terça-feira, 29 de julho de 2014

Cristãos de Mossul: Para onde?

PATRIARCA RAPHAEL LOUIS SAKO I - z

Cristãos de Mossul: Para onde?

 
UMA MENSAGEM URGENTE DO PATRIARCA RAPHAEL LOUIS SAKO, PATRIARCA CATÓLICO CALDEU DE BAGDADE
Para todos os que têm consciência viva no Iraque e em todo o mundo
Para os irmãos muçulmanos moderados que têm uma voz no Iraque e em todo o mundo
Para todos os que têm a preocupação de que o Iraque poderia continuar a ser um país para todos os Seus filhos
Para todos os líderes de pensamento e de opinião
Para todos os que anunciam a liberdade do ser humano
Para todos os protectores da dignidade humana e da religião
PAZ E MISERICÓRDIA DE DEUS!
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O controlo exercido pelos Jihadistas islâmicos sobre a cidade de Mossul e a sua proclamação como um Estado Islâmico, após vários dias de observação calma e expectante, reflecte-se agora negativamente sobre a população Cristã desta cidade e dos seus arredores.
O primeiro sinal foi o do sequestro de duas religiosas e três órfãos que foram libertados após dezassete dias de cativeiro. Nessa altura, vimos isso como um sinal de esperança, como quando desaparecem as nuvens de tempestade.
De repente, fomos surpreendidos pelos acontecimentos mais recentes, que são a proclamação de um Estado Islâmico e o ultimato a todos os Cristãos, pedindo claramente para se converterem ao Islão ou pagarem o joziah (o imposto que todos os não-muçulmanos devem pagar enquanto vivam na terra do Islão) – sem especificar o valor exacto.
A única alternativa é abandonar a cidade e as suas casas apenas com a roupa que trazem vestida, não levando mais nada consigo. Além disso, pela lei Islâmica, após a sua partida as suas casas já não lhes pertencem, mas são imediatamente confiscadas como propriedades do Estado Islâmico.
O controlo exercido pelos Jihadistas islâmicos sobre a cidade de Mossul e a sua proclamação como um Estado Islâmico, após vários dias de observação calma e expectante, reflecte-se agora negativamente sobre a população Cristã desta cidade e dos seus arredores.
O primeiro sinal foi o do sequestro de duas religiosas e três órfãos que foram libertados após dezassete dias de cativeiro. Nessa altura, vimos isso como um sinal de esperança, como quando desaparecem as nuvens de tempestade.
Nos últimos dias, tem sido escrito a letra ‘N’ em árabe na fachada das casas pertencentes a cristãos, que significa Nazara (cristão) e na fachada das casas xiitas, a letra R’, que significa Rwafidh ‘(protestantes ou aqueles que rejeitam).
Não sabemos o que vai acontecer nos próximos dias, porque num Estado Islâmico, a sharia ou a lei Islâmica é poderosa e tem sido interpretada para exigir a emissão de novos cartões de identidade para a população com base na sua filiação religiosa ou partidária.
Esta categorização baseada na religião ou facção preocupa também os Muçulmanos e contraria a regulamentação do pensamento Islâmico expresso no Corão que diz: “Você tem a sua religião e eu tenho a minha religião”, e ainda noutro versículo que diz: “Não há coacção na religião”. Esta é exactamente a contradição na vida e na história do mundo Islâmico há mais de 1.400 anos e na co-existência com outras religiões e nações no Oriente e no Ocidente.
Com todo o respeito à crença e aos dogmas, tem havido uma convivência fraterna entre Cristãos e Muçulmanos. Os Cristãos têm partilhado muito, especificamente aqui no Leste, desde o princípio do Islão. Partilharam as situações doces e amargas da vida; o sangue cristão e muçulmano tem sido misturado, uma vez que foi derramado na defesa dos seus direitos e das suas terras. Juntos, construíram uma civilização, cidades e uma herança. É verdadeiramente injusto rejeitar agora os Cristãos e atirá-los para fora, considerando-os sem valor.
É evidente que o resultado dde toda esta discriminação imposta legalmente será a eliminação muito perigosa da possibilidade da co-existência entre maiorias e minorias. Será muito prejudicial para os próprios Muçulmanos, tanto num futuro próximo como distante.
Se continuarmos nesta direcção, o Iraque terá de enfrentar uma catástrofe humana, civil, e histórica.
Bíblia
AlcorãoApelamos com toda a nossa força; pedimos fraternalmente, e num espírito de fraternidade humana; apelamos com urgência; apelamos impelidos pelo risco e apesar do risco.
Imploramos, em particular, aos nossos irmãos Iraquianos, pedindo-lhes que reconsiderem e reflictam sobre a estratégia que adoptaram e exigindo que respeitem as pessoas inocentes e sem armas de todas as nacionalidades, religiões e facções.
O livro sagrado, o Corão, ordena os crentes a respeitarem os inocentes e nunca lhes pediu para tomarem os haveres, os bens, as propriedades de outros pela força. O Corão ordena refúgio para a viúva, para o órfão, para o pobre e para os que não têm arma, e respeito “para o sétimo vizinho”.
Pedimos aos Cristãos na região para agir com a razão e prudência, e para ponderar e planear tudo da melhor forma possível.
Vamos fazê-los compreender o que está planeado para esta região, praticar a solidariedade no amor, analisarmos as realidades juntos e, assim, sermos capazes de encontrar os caminhos para construir a confiança em si mesmos e nos seus vizinhos. Deixem-nos ficar por perto da sua própria Igreja e rodeá-la; suportem o tempo de provação e orem até que a tempestade termine.

 † Louis Raphael Sako
Patriarca da Babilónia dos Caldeus
17.07.2014
 
Fonte: http://www.fundacao-ais.pt/uploads/user_id_1/file/20140722115005_IRAQUE_D_LouisSako_22_07_2014.pdf

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