quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Instrumentum laboris do Sínodo

Se do Sínodo sobre a família de outubro próximo – e ainda mais do de 2015, encarregado de identificar linhas operacionais pastorais adequadas – surgir uma nova direção em matéria de moral familiar e sexual será realmente uma surpresa.

10/07/2014  |  domtotal.com  
Não só porque seria subverter um Magistério dado praticamente como imutável, mas também porque nada doInstrumentum laboris divulgado no dia 26 de junho passado leva a prenunciar algo nesse sentido.
As aberturas, embora relevantes, que surgiram nesses meses sobre algumas questões – uma, acima de todas, é a do cardeal Walter Kasper sobre a readmissão aos sacramentos dos divorciados em segunda união –, parecem não ter afetado nem minimamente os sagrados sagrados.
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Certamente, o documento de trabalho, sintetizando as respostas ao questionário sobre matrimônio e família enviadas por Igrejas locais, associações, grupos eclesiais e indivíduos, dá conta do que se agita no vasto mar dos fiéis, mas, ao fazer isso, parece rejeitar todo pedido de renovação.
Em princípio, o Instrumentum reconhece que “também quando o ensinamento da Igreja sobre matrimônio e família é conhecido, muitos cristãos manifestam dificuldade em aceitá-lo integralmente”. As questões sobre as quais se nota uma “resistência” são facilmente previsíveis e já haviam surgido das respostas ao questionário divulgadas nos últimos meses: controle de natalidade, divórcio e novas núpcias, homossexualidade, coabitação e assim por diante. Mas sigamos com ordem.
Nada de novo sob o sol

Sobre a questão da readmissão aos sacramentos daqueles que vivem em situação de irregularidade – em primeiro lugar, os divorciados em segunda união –, o documento relata que, diante de um número consistente de pessoas que “consideram com menosprezo a própria situação irregular”, “o sofrimento causado pela não recepção dos sacramentos está claramente presente nos batizados que estão conscientes da própria situação”.
“Alguns perguntam-se por que motivo outros pecados são perdoados e este não; ou então, por que os religiosos e os sacerdotes que receberam a dispensa dos seus votos e dos ônus presbiterais podem celebrar o matrimônio, receber a comunhão, e os divorciados recasados não”.
Em outros casos, continua o documento, “não se compreende como a própria situação irregular é o motivo para não poder receber os sacramentos; ao contrário, considera-se que a culpa é da Igreja, que não admite tais circunstâncias. Nisso, indica-se também o risco de uma mentalidade reivindicativa em relação aos sacramentos. Além disso, é muito preocupante a incompreensão da disciplina da Igreja, quando nega o acesso aos sacramentos em tais casos, como se se tratasse de uma punição”.
Algumas Conferências Episcopais “salientam a necessidade de que a Igreja se dote de instrumentos pastorais mediante os quais abrir a possibilidade de exercer uma misericórdia, clemência e indulgência mais amplas em relação às novas uniões”.
Outros “sugerem que se considere a prática de determinadas Igrejas ortodoxas que, na sua opinião, abre o caminho para um segundo ou terceiro matrimônio, com caráter penitencial”; outros “pedem para esclarecer se a questão é de índole doutrinal ou apenas disciplinar”.
Instrumentum se contenta em concluir que, nesses casos, “a Igreja não deve assumir a atitude de juiz que condena”, mas “a de uma mãe que acolhe sempre os seus filhos e cuida das suas feridas em vista da cura”.
“A Igreja é chamada a encontrar formas de ‘companhia’ com as quais apoiar esses seus filhos num percurso de reconciliação. Com compreensão e paciência, é importante explicar que a impossibilidade de aceder aos sacramentos não significa ser excluídos da vida cristã e da relação com Deus.”
Não às uniões homossexuais e às adoções gays

O apelo à família fundamentada na união entre um homem e uma mulher é bem remarcada, em várias ocasiões e desde a premissa. O documento relata que “todas as Conferências Episcopais se expressaram contra uma ‘redefinição’ do matrimônio entre homem e mulher, através da introdução de uma legislação que permita a união entre duas pessoas do mesmo sexo”.
Há amplos testemunhos das Conferências Episcopais, continua o Instrumentum, “acerca de um equilíbrio entre o ensinamento da Igreja sobre a família e uma atitude respeitosa e não julgadora em relação às pessoas que vivem nessas uniões. No seu conjunto, tem-se a impressão de que as reações extremas a tais uniões, tanto de condescendência como de intransigência, não facilitaram o desenvolvimento de uma pastoral eficaz, fiel ao Magistério e misericordiosa para com as pessoas interessadas”.
Quanto à possibilidade de uma pastoral para essas pessoas, o documento afirma que “é necessário distinguir entre aquelas que fizeram uma escolha pessoal, muitas vezes atormentada, e que a vivem com delicadeza para não dar escândalo aos outros, e um comportamento de promoção e publicidade concreta, frequentemente agressiva”.
Uma posição semelhante quanto à adoção por casais homossexuais, hipótese rejeitada pelas respostas recebidas, que “veem em perigo o bem integral do filho, que tem direito a ter uma mãe e um pai”.
Divisão clara sobre a contracepção

Outro tema candente, sobre o qual a distância entre fiéis e Magistério se torna evidente, é a contracepção. “As respostas relativas ao conhecimento da doutrina da Igreja sobre a abertura dos esposos à vida, com referência particular à Humanae vitae, descrevem de modo realista o fato de que ela, na grande maioria dos casos, não é conhecida na sua dimensão positiva.”
“Na grande maioria das respostas recebidas – continua o Instrumentum – evidencia-se como a avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos é hoje entendida pela mentalidade comum como uma ingerência na vida íntima do casal e como um limite para a autonomia da consciência.”
Mas se é verdade que muitos rejeitam alguns aspectos do Magistério, é igualmente verdade que muitos documentos conciliares e pós-conciliares não são exatamente conhecidos. E algumas observações recebidas imputam responsabilidade disso aos pastores que não conhecem “em profundidade o argumento matrimônio-família dos documentos, nem parece que tenham os instrumentos para desenvolver essa temática”.
Muitas vezes – relata o documento – se prefere não abordar esses temas, porque os pastores se sentem “inadequados e despreparados para tratar problemáticas que se referem à sexualidade, à fecundidade e à procriação”.
Alguns pequenos passos…
Uma nota positiva reside no fato de que, embora seja verdade que o Instrumentum enfatize repetidamente os perigos que resultariam dos gender studies – para os quais ele utiliza o termo “ideologia de gênero” – também é verdade que emergem em várias passagens algumas questões que o questionário tinha omitido: a violência doméstica, as consequências derivantes de uma cultura machista e os feminicídios, drama, este, que o documento define como “realmente preocupante” e que “interroga toda a sociedade e a pastoral familiar da Igreja”.
Igualmente relevante é o reconhecimento do fato de que, muitas vezes, o apego aos sacramentos é mais uma questão de tradição do que fruto de um percurso de maturação na fé. Sejam ou não regularmente casados, muitos pais “pedem para os filhos a iniciação nos sacramentos a fim de não faltar a um hábito, a um costume típico da sociedade”.
“O sacramento – destaca o Instrumentum – ainda representa para muitas pessoas uma festa tradicional, que elas pedem mais por conformação com um hábito familiar e social, do que por convicção.”
O mesmo quadro emerge em relação ao sacramento do matrimônio considerando-se que “as motivações que induzem os católicos não praticantes a restabelecer os contatos com as respectivas paróquias, em vista da celebração do matrimônio, em conformidade com todas as respostas que abordam esse ponto, na maioria dos casos, residem no fascínio ligado à ‘estética’ da celebração (atmosfera, sugestão, serviço fotográfico etc.) e, igualmente, num condicionamento proveniente da tradição religiosa das famílias de pertença dos nubentes”.

Agência Adista, 05-07-2014

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