sexta-feira, 15 de agosto de 2014

ALÉM DOS LIMITES


Adital
Por Marcus Eduardo de Oliveira
É possível viver bem, com plena qualidade de vida, sem depender de crescimento econômico constante? Talvez seja essa a principal pergunta localizada no cerne do debate existente entre os economistas ecológicos (ecoeconomistas) e os tradicionais (neoclássicos).
Para os primeiros, em face da existência de limites de recursos naturais, a premissa é a seguinte: é impossível crescer indefinidamente simplesmente porque a Terra não é capaz de sustentar (e suportar) uma expansão econômica que fere substancialmente os sistemas ecológicos, tanto no ato da extração quanto no descarte (incapacidade de absorção de resíduos).
LEIA MAIS:

Para os economistas tradicionais, esperançosos que um dia a tecnologia e os padrões modernos de elevada produtividade darão conta da escassez ambiental, crescer (mais produção econômica) ainda é e será sempre a melhor maneira de promover bem-estar aos povos, dando-lhes acesso aos bens materiais e aos serviços oferecidos pela economia.
Fato irretocável é que, do choque existente entre os objetivos econômicos (acelerar o crescimento da atividade produtiva via políticas monetária e fiscal expansionistas) e os imperativos ecológicos (finitude dos recursos naturais, tamanho limitado da biosfera), a crise ambiental (típico "produto” de modelos econômicos expansivos emoldurado pela ação antrópica) emergiu como a mais grave ameaça à vida humana.
Diante disso, a hierarquia das urgências se configura em uma só: propor um novo modelo de administrar a economia em que, prioritariamente, sejam respeitados (resguardados) os serviços ecossistêmicos, sem os quais a própria atividade econômica não funciona.
Decorre daí a questão mais decisiva para a sobrevivência da humanidade: equilibrar o clima mediante a ocorrência de uma atividade econômica de baixo carbono, expurgando, além disso, o falso paradigma de progresso que se apoia, substancialmente, na acumulação de objetos materiais, promovendo nesse ato uma destruição avassaladora dos principais serviços prestados pela natureza – regulação climática, ciclagem de nutrientes, conservação dos solos, polinização, conservação dos corpos d´água, além, especificamente, dos serviços de provisionamento (alimentos, combustíveis, fibras, recursos genéticos).
Esse falso paradigma de progresso (pautado na expansão econômica e na consequente acumulação material) tem levado a atividade econômica a praticar, apenas e tão somente, um crescimento "quantitativo” e unidimensional, quando o sensato, na procura pela melhoria das condições de vida dos mais necessitados, visando alcançar bem-estar, seria obter desenvolvimento "qualitativo” e multidimensional.
Certo mesmo é que só haverá verdadeiro paradigma de progresso quando a economia social (poder de compra, emprego, aposentadoria, previdência social) e a economia ecológica (recursos naturais, serviços ecossistêmicos, patrimônio ambiental) estiverem numa mesma sintonia, compartilhando, numa mesma perspectiva, um mesmo horizonte; conversando num mesmo idioma, longe, portanto, de uma atividade econômica que agride a biodiversidade e contemporiza, por conta da perda ambiental, o agravamento de taxas indecentes de desigualdades sociais.
A crise ambiental, ora em curso, deixa cada vez mais notória a seguinte mensagem: não é possível conciliar crescimento com as alterações climáticas; ainda que o conceituado relatório Stern (Stern Review on the Economics of Climate Change) julgue que "não é incompatível a luta contra a mudança climática com a promoção do crescimento”.
Na contramão dos fatos, somos partidários da seguinte opinião: todo e qualquer crescimento exagerado é altamente prejudicial. Mesmo um corpo humano que sofre, por exemplo, de acromegalia (doença crônica provocada por excesso de produção do hormônio do crescimento – GH – na vida adulta) leva ao crescimento disforme de mãos, pés, nariz, enfim, ao espessamento geral da pele e de órgãos humanos. Guardadas as óbvias diferenças, assim também acontece com a atividade econômica quando cresce além dos limites.
Logo, não é desproposital afirmar que todo e qualquer organismo vivo que cresce exageradamente causa (e sofre) transtornos. Vale reiterar que para a atividade econômica – espécie de organismo vivo do sistema econômico – isso não é e nem poderia ser diferente.
Crescer além dos limites, em termos meramente econômicos e produtivos, tem promovido, ao contrário do que parece num primeiro momento, mais acúmulo de miséria (e desigualdades) de forma mais rápida do que contribuído para a geração de riqueza (e justa distribuição), uma vez que esse crescimento tem se soerguido na mais completa dilapidação ambiental e em alterações climáticas, cujo aquecimento da Terra é o fator mais ilustrativo.
Contudo, não se nega aqui a importância do ato de crescer; porém, se requer que o mesmo seja estabelecido dentro dos limites e, essencialmente, em regiões em que as condições se apresentem favoráveis.
Como bem disse Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda (1990-97): "ninguém desmente que o crescimento econômico seja essencial para melhorar o acesso a direitos básicos nas nações mais pobres”.
Dessa ponderação, não há espaço a dúvidas. É necessário, contudo, deixar margem ao crescimento das nações mais pobres; um crescimento dentro dos limites ecológicos.
O que se deve repensar, nesse pormenor, é a ocorrência de taxas de crescimento econômico continuadas nas nações mais ricas – como se isso fosse condição suprema para manter e elevar mais ainda a prosperidade – visto que isso tem contribuído para tornar um pouco mais insustentável a sociedade atual.
Essa insustentabilidade está nitidamente expressa na depleção dos ecossistemas do planeta. Os últimos 40 anos mostram, claramente, que a "nossa” pegada ecológica global dobrou. Agora, já está 30% maior do que a capacidade biológica da Terra tem de produzir para suas necessidades.
(*) Economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO (São Paulo). Especialista em Política Internacional pela (FESP) e mestre pela (USP). prof.marcuseduardo@bol.com.br

FONTE: ADITAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário