terça-feira, 12 de agosto de 2014

REFORMA DO PAPADO

Reforma do Papado, obra aberta



A tradução é de Caio Coelho.

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Há quem sustente, incluindo aqueles que dizem estar seguros, que o Papa Francisco quer reformar o papado ao ponto de “desconstruir” o papel do pontífice romano como desenvolvido no segundo milênio da era cristã, a partir da reforma gregoriana e através do ensinamento do Concílio de Trento e do Vaticano I.
É o que resulta de duas declarações importantes que seguiram nas últimas semanas.
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O protagonista de uma delas é o monge leigo Enzo Bianchi, fundador e prior do mosteiro de Bose.
Em 23 de julho, depois de ter sido nomeado pelo Papa Francisco consultor do Pontifício Conselho para a promoção da unidade dos cristãosBianchi fez algumas declarações explosivas no sítio Vatican Insider.
O cargo recebido pelo prior de Bose não é, em si mesmo, de grande relevância. Mas tem sido entusiasticamente recebido no circuito de midiático vista a grande influência que tem a elocução de Bianchi no mundo católico – não só progressista – e a presença constante de sua assinatura nas primeiras páginas dos principais jornais seculares italianos, como “La Repubblica “e” La Stampa “.
Tem desaparecido, por outro laldo, as observações críticas pela promoção – no departamento do Vaticano que lida com o diálogo ecumênico – do fundador de uma experiência monástica que já se apresenta como interconfessional, com um luterano entre seus membros mais antigos, muito aberta e amigável com os protestantes e ortodoxos, mas intransigente e desdenhosa com tradicionalistas lefebvrianos, os únicos a quem reserva a qualificação de “cismáticos”.
Particularmente duro foi o comentário do bispo Antonio Livi, ex-decano da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Lateranense, que chegou a acusar Bianchi de ter atribuído ao Papa suas elocubrações pessoais.
Mas o que Bianchi sustentou que é tão explosivo?
prior de Bose disse ao Vatican Insider que acredita “que o Papa quer chegar à unidade também através da reforma do papado, um papado não mais assustador, como disse o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, a quem o Papa está ligado por uma amizade”.
Explicando que a reforma do papado significa “um novo equilíbrio entre Sinodalidade e Primazia”, Bianchi acrescentou:
“O ortodoxos exercitam a sinodalidade e não tem primazia; nós católicos temos a primazia mas também temos um defeito de sinodalidade. Não há sinodalidade sem primazia e não há primazia sem sinodalidade. Isso ajudará a criar um novo estilo de primazia papal e do governo dos bispos”.
O monge piemontês recordou então uma novidade que também pode ter uma tradução prática. Ele disse que o Sínodo dos Bispos “existe desde o Concílio Vaticano II,” o conselho de nove cardeais que contribui para Francisco na reforma da Cúria “foi querido pelo Papa”, mas acrescentou que é possível, no futuro, a hipótese de “um corpo episcopal para ajudar o Papa no governo da Igreja, sem questionar o primado papal”.
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Agora, para a outra declaração sobre as intenções de Jorge Mario Bergoglio a respeito de uma reforma do papado.
Neste caso, o protagonista é o arcebispo americano John R. Quinn, 85, chefe da diocese de San Francisco de 1977 a 1995 – quando quis renunciar com apenas 67 anos, também por causa dos casos de abusos sexuais em que estavam envolvidos dois de seus colaboradores da Cúria diocesana – e presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos de 1977 a 1980.
Em 7 de julho, Quinn fez referência ao semanário americano “National Catholic Reporter” que Bergoglio lhe disse, poucos dias antes do conclave, onde ele estava para ser elevado à Cátedra de Pedro:
“Eu li o seu livro e espero que seja implementado”.
O livro de Quinn, lido e aprovado pelo cardeal Bergoglio, remonta a 1999 e tem o título programático: “A reforma do papado. A custosa chamada para a unidade dos cristãos (The reform of the papacy. The costly call to Christian unity)”.
Na Itália, foi traduzido por Queriniana Editorial em 2000 com o mesmo título.
O volume apresenta uma reflexão sobre a Encíclica “Ut unum sint” de João Paulo II. A encíclica de 1995, de acordo com o autor do livro, propõe uma “clara ruptura com o passado e é, em muitos aspectos, revolucionária”, porque “exalta o modelo sinodal da Igreja do primeiro milênio e insiste no fato de que o Papa é um membro do colégio dos bispos e a primazia deve ser exercida de forma colegial”.
Em suma, “Ut unum sint” – sempre de acordo com Quinn - “atesta o fato de que aceito o Vaticano I e seus ensinamentos sobre a primazia da jurisdição não impede uma compreensão mais ampla da primazia” e “faz entender que o Vaticano I não era a última palavra”.
Com base nesse postulado, Quinn faz uma série de propostas concretas relativas ao governo da Igreja.
Por exemplo, no que diz respeito às conferências episcopais, apesar das disposições restritivas contidas no motu proprio de 1998, em sua natureza teológica e jurídica, Quinn argumenta que devemos considerar uma verdadeira realização da colegialidade episcopal com uma função real de magistério, e também doutrinária.
Quanto ao Sínodo dos Bispos, indica a necessidade de evitar o controle da Cúria Romana, ao excluir a presença automática dos chefes de departamento.
Em relação à nomeação dos bispos, Quinn deseja, como um presente para a “eclesiologia autêntica” do Concílio Vaticano II, que na escolha dos candidatos se redimensionar drasticamente o papel de núncios, dando vez a um papel de destaque para os bispos das respectivas províncias eclesiásticas e, na subordem, aos presidentes das conferências episcopais.
Na prática, portanto, “a lista de nomes escolhidos pelos bispos devem ser enviadas diretamente para Roma pelo arcebispo da província metropolitana, indicando um relatório favorável do presidente da conferência,” enquanto “não deve ter a discussão sobre a lista entre os bispos da província e Roma”, nem qualquer função por parte do núncio. E se Roma não concorda com a lista “esta deve ser encaminhada para a Província para uma análise mais aprofundada e para alterações.” Deve-se acrescentar a isso um maior envolvimento dos sacerdotes e leigos, sempre para evitar a politização, o sectarismo e as violações de sigilo.
Essas novas modalidades na eleição de bispos serviriam – segundo Quinn - para evitar “problemas sérios” causados por procedimentos existentes. Ele cita a demora no preenchimento da vaga, excessiva “ênfase” sobre a eleição dos candidatos que garantam a confiança doutrinária, a transferência de um bispo de uma sede a outra, a multiplicação de auxiliares.
Quinn também apoia a remoção do colégio de cardeais a exclusividade na eleição do Papa. Sugere que deveriam ser admitidos no conclave os patriarcas das Igrejas Orientais Católicas, mesmo caso não lhes tenha sido concedido a púrpura; que participem na votação, pelo menos, alguns presidentes de conferências episcopais e que grandes organizações laicas indiquem aos eleitores as qualidades que eles gostariam de ver no novo papa.
Finalmente, para Quinn, o nó decisivo de uma reforma papado visando a unidade dos cristãos não é apenas a centralização, mas também a reforma da Cúria Romana.A cúria romana, acima de tudo, deve ter cada vez menos padres e bispos. E para este fim Quinn tacha como “abuso do sacramento da Ordem e do cargo de bispo” que os secretários dos departamentos do Vaticano sejam sistematicamente elevados à dignidade episcopal.
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Estas são, portanto, as reformas desejadas por Quinn até o final do milênio passado, o então cardeal Bergoglio, às vésperas do conclave de 2013, teria dito – como indicado pelo próprio Quinn – que deseja implementar estas ideias.
A questão vem sozinha. Hoje tendo se tornado Papa, Bergoglio tem o poder, pretende ele promover, incentivar e até mesmo impor a aplicação dessas reformas?
Algumas decisões tomadas até agora por Francisco parecem ir nesse sentido, como a criação do Conselho dos Nove e a potencialização do Sínodo dos Bispos.
Mas outros vão na direção oposta, como o aumento contínuo dos secretários, não só os departamentos da Cúria, mas também do Governatorato e os mesmos bispos sinodais.
E no que diz respeito a delicada questão das nomeações episcopais nas dioceses – não se sabe se a práxis indicada por Quinn começou a ser implementada ou não na Argentina – discutido na última reunião do argumento “C9″. Certamente, nenhuma das numerosas reservas episcopais deste país, desde março de 2013 até à data, tem passado pelo Vaticano ao crivo dos membros da Congregação dos Bispos.  Como tampouco eles têm feito a nomeação, na Itália, nas dioceses de Isernia e Locri.
Na Argentina, além de seu sucessor, em Buenos Aires, o Papa Francisco realizou vinte nomeações episcopais, das quais oito (convertidos depois em sete após a renúncia inexplicável de um dos eleitos, que ocorreu após a publicação da nomeação mas antes da consagração) pertenciam no entanto a bispos auxiliares. Também neste campo, portanto, o sacerdote argentino não parece querer seguir as instruções do livro de Quinn, que por outro lado foi muito elogiado.
Mas foi apenas um ano e meio desde o início do pontificado. É muito cedo para entender o quão longe quer ir Francisco para uma reforma efetiva do papado.


Sandro Magister

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534078-reforma-do-papado-obra-aberta

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