sexta-feira, 25 de julho de 2014

CRIANÇAS ERRANTES

 


Pe. Alfredo J. Gonçalves


Adital
O fenômeno da mobilidade humana não deixa de nos surpreender a cada dia e a cada curva das estradas percorridas pelos migrantes. Algumas décadas atrás falava-se da feminilização dos movimentos migratórios. As mulheres, especialmente jovens, começavam a destacar-se com um percentual cada vez maior no conjunto dos deslocamentos de massa. Agora é a vez das crianças: notícias, imagens e comentários, com frequência cada vez maior, dão conta do número de menores envolvidos no vaivém da migração. O mais grave é que não poucos viajam sem acompanhantes.
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Para trás ficou a impossibilidade de permanecer na região ou país de nascimento. Entre os fatores de expulsão, predominam precárias condições de vida, onde a pobreza, a miséria, a subnutrição e a fome passam a ser companheiras diárias. Tudo isso põe em evidência, de forma flagrante, o abismo crescente entre os países (ou regiões) centrais e desenvolvidos, de um lado, e os países (ou regiões) periféricos e subdesenvolvidos, de outro. Se os deslocamentos humanos em geral denunciam semelhantes injustiças e desequilíbrios entre ricos e pobres, a fuga das crianças o faz com muito maior eloquência.
Pior ainda, aquilo que se verifica entre as relações internacionais e regionais, reproduz-se igualmente no interior de cada país. De fato, boa parte dessas crianças, antes de ultrapassar as fronteiras de sua pátria, viram-se obrigadas a deslocamentos internos, solitárias ou com os familiares. Nessa "aventura”, podemos falar de três tipos de voos: primeiro, voos de curta distância, em que as pessoas abandonam o campo e se dirigem à cidade mais próxima ou à capital do próprio país; depois, voos de média distância, que é a tentativa de alcançar a capital de um país vizinho; por fim, voos de longa distância, onde se cruzam os mares, os desertos em busca de outros continentes ou de países tidos com o Eldorado.
Muitas vezes, para trás ficaram a guerra, os conflitos armados, as hostilidades entre religiões e ideologias, famílias devastadas pela droga ou o pelo álcool, casas reduzidas a escombros, ruínas e cinzas por bombardeios inimigos... O fato é que, antes de serem vítimas do deslocamento forçado ou do tráfico de seres humanos, essas crianças o são da violência em seus mais hediondos espectros. Órfãs, sós e perdidas, se põem a caminho. E deixam para trás, ainda, a infância e a adolescência, queimando implacavelmente tais etapas da vida. Desce cedo se encontram na obrigação de abandonar a escola para proverem a si mesmas e, às vezes, a própria família (quando esta não foi sepultada viva por batalhas sem fim).
E pela frente, o que podem descortinar tais "crianças errantes”? Insegurança, maus tratos, incerteza e adversidades sem fim. Não poucas cairão nas mãos do crime organizado, sendo utilizadas para a exploração sexual ou trabalhista. Com as dificuldades de adquirir documentação regular e cidadania, tornar-se-ão vulneráveis a qualquer tipo de abuso. Todas as portas lhes estarão irremediavelmente fechadas. Por outro lado, se é verdade que em alguns países estarão mais protegidas contra a deportação imediata (o que ocorre com migrantes adultos em situação irregular), também é certo que esses mesmos países não terão escrúpulos em criar mecanismos subterrâneos para remove-las ao lugar de origem.
Em síntese, na origem ou no destino, tornam-se verdadeiras marionetes de uma sociedade que sequer é capaz de assegurar o mínimo de condições de vida a suas próprias crianças. Adultas antes dos quinze anos, o que as espera? Na atual economia globalizada, de corte neoliberal, constituem o símbolo mais estridente da rejeição socioeconômica, da marginalização… Símbolo da "cultura da indiferença e do descarte”, como tem denunciado com insistência o Papa Francisco.

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