quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Capitalismo: o reinado dos abutres

Maurício Abdalla
Adital
A Argentina paga, hoje, o preço de seu passado neoliberal. O Brasil que fique de olho. Exemplo de seguidor obediente do Consenso de Washington, o país vizinho estabilizou a economia seguindo a receita cambial (com as conhecidas consequências para as transações comerciais externas), aumentou enormemente a dívida para financiar o Estado com capital especulativo, privatizou todos os setores estratégicos da economia e assinou acordos em que aceitava a arbitragem internacional para dirimir conflitos financeiros. Isso é bem conhecido de nós, brasileiros, desde o Plano Real e o Governo FHC.
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A explosão da dívida levou à moratória de 2001, que evitou que o país quebrasse de vez. O débito foi renegociado com os fundos de investidores em 2005 e 2010 a preços menores do que garantiam os títulos antes de 2001. Os que aderiram ao acordo levaram muito dinheiro. Mesmo não sendo o que esperavam. Ainda lucraram mais do que se houvessem investido seu capital em produção.
Outros não aderiram e ou mantiveram seus títulos ou os venderam a preços menores (porém maiores do que os prometidos pelo Estado) para outros investidores. Estes iriam buscar na Justiça (vendável em todo o mundo) o direito de receber a remuneração de seu capital rapinante nos valores previstos pré-moratória de 2001. São os chamados "fundos abutres". Ganharam recentemente decisão favorável de um juiz dos EUA.
Se a Argentina pagar o que determina o juiz para os fundos abutres, terá que pagar o mesmo para aqueles que aceitaram levar um valor menor nas negociações de 2005 e 2010. A quebradeira será maior. Se não pagar, pode ter sequestrado seus recursos depositados em bancos internacionais e sofrer outras medidas. Os donos dos fundos abutres são grandes banqueiros internacionais, grupos de investimento e indivíduos que querem enriquecer não muito, mas no limite máximo possível. Fazem parte do bloco hegemônico mundial, que elegem presidentes, influenciam na escolha de ministros metem-se em disputas eleitorais em países que não são os seus.
Para eles, não importam os problemas sociais e econômicos que seu enriquecimento exorbitante e irracional pode gerar a um país, não se preocupam com o desemprego, empobrecimento e a fome da população, nem com a incapacidade do Estado de prover o mínimo essencial para os que não têm acesso a serviços privados. Querem multiplicar seu dinheiro a todo custo, e mandam a humanidade às favas. Esse é o capitalismo em sua essência mais pura. É o sistema que muitos dizem que "deu certo", o ápice da evolução econômica da humanidade. Certamente, o capitalismo deu certo para os abutres. Mas se estabelecer o reinado definitivo dos abutres é o mais elevado grau da evolução econômica da humanidade, precisamos urgentemente involuir.
Professor de Filosofia da UFES, autor de "O princípio da cooperação" (Paulus) e "La crisis latente del darwinismo" (Cauac), dentre outros.
FONTE:  http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81818

Maurício Abdalla


Catedrático brasileiro. Membro do Movimento Fé e Política, professor de filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo. Autor de "O princípio da cooperação" (Paulus) e "La crisis latente del darwinismo" (Cauac), dentre outros.

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