sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O papa e os dilemas da guerra justa

Dilemas que são impossíveis de se desfazer, se não se souber responder primeiro à pergunta: que nexo há entre aqueles que lucram com as guerras e aqueles que gerem o poder? E como se pode fazer para rompê-lo?
 
A análise é do jornalista italiano Paolo Garimberti, publicada no jornal La Repubblica, 20-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
 
O conceito de "guerra justa" dilacera há décadas as consciências dos indivíduos e condiciona as escolhas dos Estados. As palavras do papa sobre a "Terceira Guerra Mundial feita em pedaços" são uma fórmula que será entregue à História. Admirável fotografia de "um mundo em guerra em toda a parte", elas relançam um debate que não tem respostas morais certas e não tem soluções políticas incontestáveis, mas que nos coloca diante de decisões angustiantes em um quadro geopolítico devastado por conflitos cruéis até a barbárie.
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Como nos lembrava Federico Rampini neste jornal, existem hoje no mundo apenas 11 países que não estão envolvidos em guerras. Em 1996, contra quem preconizava o "fim da História" depois do esmagamento da URSS, Samuel Huntington escrevia no célebre livro O choque de civilizações e a nova ordem mundial, que "as linhas de fratura entre as civilizações serão as linhas nas quais se consumarão as batalhas do futuro".
Mas nem mesmo esse clarividente cientista político fundador da Foreign Policy, uma das mais respeitadas revistas de política internacional, imaginaria no novo milênio um mundo tão chagado por guerras, com "a humanidade assustada com dois problemas: a crueldade e a tortura", como disse o Papa Francisco.
Nenhum pontífice pode se lançar a definir uma guerra como justa. Até mesmo um laico como Norberto Bobbio, que falou de "guerra justa" para a invasão do Kuwait por parte do Iraque de Saddam Hussein em 1990, foi intensamente dilacerado pela sua própria audácia. Que também era o resultado de uma reflexão histórica e geopolítica impecável. Acabada a era do bipolarismo, com duas superpotências que se enfrentavam de modo amplo (do âmbito ideológico ao militar), mas que, ao mesmo tempo, garantiam um rígido controle dos impulsos bélicos talvez com a doutrina apenas aparentemente surreal da "recíproca destruição assegurada" (Mad, segundo a sigla em inglês, que também significa "louco", justamente), o mundo tinha voltado a uma lógica quase medieval de uma guerra indiscriminada entre gangues.
A partir dos conflitos dos Bálcãs do início dos anos 1990, assistimos a uma escalada de violência global de que as crônicas de horror que nos chegam todos os dias do norte do Iraque são apenas a ponta do iceberg.
Se, para Jürgen Habermas, a causa humanitária havia sido motivo suficiente para justificar a intervenção na Sérvia, o que ele diria hoje diante do massacre de cristãos por parte dos fanáticos defensores do Califado? Aonde chegaria a reflexão de Norberto Bobbio sobre a "guerra justa", que lhe havia sido sugerida pelo temor de um novo apaziguamento como o acordo de Munique de 1938?
Não só a História não acabou, como afirmara imprudentemente Francis Fukuyama depois de 1989, mas a História também nos coloca diante de dilemas cada vez mais angustiantes, de tragédias cada vez mais inauditas, de horrores sempre crescentes em uma multiplicação exponencial dos demônios da guerra, em que, aos "Estados canalhas" de memória reaganiana, somaram-se os "indivíduos canalhas", dos quais Bin Laden foi o progenitor superado em ferocidade pelos seus macabros seguidores.
"Os agressores injustos, como aqueles no Iraque, devem ser detidos", disse o Papa Francisco. Mais ele não podia dizer no rastro de uma tradição que, de Bento XV ("o massacre inútil" referido à Primeira Guerra Mundial) em diante, nunca justificou abertamente nenhuma guerra.
Mas, com as suas palavras, o pontífice ecoou novamente as corajosas elaborações do Papa Wojtyla sobre a guerra no Iraque, depois da de Kosovo. "Sabemos bem – disse ele no Ângelus de 16 de março de 2003 – que não é possível a paz a todo custo. Mas todos sabemos como é grande essa responsabilidade".
E, dois meses antes, ao corpo diplomático credenciado no Vaticano, ele advertira que "a guerra é sempre uma derrota da humanidade" e que "não se pode recorrer à guerra, mesmo que se trate de assegurar o bem comum, senão como extrema possibilidade e no respeito de condições bem rigorosas" (palavras que não agradaram aos pacifistas, alguns dos quais lhe pediram para não deixar "brechas para os incisos e as distinções").
E eis Francisco, 11 anos depois, dizendo que os agressores devem ser detidos, "não digo com as bombas, mas é preciso avaliar com quais meios e com uma decisão comum das Nações Unidas". É um apelo muito forte e angustiado às responsabilidades da Política. É um aviso às potências, dos Estados Unidos à Rússia, à própria Europa (tão incapaz, no entanto, de ser uma potência), para porem de lado rivalidades e egoísmos para combater juntas a barbárie em que o mundo está afundando.
É quase uma invectiva (se é que se pode usar esse termo para as palavras de um pontífice) para que as Nações Unidas não se tornem fracas como a Liga das Nações. Será que, no Palácio de Vidro, os chamados "grandes da terra" deixarão de brincar de vetos cruzados e irão lhe dar ouvidos?
 

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