ato de governo e como uma decisão pessoal do papa, que tem a ver com seu estado de saúde, mas também com o caos existente no Vaticano e em algumas áreas do catolicismo. Chama a atenção que Bento XVI tenha dito que tomou essa decisão sozinho, sem consultar ninguém. Esse é um elemento muito interessante. Uma decisão tomada pelo papa após uma consulta com alguém outro teria levantado questões canônicas, mas também teria sido um sinal de colegialidade na Igreja – e a colegialidade é algo que foi aprovado pelo Vaticano II, mas jamais chegou a fazer parte do governo da Igreja, com exceção de alguns poucos casos.
IHU On-Line – Quais foram suas principais motivações?

Massimo Faggioli
Paulo VI foi o papa que concluiu o Vaticano II; João Paulo II foi o último papa que também foi padre conciliar no Vaticano II; Bento XVI é o último papa que esteve no Vaticano II (como teólogo, não como bispo). Essa mudança de pontificado em 2013 – que é a primeira nos tempos modernos após uma renúncia papal – poderia modificar muitas coisas, e poderia até pôr a Igreja em um estado de preparação para um novo concílio ecumênico ou colocar em pauta muitas questões que, durante demasiado tempo, foram consideradas “resolvidas”.
IHU On-Line – Em que sentido a renúncia do papa e a escolha de um novo pontífice podem representar uma mudança nos rumos da Igreja Católica?

Massimo Faggioli
– A renúncia é o acontecimento principal, porque nas leis da Igreja havia um cânone que permitia isso ao papa, mas não dispunha o que aconteceria depois da renúncia. Nesse sentido, trata-se de uma decisão que cria um precedente, mas ainda há muitas coisas que não sabemos como irão se desdobrar, e este é um momento muito delicado. Trata-se de um conclave excepcional, e não normal. Também é uma situação perigosa, porque o papa disse que a “Sede vacante” começa em 28 de fevereiro, mas, em certo sentido, desde seu anúncio em 11 de fevereiro a Sé de Pedro já está vacante na prática.
IHU On-Line – A renúncia de Bento XVI ocorre 50 anos depois do Concílio Vaticano II e 600 anos depois da última renúncia papal. Podemos dizer que se trata do principal acontecimento no Vaticano nas últimas décadas? Por quê?

Massimo Faggioli
– A decisão de renunciar é surpreendente, mas não está em contradição com a identidade teológica de Ratzinger. Pode-se classificar o papa Bento XVI como “teologicamente conservador”, mas ele está consciente da eclesialidade do ministério papal – na tradição e no Vaticano II. Suas concepções conservadoras são coerentes com a renúncia, já que o papa Bento XVI provavelmente sabia que o ministério papal tinha se tornado algo diferente do que ele achava que devia ser: exposição excessiva à mídia, excesso de responsabilidades para com o mundo e a política, excesso de tarefas administrativas. Ser papa no catolicismo global se tornou uma tarefa muito moderna e desafiante, e é provável que um teólogo conservador a sinta como um fardo insuportável (além das razões relacionadas à sua saúde).
IHU On-Line – Como explicar que um papa, reconhecidamente conservador, tenha tomado uma atitude tão moderna?

Massimo Faggioli
– A tentativa de Bento XVI não foi exatamente restaurar o poder da Igreja na sociedade moderna, e sim restaurar o ensinamento coerente (segundo sua concepção) da Igreja sobre questões centrais. Nesse aspecto, Joseph Ratzinger nunca foi ingênuo a ponto de acreditar que pudesse recristianizar um mundo secular. João Paulo II era mais confiante nesse sentido; o papa Bento sempre foi menos “romântico” e mais realista.
IHU On-Line – O senhor considera que o desafio para o novo pontífice é, de alguma forma, restaurar a autoridade da Igreja em um mundo contemporâneo? Como fazer isso em uma sociedade pós-moderna e, em grande parte, secularizada?

Massimo Faggioli
– Para essas questões a Igreja necessita de um momento de debate conciliar – um concílio ou sínodo que tenha real liberdade para falar. Esse é um dos pontos da pauta do conclave de 2013. Quanto a essas questões, há um aspecto de conteúdo do ensino da Igreja, e há um aspecto de estilo do ensino. Ambos são muito urgentes. Os primeiros assuntos que são teologicamente menos desafiadores do que outros são a ordenação de viri probati e o diaconato para mulheres.
IHU On-Line – A igreja tem ouvido aos sinais dos tempos? Como essa instituição pode dialogar sobre temáticas como casamento homoafetivo, métodos contraceptivos, fim do celibato, aborto e ordenação de mulheres, por exemplo?

Massimo Faggioli
– Em muitos aspectos, o Vaticano II ainda não foi implementado, por exemplo no que diz respeito à colegialidade na Igreja. No tocante a outras questões, o Vaticano II veio cedo demais, de modo que temos de explorar soluções para novas questões sobre as quais o Vaticano II silencia, tais como o papel das mulheres na Igreja, sacerdotes casados. Uma abordagem hermenêutica correta do Vaticano II consiste em fazer a ele perguntas que o Concílio de 1962-1965 pode responder, e não perguntas que o Vaticano II não pode responder.
IHU On-Line – Qual é a atualidade do Concílio Vaticano II na Igreja Católica frente aos problemas contemporâneos?

Massimo Faggioli
– Na alocução de 22 de dezembro de 2005, o papa fez uma distinção entre “hermenêutica da continuidade e reforma” e “hermenêutica da descontinuidade e ruptura”. Essa alocução foi também uma reação às novas contribuições para o debate teológico acadêmico, particularmente uma reação à historicização do Concílio empreendida pela obra em cinco volumes intitulada História do Vaticano II, editada por Alberigo e pela “Escola de Bolonha” (concluída em 2001 e publicada em sete línguas), e ao Comentário teológico do Vaticano II, em cinco volumes, que teve origem em Tübingen e foi editado porPeter Hünermann (que tinha presenteado ao papa exemplares dele poucas semanas antes da alocução à Cúria Romana). A reputação do Vaticano II foi profundamente afetada pelo papa Bento e pela alocução de 2005, em especial pelas interpretações simplistas e ideológicas do Concílio. Um primeiro elemento visível é a mudança da linguagem usada para falar do Vaticano II nos últimos oito anos. A partir de fins de 2005, um papa, Bento VI, sentiu-se no direito de questionar o que tinha sido alcançado pelos estudos históricos e teológicos sobre o Vaticano II publicados pela comunidade científica internacional desde a década de 1980, ao menos. Por um lado, Bento XVI pôs fim ao “nominalismo do Vaticano II” típico de João Paulo II – o Vaticano II usado como cobertura ou manto para dar legitimidade a muitas coisas que não provinham dele. Por outro lado, Bento XVI também começou a remover programaticamente da mensagem proveniente do Vaticano aquelas “improvisações” feitas por João Paulo II (judaísmo, islã, inculturação) que tinham permitido aos teólogos católicos não falar de um repúdio completo do Vaticano II por parte dos papas pós-conciliares. Por fim, é difícil negar que o movimento contra a reforma litúrgica do concílio é produto do pontificado de Bento XVI (veja o motu proprio intitulado Summorum Pontificum de 7 de julho de 2007 e a nova tradução do missal para o inglês): a “reforma da reforma litúrgica” nunca foi um problema sob Paulo VI e João Paulo II, mas se tornou um problema sob Bento XVI.
IHU On-Line – Como analisa os discursos de Bento XVI quando assumiu, em 2005, e quando anunciou sua renúncia? Tomando em consideração o Concílio Vaticano II, que leituras podem ser feitas dessas duas falas?

Massimo Faggioli
– O pontificado foi muito influenciado por esse legado. O papa Bento é um teólogo neoagostiniano, com uma profunda percepção da diferença entre a Igreja e o “mundo” numa compreensão metafísica. Ele não acredita que a Igreja possa e deva ser um agente de transformação social, e essa ideia é típica de suas concepções sobre a relação entre a Igreja e a política e a Igreja e a cultura. Nesse aspecto, temos uma diferença profunda entre ele e seus predecessores Paulo VI e João Paulo II.
IHU On-Line – Como a formação agostiniana do papa se revelou à frente de seu pontificado?

Massimo Faggioli
– Essa análise é típica de um teólogo neoagostiniano, especialmente de um teólogo neoagostiniano que se criou na Alemanha nazista e viu o lado muito perigoso da modernidade. Dito isso, Joseph Ratzinger tem uma compreensão profunda das contradições da modernidade, especialmente entre a ideia de modernidade e o acesso à verdade. Só há liberdade na verdade, e, para o papa Bento, o que é típico da modernidade é a tentativa de “decidir” o que é a verdade. Na concepção dele, a verdade é revelada por Deus, e você tem de entendê-la e aceitá-la, e não decidir a respeito dela. Isso é típico de suas concepções de modernidade, democracia e mudanças sociais.

VIDA, “QUO VADIS”?


Atualidades: boate Kiss, 27 de janeiro de 2013 – passaram-se 4 semanas
   Há momentos em que um silêncio profundo invade a gente.  Repentinamente impõe-se o desejo intenso de ficar calado para pensar a vida, refletir seu percurso, meditar seu sentido, rezar sua origem e seu destino. É o momento para chorar a morte jovem demais, enxugar as lágrimas demais, abraçar os inconsoláveis demais, solidarizar-se com mães e pais em suas chagas profundas demais, estar presente em Santa Maria que se tornou Maria Dolorosa demais, a Maria “Mãe dos homens, Mãe dolorosa de coração atravessado pela espada, de alma agoniada, entristecida e dolorida, que viu seus filhos, muito amados, morrendo, e vê os sobreviventes rasgados em prantos.” (adaptação livre do hino medieval “Stabat Mater dolorosa...” do século XIII).

            Mas, apesar, ou por causa deste comovente sofrimento, perguntas não calam, inquietações mexem, dúvidas incomodam. Perguntas, inquietações e dúvidas que prosseguem, ou seja, não deixam de ser atuais, sempre.

            Em meio a tudo que acontece em nossa existência, é preciso que nos preocupemos com as prioridades, uma vez que estas sempre são determinantes. Somos protagonistas da nossa própria vida e por isso, mais do que nunca, precisamos nos conscientizar sobre o que é essencial, básico, prioritário, o que nunca pode se perder de vista: o valor da vida.

É necessário perguntar e indagar sobre questões como: - quais são as prioridades na administração dos gestores em suas políticas públicas? - quais os verdadeiros interesses do debate político dos senadores, deputados e vereadores? - quais os princípios e práticas de justiça dos magistrados? - quais os verdadeiros objetivos dos pastores das igrejas, das diversas denominações religiosas? – enfim, quais são as atitudes de cada um(a) de nós diante dos acontecimentos na vida, qual o nível da nossa consciência, o grau de solidariedade, o tamanho de preocupação com a construção de um país verdadeiramente justo e igualitário para com todos os seus habitantes?

            Estas perguntas não calam, as inquietações mexem e as dúvidas incomodam.

Será que as prioridades, os interesses, as preocupações visam, acima de tudo, a vida? Geramos vida através das nossas atividades políticas, sociais e religiosas?

Cobramos dos gestores políticas públicas que se preocupem, de verdade, com uma crescente valorização da vida do ser humano, em primeiro lugar, ou insistimos em ficarmos cegos diante de projetos vistosos e faraônicos, e continuamos a assistir, passivamente - muitas vezes, de fato, sem poder fazer nada mesmo -, aos intermináveis escândalos da demolidora corrupção? Estamos atentos às práticas da Justiça, à aplicação das leis, observando se estas tratam a todos com igualdade, ou continuam ser favoráveis para uns e desfavoráveis para outros? Fazemos da igreja, da religião e da fé elementos e meios transformadores da nossa vida, a fim de nos aproximarmos de Deus, do Infinito, e fazer-nos melhores, ou ofuscamos nossa fé, idolatrando templos cada vez mais caros e vistosos, e a deturpamos e a ridicularizamos através de ‘criostofolias pulantes’ e ‘mariafolias carnavalescas’, correndo atrás dos ‘evangelizadores midiáticos’, com “suas atitudes de buscar aplausos”? Construímos costumes e redes de sociabilidade na sociedade, que fazem crescer unidade e fraternidade, vida familiar e comunitária e preocupação com o bem-estar do outro, ou continuamos aceitando e participando da onda devassa dum “BIG BROTHER BRASIL”, endeusando o ‘eu’ que tem que passar por cima do outro, custe o que custar, detonando-o?

 

            As 239 vidas ceifadas em Santa Maria, além das dezenas de vítimas do incêndio ainda nos hospitais, a dor desumana sofrida pelos pais, familiares e amigos dos jovens vitimados ... será que tudo isso não é o bastante para dedicarmos um tempo à reflexão sobre a única coisa que de fato vale a pena: a VIDA? Ou, ficando mais perto de casa, os 163 assassinatos ocorridos em Fortaleza, somente no mês de janeiro deste ano de 2013, não são suficientes para abrirmos nossos olhos diante da desenfreada banalização da vida, à qual assistimos?

É fácil ler a palavra de Jesus “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (João 10. 10). Mais difícil é dar vida a esta palavra dEle através de práticas e ações nossas.

 

                                                                                         Fortaleza, fevereiro de 2013,

           Geraldo Frencken

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A eleição de um novo papa e o Espírito Santo – Ivone Gebara

“Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece”, escreve Ivone Gebara, escritora, filósofa e teóloga.
 
Eis o artigo.
Depois da louvável atitude do ancião Bento XVI renunciando ao governo da Igreja Católica Romana sucederam-se entrevistas com alguns bispos e sacerdotes nas rádios e televisões de todo o país. Sem dúvida, um acontecimento de tal importância para a Igreja Católica Romana é notícia e leva a previsões, elucubrações de variados tipos, sobretudo de suspeitas, intrigas e conflitos dentro dos muros do Vaticano que teriam apressado a decisão do papa.
No contexto das primeiras notícias, o que chamou a minha atenção foi algo à primeira vista pequeno e insignificante para os analistas que tratam dos assuntos do Vaticano. Trata-se da forma como alguns padres entrevistados ou padres liderando uma programação televisiva, quando perguntados sobre quem seria o novo papa saíssem pela tangente. Apelavam para a inspiração ou vontade do Espírito Santo como aquele do qual dependia a escolha do novo pontífice romano. Nada de pensar em pessoas concretas para responder a situações mundiais desafiantes, nada de suscitar uma reflexão na comunidade, nada de falar dos problemas atuais da Igreja que a tem levado a um significativo marasmo, nada de ouvir os clamores da comunidade católica por uma democratização significativa das estruturas anacrônicas de sustentação da Igreja institucional.
A formação teológica desses padres comunicadores não lhes permite sair de um discurso padrão trivial e abstrato bem conhecido, um discurso que continua fazendo apelo a forças ocultas e de certa forma confirmando seu próprio poder. A contínua referência ao Espírito Santo a partir de um misterioso modelo hierárquico é uma forma de camuflar os reais problemas da Igreja e uma forma de retórica religiosa para não desvendar os conflitos internos que a instituição tem vivido. A teologia do Espírito Santo continua para eles mágica e expressando explicações que já não conseguem mais falar aos corações e às consciências de muitas pessoas que têm apreço pelo legado do Movimento de Jesus de Nazaré. É uma teologia que continua igualmente a provocar a passividade do povo crente frente às muitas dominações inclusive as religiosas. Continuam repetindo fórmulas como se estas satisfizessem a maioria das pessoas.
Entristece-me o fato de verificar mais uma vez que os religiosos e alguns leigos atuando nos meios de comunicação não percebam que estamos num mundo em que os discursos precisam ser mais assertivos e marcados por referências filosóficas para além da tradicional escolástica. Um referencial humanista os tornaria bem mais compreensivos para o comum das pessoas incluindo-se aqui os não católicos e os não religiosos.
A responsabilidade da mídia religiosa é enorme e inclui a importância de mostrar o quanto a história da Igreja depende das relações e interferências de todas as histórias dos países e das pessoas individuais. Já é tempo de sairmos dessa linguagem metafísica abstrata como se um Deus iria se ocupar especialmente de eleger o novo papa prescindindo dos conflitos, desafios, iniquidades e qualidades humanas. Já é tempo de enfrentarmos um cristianismo que admita o conflito das vontades humanas e que no final de um processo eletivo, nem sempre a escolha feita pode ser considerada a melhor para o conjunto. Enfrentar a história da Igreja como uma história construída por todos e todas nós é testemunhar respeito por nós mesmas/os e mostrar a responsabilidade que todas e todos que nos consideramos membros da comunidade católica romana temos.
A eleição de um novo papa é algo que tem a ver com o conjunto das comunidades católicas espalhadas pelo mundo e não apenas com uma elite idosa minoritária e masculina. Por isso, é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar-se aos problemas e desafios reais que estamos vivendo. Sem dúvida, para isso as dificuldades são muitas e enfrentá-las exige novas convicções e o desejo real de promover mudanças que favoreçam a convivência humana.
Preocupa-me mais uma vez que não se discuta de forma mais aberta o fato de o governo da Igreja institucional ser entregue a pessoas idosas que apesar de suas qualidades e sabedoria já não conseguem mais enfrentar com vigor e desenvoltura os desafios que estas funções representam. Até quando a gerontocracia masculina papal será o doublé da imagem de um Deus branco, idoso e de barbas brancas? Haveria alguma possibilidade de sair desse esquema ou de ao menos começar uma discussão em vista de uma organização futura diferente? Haveria alguma possibilidade de abrir essas discussões nas comunidades cristãs populares que têm o direito à informação e à formação cristã mais ajustada aos nossos tempos?
Sabemos o quanto a força das religiões depende de desafios e comportamentos frutos de convicções capazes de sustentar a vida de muitos grupos. Entretanto, as convicções religiosas não podem se reduzir a uma visão estática das tradições e nem a uma visão deliberadamente ingênua das relações humanas. As convicções religiosas igualmente não podem ser reduzidas a onda de devoções as mais variadas que se propagam através dos meios de comunicação. E mais, não podemos continuar tratando o povo como ignorante e incapaz de perguntas inteligentes e astutas em relação à Igreja. Entretanto, os padres comunicadores acreditam tratar com pessoas passivas e entre elas estão muitos jovens que desenvolvem um culto romântico em torno da figura do papa.
Os religiosos mantêm essa situação muitas vezes cômoda por ignorância ou por avidez de poder. Provar a interferência divina nas escolhas que a Igreja Católica hierárquica, prescindindo da vontade das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo é um exemplo flagrante dessa situação. É como se quisessem reafirmar erroneamente que a Igreja é em primeiro lugar o clero e as autoridades cardinalícias às quais é dado o poder de eleger o novo papa e que esta é a vontade de Deus. Aos milhares de fiéis cabe apenas rezar para que o Espírito Santo escolha o melhor e esperar até que a fumaça branca anuncie uma vez mais o “habemus papam”. De maneira hábil sempre estão tentando fazer os fiéis escapar da história real, de sua responsabilidade coletiva e apelar para forças superiores que dirijam a história e a Igreja.
É pena que esses formadores de opinião pública estejam ainda vivendo num mundo teologicamente e talvez até historicamente pré-moderno em que o sagrado parece se separar do mundo real e pousar numa esfera superior de poderes à qual apenas alguns poucos têm acesso quase direto. É desolador ver como a consciência crítica em relação às suas próprias crenças infantis não tenha sido acordada em beneficio próprio e em benefício da comunidade cristã. Parece até que acentuamos os muitos obscurantismos religiosos presentes em todas as épocas enquanto o Evangelho de Jesus continuamente convoca para a responsabilidade comum de uns em relação aos outros.
Sabendo das muitas dificuldades enfrentadas pelo papa Bento XVI durante seu curto ministério papal, as empresas de comunicação católica apenas ressaltam suas qualidades, sua doação à Igreja, sua inteligência teológica, seu pensamento vigoroso como se quisessem mais uma vez esconder os limites de sua personalidade e de sua postura política não apenas como pontífice, mas também por muitos anos, como presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Não permitem que as contradições humanas do homem Joseph Ratzinger apareçam e que sua intransigência legalista e o tratamento punitivo que caracterizaram, em parte, sua pessoa sejam lembrados. Falam desde sua eleição, sobretudo de um papado de transição. Sem dúvida de transição, mas de transição para que?
Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios tanto do ponto de vista econômico quanto político e sócio cultural mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte. Mas um Estado masculino com representação diplomática influente e servido por milhares de mulheres através do mundo nas diferentes instâncias de sua organização. Esse fato nos convida igualmente a pensar sobre o tipo de relações sociais de gênero que esse Estado continua mantendo na história social e política da atualidade.
As estruturas pré-modernas que ainda mantém esse poder religioso precisam ser confrontadas com os anseios democráticos de nossos povos na busca de novas formas de organização que se coadunem melhor com os tempos e grupos plurais de hoje. Precisam ser confrontadas com as lutas das mulheres, das minorias e maiorias raciais, de pessoas de diferentes orientações sexuais e escolhas, de pensadores, de cientistas e de trabalhadores das mais distintas profissões. Precisam ser retrabalhadas na linha de um diálogo maior e mais profícuo com outros credos religiosos e sabedorias espalhadas pelo mundo.
E para terminar, quero voltar ao Espírito Santo, a esse vento que sopra em cada uma/um de nós, a esse sopro em nós e maior do que nós que nos aproxima e nos faz interdependentes de todos os viventes. Um sopro de muitas formas, cores, sabores e intensidades. Sopro de compaixão e ternura, sopro de igualdade e diferença. Este sopro não pode mais ser usado para justificar e manter estruturas privilegiadas de poder e tradições mais antigas ou medievais como se fossem uma lei ou uma norma indiscutível e imutável.
O vento, o ar, o espírito sopra onde quer e ninguém deve se atrever a querer ser ainda uma vez seu proprietário. O espírito é a força que nos aproxima uns dos outros, é a atração que permite que nos reconheçamos como semelhantes e diferentes, como amigas e amigos e que juntos/as busquemos caminhos de convivência, de paz e justiça.
Esses caminhos do Espírito são os que nos permitem reagir às forças opressoras que nascem de nossa própria humanidade, os que nos levam a denunciar as forças que impedem a circulação da seiva da vida, os que nos levam a descobrir os segredos ocultos dos poderosos. Por isso, o espírito se mostra em ações de misericórdia, em pão partilhado, em poder partilhado, em cura das feridas, em reforma agrária, em comércio justo, em armas transformadas em arados, enfim, em vida em abundância para todas/os. Esse parece ser o poder do espírito em nós, poder que necessita ser acordado a cada novo momento de nossa história e ser acordado por nós, entre nós e para nós.
Artigo publicado por Adital

(Conheça o livro Terra – Eco Sagrado, de Ivone Gebara e Arno Kayser)

FONTE: ASSOCIAÇÃO RUMOS

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serie_tela_bento_cópia300O papa Bento XVI durante os seus oito anos de pontificado deixou um verdadeiro legado. Suas obras científicas permearão pela eternidade como um aprendizado para as atuais e futuras gerações. Como membro de várias academias científicas da Europa, e com oito doutorados honoríficos de diferentes universidades, o Santo Padre sempre foi um intelectual, e profundo conhecedor da essência humana.

Na Carta Encíclica, Caritas in Veritate, dos documentos pontifícios, Bento XVI chama a atenção para temas contemporâneos como os desvios e esvaziamento do sentido da caridade na atualidade, que a excluem da vida ética, e ainda impedem a sua correta valorização. No documento intitulado “O Desenvolvimento Humano Integral na Caridade e na Verdade”, Bento dedica aos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas, fiéis leigos, e a todos as pessoas de boa vontade, uma intensa reflexão sobre a caridade, via mestra da doutrina social da Igreja.

“A caridade é amor recebido e dado; é graça. A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor, que, pelo filho, desce sobre nós. É amor criador pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados.”. Descreve um trecho da Carta.

Perante uma realidade de um mundo cada vez mais individualista, o Sumo Pontífice faz um chamamento ao “bem comum”. “Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele “nós-todos”, formados por indivíduos, famílias e grupos intermediários que se unem em comunidade social. Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que, só nela, podem realmente e com maior eficácia obter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade.”

O papa ainda questiona o sentido e os critérios que a sociedade se baseia para “diferenciar” os seres humanos. “A vocação ao progresso impele os homens a “realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais”. Aqui levanta-se o problema, sobre o que significa “ser mais”? Para responder a esta indagação Bento XVI lembra Paulo VI: “O que conta para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira”.

“Crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação” (Papa Bento XVI)

Ao proclamar o Ano da Fé, o papa Bento XVI publicou a carta apostólica Porta Fidei, em 11 de outubro de 2011. No texto, ele recorda que o centro da atenção eclesial deve estar no encontro com Jesus Cristo e na beleza da fé nele. “Só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior, porque tem sua origem em Deus”.

Retomando a celebração do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e os vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, o papa vê essa oportunidade como ocasião para que a Igreja se renove, especialmente através do testemunho de vida de quem crê. “De fato, os cristãos são chamados a brilhar, com sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou (…). Nessa perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo”.

O desejo do Santo Padre é de que o Ano da Fé suscite, em cada cristão, o desejo de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. “Esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada e refletir sobre o próprio ato com que se crê é um compromisso que cada crente deve assumir”.

Ao delinear o percurso que o cristão deve fazer para compreender o conteúdo da fé, o papa elenca aspectos importantes da unidade entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos assentimento. “O professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos”. Desta forma, a profissão de fé se torna um ato simultaneamente pessoal e comunitário. “De fato, o primeiro sujeito da fé é a Igreja”.

Bento XVI também assinala na carta que o Catecismo da Igreja Católica é um verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para quem tem a incumbência da formação dos cristãos. “De fato, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogações, que provêm de uma mentalidade divergente que hoje, de forma particular, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. A Igreja, porém, nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade”.

Por fim, o papa recorda que o Ano da Fé é uma ocasião de intensificar o testemunho da caridade. “A fé sem caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar seu caminho. De fato, não poucos cristãos dedicam amorosamente sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo”.

Confira a íntegra do documento, clicando aqui.

Com a renúncia do papa, abre-se espaço para renovar a Igreja?

Após a renúncia de Bento XVI, abre-se espaço para uma renovação na Igreja Católica e discussão de temas polêmicos, como pedofilia na igreja e homossexualidade?
 
GEOVANE SARAIVA
Pároco de Santo Afonso e escritor
Visto pelos olhos da fé, o gesto de Bento XVI, que surpreendeu o mundo, revela-nos o sopro do Espírito Santo e deve ser humildemente acolhido. Renúncia durante seis séculos era tida como um sinal de fraqueza, agora deve ser notado como uma atitude de grandeza. Num mundo marcado pelo pluralismo na diversidade de pensamentos e opções de vida, alimenta-se o sonho de esperança, onde o Espírito Santo aja em toda sua plenitude através do próximo papa que logo assumirá a função maior na Igreja Católica, sendo fermento, sal e luz para toda a humanidade. Jesus Cristo continua a afirmar: “O que vos peço é que não os tireis do mundo, mas que os guardes do mal” (Jo 17, 15). A Igreja vive inserida num mundo onde há pedofilia, homossexualidade e segunda união. Mesmo sendo uma organização de voluntários, espera-se de seus membros obrigações e vínculos, onde não se prescindem clareza e convicção. Não podemos esquecer que o futuro papa tem a tarefa de fermentar a criação, na promoção do Reino de Deus e sua justiça.
VALDEMAR MENEZES
Jornalista
A prioridade, a meu ver, seria: a) retorno a uma forma de exercício do papado como serviço, semelhante à do Primeiro Milênio, quando a Igreja era indivisa e quando o papa não era um monarca; b) tornar deliberativo o Sínodo dos bispos da Igreja Romana (hoje é apenas consultivo), que também seria encarregado de eleger o papa (extinguindo-se o colégio cardinalício); c) Primado do papa para transmitir decisões da Igreja universal tomadas em consenso (colégio) com os outros chefes de igrejas autônomas (patriarcados e arcebispados autocéfalos); d) abertura para aceitação de outras religiões como vias possíveis de acesso à “experiência” de Deus; e) diálogo inter-religioso, a partir da perspectiva mística da deificação (unio mystica), objetivo central de todas as religiões autênticas; f) diálogo com o mundo moderno sem rendição aos valores deste como condição para ser aceito; g) incentivo à justiça social, à paz e à democracia no mundo.
LUIS SARTOREL
Padre e coordenador do Centro de estudos Bíblicos do Ceará
Com certeza, a decisão do papa Bento XVI merece o nosso respeito, é corajosa, diria profética. Ninguém esperava que este papa conseguisse surpreender toda a Igreja, e o mundo, de maneira tão positiva. Na quarta-feira de Cinzas, na missa celebrada, Bento XVI apontou o dedo lembrando o que fez Jesus: “Jesus denunciou a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer”, e ainda “o rosto da igreja é, às vezes, deturpado pela divisão no corpo eclesial”, palavras que escutei enquanto fazia o comentário a esta celebração. Ao encerrar a missa, ele dizia: “nos nossos dias, muitos estão prontos para rasgar as vestes diante de escândalos e injustiças, mas poucos parecem disponíveis para agir sobre seu próprio coração, sua própria consciência e suas próprias intenções”. Acho que este momento deve ser visto como privilegiado para repensar as estruturas que são pré-modernas de uma Igreja que deve se abrir ao diálogo com o mundo de hoje, levando em conta a transparência da qual fala Bento XVI.
FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO
Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP
Bento XVI quer uma Igreja centrada no encontro com Cristo e afastada do moralismo, e por isso foi relativamente renovador no campo sexual. Realizou uma reforma radical ao entregar os padres pedófilos à Justiça e reconhecer publicamente os erros cometidos por eles. Defendeu que os casais em segunda união recebessem da Igreja amor e cuidados pastorais especiais para que pudessem se integrar à vida da comunidade, apesar da interdição à comunhão. A Igreja não aceita o “casamento gay”, mas Bento XVI se posicionou contra a discriminação aos homossexuais. Manteve a condenação ao aborto, mas defendeu a acolhida e o amor à mulher grávida, para que ela recuperasse a beleza da vida e a esperança, e superasse a tentação de abortar. O próximo papa não avançará nestes campos mais que isso. O que podemos esperar é uma relação com a mídia que permita que as aberturas já existentes sejam mais conhecidas.
SANDRA HELENA DE SOUZA
Professora de Filosofia e Ética da Unifor
A renúncia de Bento XVI é estratégia de alto risco, diante de uma instituição que perde prestígio e hegemonia de modo progressivo e talvez irreversível. Não sei se ainda há seres humanos lúcidos que acreditam genuinamente que a decisão do “conclave” de cardeais manifestará o próprio “espírito santo”, por deus. A igreja do Vaticano se encontra mais uma vez numa grande sinuca de bico, pressionada pelo islamismo em solo europeu, pelo neopentecostalismo de resultados em África e América Latina, pelos seus próprios pecados sexuais e financeiros, intramuros, e pelo enquadramento da Teologia da Libertação, apostando no caminho conservador de extração mais “mística” para fazer frente à crise da modernidade secular. Bento XVI tem forte participação nesse caminho que se revelou equivocado e agora o desafio é para um titã, uma espécie de CEO do reino de deus na terra. Certamente algumas concessões serão feitas, mas apenas anéis em troca de dedos.
ANTONIO FURTADO
Padre da Comunidade Católica Shalom
A Igreja é uma instituição assistida pelo Espírito Santo e, como tal, sempre contou com seu auxílio. A grande renovação dos últimos tempos começou com João XXIII no Concílio Vaticano II e teve prosseguimento com seus sucessores, inclusive com o pontificado de Bento XVI. No combate aos crimes de abuso sexual dos jovens, Bento XVI não apenas pediu perdão às vítimas como recrudesceu a norma punitiva e tornou mais exigente o processo de ingresso de candidatos ao sacerdócio a fim de evitar novos delitos por parte de membros da Igreja. Quanto a outros temas, como matrimônio de pessoas do mesmo sexo, aborto, eutanásia etc., a Igreja continuará com sua mesma postura, porque ela não é dona da Verdade, mas sua depositária. Como fiel guardiã destes valores, não pode se furtar, embora abalada pelos fortes ventos do relativismo, e abrir mão de sua missão. A Igreja, perita em humanidade, atrairá cada vez mais o homem de hoje, que busca incansavelmente a Verdade mesmo que não o saiba.
 
FONTE: JORNAL O POVO

O PODER PARALELO - VATICANO

Sucessão de escândalos, intrigas e disputa de poder levou o pontífice à mais radical das decisões: deixar o trono de Pedro para enfraquecer os traidores. Por Débora Crivellaro
“A face da Igreja, às vezes, é desfigurada. Penso em particular nos golpes contra a unidade da Igreja, as divisões no corpo eclesial. Por isso, Jesus denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que deseja aparecer, os hábitos que procuram o aplauso e a aprovação…”
A voz é fraca, instrumento de um homem fisicamente pequeno. Deveria sumir no ambiente imponente, construído para lembrar aos mortais a sua insignificância diante dos desígnios divinos. Mas do majestoso altar erigido sobre o local onde está o túmulo do apóstolo Pedro, fundador da Igreja Católica, ecoa uma mensagem retumbante. E com ela, o mirrado orador recupera sua grandeza. Dois dias depois de assombrar o mundo com seu pedido de renúncia, Bento XVI, o pontífice octogenário novamente surpreendia, ao sacramentar, em plena missa de Quarta-Feira de Cinzas, 13 de fevereiro, na monumental Basílica de São Pedro, em Roma, a existência de uma guerra de poder nas fileiras do Vaticano. Seu próprio pontificado seria uma vítima desse bíblico confronto.
Ainda assim, Joseph Ratzinger em nada lembrava o homem pálido, de olhar pesado e cansado dos últimos dias. Suas palavras decididas denunciaram o governo paralelo que insistia em se instalar dentro da Santa Sé. Com a boa condição física que demonstrou durante toda a cerimônia, revelou que a alegação oficial de falta de vigor físico não foi a razão para abdicar ao trono de Pedro. Mais do que um gesto de reconhecimento das suas próprias limitações, a renúncia foi um ato político. Isolado dentro do Vaticano, Bento XVI optou por sair para derrubar, junto com ele, seus traidores e, assim, tentar recompor a instituição. Na última celebração como papa na Basílica, ele mostrou que, às vésperas de despir-se das vestes que o tornam um ser quase divino, um representante de Deus na Terra, é um humano mais forte e lúcido do que se supunha – assim como é humana a vingança que seu gesto pode impor àqueles que o traíram.

PROTESTO
Manifestantes pelas vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes, em Los Angeles, neste mês: acusações contra a omissão de Bento XVI
O peso de sua retórica abalou os pilares do poder paralelo que agia à sua volta e fustigou as dezenas de car­deais presentes à celebração. “Ficamos sem palavras”, declarou o cardeal Giovanni Lajolo, estupefato logo após a cerimônia. Mas, certamente, as fortes declarações do sumo pontífice tiveram um destinatário preferencial: Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano e segundo homem na hierarquia do atual pontificado. Amigo pessoal de Ratzinger, foi um dos religiosos que se tornaram mais poderosos quando o cardeal alemão foi empossado papa, em 2005. Em vez de aliado, o italiano se converteu em líder do processo de esvaziamento de poder que levou à renúncia de Bento XVI, uma possibilidade real para o religioso alemão já há alguns anos, asseguram pessoas próximas a ele, inclusive seu irmão mais velho, Georg.
O pontificado de Ratzinger começou a ruir quando seus assessores diretos passaram a boicotar suas iniciativas. Como seu projeto de “limpeza moral interna”, por exemplo. O alemão chegou ao posto máximo da Igreja Católica com a intenção de promover uma varredura nos casos de abusos sexuais cometidos por religiosos, que vieram à tona às centenas pelo mundo desde o pontificado de João Paulo II. Mas suas decisões de punir os envolvidos com rigidez eram simplesmente ignoradas ou postergadas por anos. Exausto por não conseguir implementar suas iniciativas, o papa chegou a declarar que “havia muita sujeira na Igreja”. À frente do grupo de assessores dissidentes estava o cardeal Bertone. Um dos episódios mais eloquentes do modus operandi de Bertone foi o afastamento do cardeal Carlo Maria Viganò da Cúria Romana. Viganò tentou romper a lei do silêncio imposta por uma verdadeira máfia que desviava verbas, fraudava licitações e tramava complôs contra o pontífice. Em uma carta entregue ao papa em outubro de 2011, ele denunciava o esquema de corrupção no Vaticano. Em represália, foi afastado de Roma e nomeado por Bertone como núncio apostólico nos Estados Unidos. Para evitar o confronto direto, Bento XVI optava por não questionar seu segundo na hierarquia. Até que perdeu o controle da situação.

Se é possível precisar uma data em que o pontífice tomou a decisão extrema de se tornar o primeiro papa renunciante da era moderna – quase um tabu teológico para o 1,2 bilhão de católicos do mundo –, esta seria o dia 17 de dezembro de 2012. Na ocasião, três dos mais antigos cardeais – o espanhol Julián Herranz, o italiano Salvatore De Giorgi e o eslovaco Jozef Tomko – entregaram ao pontífice um novo relatório sobre o escândalo de vazamento de documentos oficiais do Vaticano, conhecido como Vatileaks.

Após interrogar cerca de 30 pessoas sobre o caso, a seleta comissão informou ao religioso que havia na Cúria Romana uma grande resistência a mudanças e muitos obstáculos às ações pedidas pelo líder máximo para promover a transparência. Abatido, isolado e muito impressionado com o conteúdo dos relatórios, o alemão – que, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no pontificado de João Paulo II, era conhecido como “rottweiller de Deus” – preferiu deixar o trono do apóstolo Pedro. “O ato do papa foi encorajado pela insensibilidade de uma cúria que, em vez de confortá-lo e apoiá-lo, apareceu, por diversos de seus expoentes, mais empenhada em jogos de poder e lutas fratricidas”, afirmou em editorial o respeitado jornal italiano Corriere della Sera.
Nove meses antes do derradeiro relatório, quando passava férias na sua residência de verão, em Castelgandolfo, os mesmos emissários o haviam visitado em segredo. Então, descortinaram para Ratzinger a intrincada rede de roubo e vazamentos para a imprensa de documentos oficiais do Vaticano, um dos maiores escândalos da história recente da Igreja Católica. O responsável pelo vazamento era identificado como “corvo” – mais tarde soube-se que se tratava de Paolo Gabriele, 46 anos, o mordomo que servia ao papa, próximo a ponto de ser o responsável por vesti-lo em seus aposentos pontifícios. O teor dos documentos lançava suspeitas sobre complôs na Cúria Romana para esconder supostos desvios de recursos e malversação de fundos da Igreja, e tinha como alvo o cardeal Bertone. Bento XVI se via, então, diante de sua via-crúcis pessoal.
Descoberto, Gabriele confessou o crime, foi preso, julgado pela Justiça do Vaticano e condenado a 18 meses de prisão, em 8 de outubro de 2012. O mordomo afirmou que resolvera roubar e divulgar os documentos por julgar que o papa não estava sendo informado do que se passava de errado na Santa Sé. Então, na véspera de Natal, o pontífice octogenário caminhou até o local onde seu antigo assistente pessoal cumpria pena. Sentou-se ao seu lado por quinze minutos e lhe concedeu o perdão. Pessoas próximas dizem que, com esse gesto, Bento XVI sinalizou saber que Gabriele não agia sozinho, era apenas uma peça auxiliar numa rede que desestabilizou seu pontificado.
O cardeal Bertone, um dos personagens do Vatileaks, está presente em quase todos os episódios que levaram ao derradeiro ato de Bento XVI, na segunda-feira 11 – apesar de ser ingênuo pensar que ele é o único ator desse grupo dissidente, que agiu nos bastidores eclesiais para enfraquecer o poder papal. Em 2009, por exemplo, o pontífice alemão nomeou o financista Ettori Gotti Tedeschi, ligado ao movimento conservador Opus Dei, como presidente do Instituto para Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano. O religioso havia decidido colocar em ordem, definitivamente, as finanças da Santa Sé. Tedeschi bem que tentou. Em 2012, elaborou uma documentação, na qual informava suas descobertas – contas escusas de políticos, construtores e altos funcionários do Estado. Até um chefe da máfia italiana havia colocado seu dinheiro nos cofres do IOR. Não demorou para que o financista de confiança do papa fosse destituído, no mesmo mês em que o mordomo Gabriele foi preso. A operação para derrubá-lo foi comandada por conselheiros do banco, com o aval de Bertone. Não satisfeitos em tirá-lo do cargo, elaboraram um dossiê que destruía Tedeschi pessoal e profissionalmente.
Se a poderosa e intrincada teia de intrigas formada por religiosos de alta patente é a razão para a situação de não governabilidade do 265º pontificado da história da Igreja Católica, a personalidade de Joseph Ratzinger explica a coragem para a renúncia. O maior teólogo da atua­lidade, pensador brilhante, de uma lucidez elogiada até por seus desafetos, o alemão sempre foi conhecido por ser extremamente racional e disciplinado. “Ratzinger é, sobretudo, um intelectual com uma sensibilidade especial para as ideias e a cultura e uma incapacidade e insatisfação para a gestão burocrática. E não é um homem midiático, ainda que se esforce para sê-lo”, afirma o vaticanista espanhol Juan Arias.
Cardeal mais identificado com João Paulo II, o pontífice sempre teve consciên­cia de que foi eleito no calor da comoção da morte do polonês, quando ainda ecoavam os gritos de “Santo Súbito” na Praça de São Pedro. Intimidados, os cardeais votantes no conclave de 2005 preferiram, de alguma forma, manter a administração Wojtyla. Ao se retirar e forçar uma sucessão com o papa vivo, Bento XVI, exclui o componente emocional do luto, eximindo os votantes da continuidade. E ainda pode, como fez em seu discurso de renúncia e na homilia de Cinzas, sugerir pistas de como deveria ser seu substituto – mais novo e com perfil administrador (portanto, menos erudito e introspectivo, como ele próprio). Além de alguém que promova a “renovação verdadeira” na Igreja, algo como um Concílio Vaticano III, como conclamou num encontro com sacerdotes da Diocese de Roma, na quinta-feira 14.
Só um homem em pleno vigor de suas forças poderia tomar uma decisão tão revolucionária e enfrentar acusações como a do cardeal Stanislaw Dziwisz, ex-secretário de João Paulo II, autor da frase “da cruz não se desce” sobre a renúncia. Certamente, ao dizer isso, o cardeal polonês se lembrou de uma entrevista dada por Ratzinger a uma tevê italiana, durante o calvário de João Paulo II, que agonizou diante de seus fiéis. Na ocasião, o então prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé afirmou categoricamente que o papa não podia renunciar. “O Senhor é que dá a alguém a responsabilidade de ser papa. Não foram os cardeais que fizeram dele um papa, mas, sim, uma intervenção divina.” Ao proferir a frase que foi tão replicada nas redes sociais, Dziwisz pode ter pensado por que agora o religioso alemão havia mudado de ideia. Essa foi apenas mais uma censura sofrida ao longo de seu pontificado. Bento XVI foi duramente criticado por muçulmanos, que chegaram a compará-lo a Hitler, por exemplo. Também foi censurado quando associou o uso de camisinha ao vírus HIV na África. E sai de cena criticado pelas associações de vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes, que apesar de reconhecerem que ele ousou tocar na ferida e pedir desculpas publicamente, não o perdoam por não ter conseguido pôr fim aos casos.
A pontuar essa sequência galopante de disputas internas, escândalos e polêmicas está um religioso que já no seu primeiro discurso como papa combateu o que chamou de “ditadura do relativismo” da atualidade, sempre fez questão de deixar claro que prefere poucos, mas bons católicos e defendeu ferrenhamente a tradição, a doutrina e a moral cristãs, sem a mudança de um versículo sequer. Diante dessa política de gestão, a Igreja foi perdendo fiéis, principalmente na Europa e nas Américas. Mas esse, agora, é um desafio para o próximo papa. A voz frágil de Bento XVI, que ecoou como um grito ensurdecedor na Basílica de São Pedro na quarta-feira 13, tamanha a gravidade de seu discurso, já deu o seu recado.
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Fotos: David McNew e Tony Gentile/REUTERS; FILIPPO MONTEFORTE/TOPSHOTS/AFP PHOTO

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PEDRO

“Em verdade, em verdade, eu te digo: quando eras jovem, amarravas o teu cinto e andavas para onde querias; quando ficares velho, estenderás as mãos e um outro atará o teu cinto e te conduzirá para onde não quiseres” (Jo 21,18).

Se o Papa, bispo de Roma, exerce o ministério petrino, seria bom refletir sobre o exercício dessa função de serviço à unidade da Igreja, meditando a partir de alguns textos bíblicos. Assim, o espanto com a renúncia de Bento XVI, 265º. sucessor de Pedro, torna-se mais compreensível. Pois o Senhor, ao confiar-lhe um posto de liderança no colégio dos 12, sem dúvida não seguiu critérios da lógica humana do sucesso, da eficiência administrativa nem da capacidade de convencimento própria de oradores famosos. Pedro era um simples pescador, pé de chinelo ou de sandálias – símbolo mais condizente com o seu estofo social do que o anel dos príncipes e reis – embora se apresentasse cheio de ímpeto e espontaneidade tanto na famosa confissão de fé no Messias, em Cesaréia de Filipe (Mc 8,29), quanto na negação diante das empregadas do Sumo Sacerdote (Mc 14,66-72). Homem contraditório, capaz de jurar fidelidade ao Mestre (Mc 14,29-31; Jo 13,36-38) e, logo em seguida, negá-lo. A figura simbólica que Jesus lhe imputou de maneira enérgica: “Afasta-te de mim, Satanás, pois teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8,33), mostra-se bem apropriada a esse personagem nada certinho, com a carapuça do opositor e inimigo máximo dos planos de Deus: Satanás. Ora, para a mentalidade bíblica de então, quem era Satanás senão o pai da mentira (Jo 8,44), da dissimulação, da hipocrisia (1 Tim 4,1-2), agente de morte e não de vida (Sab 2,24)?

E quem disse que o comportamento de Pedro mudou, mesmo tendo recebido a força (dynamis) do Espírito Santo no Pentecostes? O episódio narrado por Paulo em sua carta aos Gálatas (2,11-14) ilustra muito bem esse lado obscuro da personalidade de Kephas: o dissimulador, o hipócrita. Aquele que “não se comportava, não andava corretamente (uk orthopodousin) segundo a verdade do Evangelho (Gal 2,14), induzindo a outros e até mesmo a Barnabé neste ato de hipocrisia (hypokrísei: Gal 2,13), ou seja, na incoerência com o que fora acertado no Concílio de Jerusalém para a abertura da Igreja nascente aos incircuncisos. Qualquer semelhança com os tempos atuais é mera coincidência!

O lava-pés, que na versão joanina da última ceia substitui a instituição da eucaristia, narrada pelos sinóticos e pela 1ª.carta de Paulo aos coríntios, apresenta mais uma vez esse lado contestador e adversário de Pedro que não queria que o Mestre – como servo humilde – lavasse seus pés. Ao que Jesus lhe replica: “Se eu não te lavar, não poderás ter parte comigo” (Jo 13,6-11). João, o evangelista das dicas simbólicas, narra o gesto de Jesus antes da doação do mandamento novo (Jo 13,34-35) como que a indicar que é preciso estar preparado (puro, na linguagem bíblica), a fim de poder caminhar corretamente (orthopodein – Gal 2,14), sem vacilar os pés. Isso é bem mais importante – uma ortopráxis – do que a obsessão pela ortodoxia. A ortodoxia (dóxa) faz parte muito mais das opiniões variáveis e combiantes até mesmo quando se formularam, ao longo da história, os dogmas mais veneráveis, os credos que recitamos em nossas celebrações.

O ministério petrino, portanto, voltado à unidade da Igreja e à confirmação da fé dos irmãos (Lc 22,32), é exercido sob a condição sine qua non da conversão: “Quando te converteres” (Lc ibidem), ou seja, mesmo quando cair sob as ciladas de Satanás, dos pensamentos e preocupações humanas, o Senhor não o desamparará e, qual advogado (Paráclito), o defenderá, rogando por ele (Lc 22,31). É por isso que, não sendo nenhum super-homem, conhecerá como todos os humanos o declínio da juventude para a velhice, incapaz de tomar a iniciativa das decisões mais comezinhas ou do próprio rumo da vida, sem poder mais andar (peripatein) para onde bem gostaria (Jo 21,18). Ao entregar-lhe o pastoreio de seu rebanho, o Senhor também lhe mostrou em perspectiva o final de sua existência.

A renúncia de Bento XVI, um teólogo que jamais se separou das fontes bíblicas e patrísticas, não se situa na encruzilhada apenas de intrigas e conspirações palacianas na Cúria Romana, mas naquela outra da lucidez evangélica e paulina que tem Jesus de Nazaré como parâmetro de vida por excelência. Os fracassos, o humilde reconhecimento da própria impotência na condução do papado, podem produzir a reviravolta necessária para a mudança da Igreja, servidora de um Senhor que se faz escravo, longe da prepotência e da ostentação deste mundo.

Francisco Salatiel, biblista (e-mail: chicosalatiel@gmail.com) – Fone (61): 9986 9689