quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Os discípulos discutiam sobre quem, dentre eles, seria o maior



Nayá Fernandes


Adital

Em uma das vezes que Jesus fala do templo, exalta a pedra que os pedreiros rejeitaram (Sl 117), ou seja, aquilo que, na prática não foi escolhido para fazer parte do templo. Em uma de suas visitas à sinagoga, foi expulso (Lc 4,16ss), em outra, derrubou as mesas dos cambistas no templo (Mt 21). Importante lembrar também que, no pequeno povoado de Nazaré, onde Jesus vivia, possivelmente nem tivesse escola ou grandes construções. Igualmente em Carfanaum, afirma a arqueologia moderna, havia somente pequenas casas, bem próximas umas das outras.
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O motivo de existir da Igreja Católica e das demais Igrejas cristãs, Jesus, foi um mestre para poucos. Historicamente ele não construiu, com suas mãos ou mesmo dos seus discípulos, nenhuma estrutura física para se reunir com seus seguidores. Eles se encontravam nas casas, nas ruas, nas praças, nos campos cultivados, nas montanhas. Os seguidores do caminho eram reconhecidos pela partilha do pão, pela leitura das escrituras e pelas ações no meio do mundo.
Com o tempo, e a instituição da Igreja, sobretudo depois que o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império, a situação começou a mudar. Ocidente e Oriente investiram em arte para construção de grandes templos e ainda hoje, a Paróquia, seja no ambiente rural ou na cidade, é sinal da presença da Igreja Católica. A estrutura física tornou-se tão importante que, em determinados contextos, sobretudo urbanos, pode significar a não formação de uma comunidade cristã.
A questão do templo e suas dimensões, voltou com toda a força dentro da Igreja Católica, devido à inauguração do "III Templo de Salomão”, no Brás, centro da capital paulista. Idealizado e mantido pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), entre outras notícias, salientou-se que a estrutura recém construída é três vezes maior que a Basílica Menor de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida (SP). Alguns membros do clero levantaram a voz para desmentir o que foi anunciado e tem se publicado notas, periódicos e artigos para provar que Aparecida é maior, inclusive em tamanho, atividades, números de fiéis etc.
Contradição. Recentemente, a CNBB publicou um documento em que afirma que a Paróquia é uma "rede de comunidades”, ou seja, é formada por pequenos núcleos e funciona em rede, favorecendo assim, a partilha e comunhão entre os membros. Enquanto isso, surgem as mais diversas interpretações acerca do embate. Já ouvi biblistas afirmarem que a construção do templo de Salomão é uma nova "torre de Babel” e cobrando a manifestação, por exemplo, da comunidade judaica. "Que autoridade os judeus têm para pedir aos católicos que não pronunciem o tetragrama sagrado, Javé, se eles não se manifestaram acerca deste absurdo?”, questionou.
Contudo, é preciso dosar bem. Entre judeus e católicos há um diálogo histórico, enquanto a recém criada IURD tem atitudes que não a classificam como uma religião constituída, mas como uma nova expressão de fé. Além disso, tais embates podem dificultar, ainda mais, o diálogo inter-religioso e dar razão para brigas entres vizinhos de igrejas diferentes. Afinal, a preocupação com tamanho, quantidade e sucesso nunca foi a preocupação de Jesus. Ele mesmo criticou os discípulos quando esses voltaram da missão afirmando que até os demônios os obedeciam e não cedeu quando alguns, entre os dele, queriam o fazer rei (Jo 6).
Certamente o Reino de Deus não está nas dimensões físicas de uma igreja e, por mais que este espaço proporcione o encontro com Deus e algumas comprinhas no shopping, a briga para provar quem é o maior, está longe de ser a briga travada pelo mestre contra aqueles que se utilizavam da religião oficial na sua época para oprimir o povo e colocar sobre eles "pesadas cargas”.
Qual é o questionamento mais oportuno? Não vamos aqui falar dos males que as igrejas também provocaram, para não acalentar aqueles que se satisfazem com estas críticas. Ainda assim, não é possível fechar o olhos e não se perguntar qual o direcionamento do dízimo pago no Templo de Salomão ou quais os mecanismos de dominação utilizados para persuadir e até mesmo amedrontar os fiéis. Questionar os métodos, os absurdos, todo tipo de corrupção e falsidade da IURD e seu fundador Edir Macedo, isso sim parece ser legítimo. Mas é tão legítimo quanto o deve ser na Igreja Católica. E não só quando se refere à aspectos financeiros, mas também morais e aqui entram todos os crimes no campo sexual, religioso e usurpação do poder concedido pela própria Igreja Católica.
O contrário é defesa insegura, é medo de perder território, é uma falsa proteção. Para mim, proteger a Igreja, significa lutar pelos que sofrem, pelos que não têm voz, pelos que não têm quem os defenda. Não são as paredes que devem ser defendidas das calúnias, mas as pessoas, muitas delas mortas injustamente, simplesmente porque tiveram coragem de sair dos limites físicos que as protegiam. Aí, a lista é grande. Mas a mídia pouco fala, mas deles pouco se lembra. São pequenos, simples e nunca construíram nenhum templo.

Nayá Fernandes

Jornalista do jornal O São Paulo

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