quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Solução? Padres casados ou mulheres ordenadas

   

Mariano Gamo, de chapéu, junto com padres operários de Madri. No primeiro plano, Julio Pérez Pinillos. À esquerda, Enrique de Castro
A hierarquia católica está obrigada a revisar sua rejeição aos padres casados e ao sacerdócio feminino. Antes, era pecado não ir a missa aos domingos. Agora, são os bispos que não as oferecem.
A reportagem é de Juan G. Bedoya, publicada no jornal El País, 29-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O rebanho está ficando sem pastores. Essa poderia ser a conclusão do estado da Igreja Católica em 2009. Bento XVI proclamou-o como Ano Sacerdotal para buscar uma solução à irrefreável crise de vocações. Alarmados, os bispos espanhóis estudaram o problema nesta semana, a partir da proposta de seu líder, o cardeal Antonio María Rouco. "Os sacerdotes são menos e de mais idade", disse ele em seu discurso diante da assembleia da Conferência Episcopal, na segunda-feira passada. Na Espanha, há 23.286 paróquias, mas 10.615 não têm sacerdote residente. São dados de 2005. A média de idade dos padres em atividade é de 63,3 anos. "Em algumas áreas, alcança os 72,04 anos", expôs Rouco. A média de idade dos bispos também não é menor.
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A ideia de rebanho na Igreja romana é bíblica. Não há desprezo no termo. É como o fundador Jesus via aqueles que o seguiam, segundo o evangelista Mateus. "Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam desamparadas e dispersas como ovelhas sem pastor". A comparação já estava no relato de Davi, pastor antes de ser rei da Judeia. Pablo Neruda converteu isso em metáfora. A realidade é que as ovelhas se perdem quando não têm quem as guarde.
Nos catecismos dos padres Astete e Vilariño, de cumprimento obrigatório durante a ditadura nacional-católica, a missa dominical era "o primeiro mandamento da Igreja". "Ouvir missa inteira todos os domingos e festas", dizia. "A missa vale muito?", perguntava o catequista às crianças. "É o principal ato da religião cristã". "Quem está obrigado a esse primeiro mandamento?". "Todos os batizados que têm uso da razão". Para exigir um cumprimento tão explícito, alguns sacerdotes na Espanha católica, por decreto, exigiam a intervenção da Guarda Civil, com multas de 25 pecetas em 1955, por exemplo.
"Agora, o padre passa por aqui só quando algum de nós morre, ou para rezar a missa na festa do povoado", diz um vizinho de Avellanedo (Cantábria). Não é uma queixa. Ele diz isso sentado displicentemente, enquanto observa os carros que sobem ou descem do porto de Piedrasluengas. Simplesmente, chamam-lhe a atenção as enormes diferenças entre o que ele viveu em sua juventude e o que ele comprova na aposentadoria.
O fracasso do povoamento
Avellanedo está no coração dos Picos de Europa, pelo lado da Cantábria, em uma comarca conhecida como Liébana. Dispersas em meia dezena de vales, existem 85 pequenas aldeias, com cerca de seis mil habitantes no total. Administrativamente, chamam-se juntas vizinhais ou "pedanías". A Igreja Católica tem cerca de 72 paróquias catalogadas nessa região.
Em 1966, Liébana era atendida por 32 sacerdotes, um para cada três paróquias, ou quase isso. Hoje, são quatro padres. Um deles já completou 83 anos, Benito Velarde, uma instituição na comarca. Dos outros três, Manuel Gutiérrez, pároco em Tama e em outras oito igrejas locais, tem 72 anos. Elías Hoyal, com sede em Potes, completou 35 anos, e Manuel Muela tem 47 anos. Os quatro recebem a ajuda de outros tantos freis franciscanos do monastério de Santo Toribio de Liébana, muito atarefados em seu convento, porque dizem que ali está guardado o maior pedaço do madeiro onde o fundador foi crucificado.
O padre Muela atende 22 paróquias, dispersas pelas montanhas entre o valo de Cereceda e o de Pesaguero. Não é conhecido um caso parecido na Espanha. O Direito Canônico exige que, para que um sacerdote possa trinar – celebrar três missas em um só domingo –, ele precisa de uma dispensa especial de seu bispo. A norma não mudou, apesar da crise, mas Muela tem um dilema moral: resignar-se e cumprir, ou multiplicar-se acima de suas forças para que os fiéis se sintam atendidos. Antes se dizia: "Vives melhor do que um padre com duas paróquias". O padre Muela corrige com acréscimo a maledicência. "Se você tirar a missa de domingo de um povoado, ele morre. A missa é um estímulo religioso, mas também humano. Sem missa, não existe comunidade eclesial", defende.
Essa também é a opinião de Manuel Gutiérrez. "Os vizinhos estão isolados, e a missa é seu único ato social. Chego em cada paróquia meia hora antes da missa e conversamos, dou-lhes notícia dos outros povoados, trocamos opiniões". Como presume Muela, muito poucos vizinhos faltam à missa quando ela ocorre. "Até os cachorros do povoado vêm para acompanhá-los", brinca.
Das 72 paróquias de Liébana, 15 têm missa todos os domingos, outras tantas, aos sábados, e o resto, quando é a festa do padroeiro, quando há um enterro ou uma celebração especial. O tempo corre em sentido contrário. Se governar é povoar, o fracasso das autoridades de Cantábria em suas zonas rurais é estrepitoso. A cada ano, nascem nesta comarca 20 crianças, e morrem 100 pessoas, aproximadamente. "Aqui, os que mandam se preocupam mais com os lobos e os ursos do que com as pessoas. Se dou um tiro em um animal que entrou nas minhas propriedades para comer o meu gado ou minhas colheitas, não pago a multa nem vendendo todas as minhas vacas", queixa-se um criador de gado.
A situação não é muito pior nas comarcas mais povoadas. Em 1966, a diocese de Santander tinha 460 sacerdotes. Hoje, chegam apenas à metade, somando os aposentados. Também havia 430 seminaristas. Hoje, são 11, bem contados.
A situação é "urgente, mas ficaram para trás as manifestações mais agudas da chamada crise do sacerdócio dos anos posteriores ao Concílio Vaticano II", disse o cardeal Rouco aos bispos. O prelado atribuiu a crise "aos problemas doutrinais e existenciais derivados de interpretações do Concílio que se situavam em clara ruptura com a tradição da Igreja". Já "perderam virulência", acrescentou.
Sacerdotes casados: uma solução?
A orfandade das paróquias sem sacerdote – dos rebanhos sem pastor – suscita o debate mais inflamado no seio do cristianismo romano desde o início dos tempos: o celibato opcional e os padres casados. Muitas paróquias estão atendidas por sacerdotes vindos de outros países, principalmente do Leste Europeu. Na Itália, já somam 4% do total. Na Espanha, contam-se com centenas atendendo paróquias na Catalunha, em Levante e em Andaluzia. Em sua maioria, são casados e vêm com suas esposas e filhos. Se fossem espanhóis, não poderiam exercer, mesmo que o bispado de Tenerife, em 2005, ordenou sacerdote um pastor anglicano convertido, com mulher e filhos, e o Papa Bento XVI acaba de negociar com a hierarquia dessa Igreja a recepção de mais centenas de sacramentados nessa situação.
Não é certo que o remédio para fomentar vocações sacerdotais seja o de permitir que os padres se casem. Mas é uma reivindicação clamorosa, inclusive na boca de muitos altos prelados, como o cardeal emérito de Milão, o jesuíta Carlo Maria Martini. Os últimos papas se negaram a discuti-la. Não queriam nem ouvir falar do assunto.
Outra solução é o sacerdócio de mulheres, imensa maioria na Igreja romana. Margarita Pintos, da Associação de Teólogos João XXIII, tem um estudo sobre a questão, com o título "A presença das mulheres na Igreja Católica espanhola". Ela defende que, enquanto a mulher for excluída dos ministérios ordenados (diaconado, presbiterado, episcopado),a Igreja romana não poderá espantar a acusação de negar direitos fundamentais à mais da metade de seus fiéis.
Personalidades tão relevantes como o padre Ángel García, o carismático fundador dos Mensageiros da Paz, defendem que esse Papa poderia dar esse passo. "Tenho a firme esperança de que, se Deus lhe der vida, esse Papa porá em funcionamento o sacerdócio feminino", afirma. Ele apostou um café com seu biógrafo, Jesús Bastante, de que isso irá ocorrer "dentro de cinco anos".
O padre Ángel não é tão otimista sobre o celibato opcional. Nem José Catalán Deus, que acaba de publicar uma meticulosa análise do atual pontificado com o título "Después de Ratzinger, ¿qué?". Ele enumera em 57 mil sacerdotes casados e afastados do ministério. Cerca de seis mil são espanhóis. "Mesmo que os bispos estejam conscientes da falta de sacerdotes, eles acreditam que a solução não é abolir o celibato, nem sequer recorrer aos chamados `viri probati`, homens casados de fé e virtudes provadas aos quais é concedida a ordenação", defende.
Padres operários
Outra frente em que os bispos podem recuperar pastores para seus fiéis é o dos padres operários, algumas centenas na Espanha. O Santo Ofício da Inquisição condenou há 50 anos a experiência desses padres operários, iniciada em 1944 pelo dominicano Jacques Loew como descarregador nos moles de Marseille (França). Roma pensou então, pela boca de Pio XII, que a Igreja Católica, ao aceitar esse caminho, envolvia-se "na funesta luta de classes". João XXIII e o Vaticano II levantaram o veto em 1962 e deu asas ao movimento em grande parte da Europa.
Na Espanha, as coisas não foram fáceis. Muitos padres operários se converteram em famosos sindicalistas ou políticos, como Mariano Gamo ou Paco García Salvé, em meio a um grande inquietação dos bispos da época, em sua grande maioria franquistas, e com grande enfado das autoridades da ditadura. Chegaram inclusive a abrir, de comum acordo, uma prisão em Zamora só para padres.
Praticamente desaparecidos do mapa eclesial, a Igreja Católica deve aos padres operários dois grandes favores: a superação do tradicional anticlericalismo da esquerda e o fato de ter saído viva de sua estreita implicação com a ditadura de Franco, que os bispos contribuíram para instalar apoiando com entusiasmo o golpe militar de 1936. Foi graças aos padres operários que a hierarquia, acostumada a se apoiar em ditadores para afirmar privilégios e poderes fáticos, deu a aparência de estar inimizada com aquele brutal regime.
"Foi o fenômeno mais importante da Igreja Católica do século XX", afirma Julio Pérez Pinillos, um padre operário e casado. Ele acaba de publicar um relatório com o título "Curas obreros" [Padres operários] (Ed. Herder), com testemunhos de muitos deles, dentre outros o do padre vermelho por antonomásia, Mariano Gamo. Depois de atuar como capelão da Frente de Juventudes, Gamo renunciou a uma brilhante carreira eclesiástica para ir viver em uma periferia de Madri. Antes dele, os jesuítas José María Llanos e José María Diaz-Alegría haviam feito o mesmo.
Em algumas dioceses, esses sacerdotes são proibidos ainda de compaginar o ministério paroquial com o trabalho em uma fábrica. Mas não na universidade, por exemplo, ou em campos de Ensino Médio ou na saúde. "Dá-se por admitido que os padres podem estar nas cátedras, mas não nas fábricas. O que é lamentável é que, por um ou outro motivo, está se traindo o mandato do Concílio Vaticano II, que colocou a eucaristia como a fonte e o cume da comunidade cristã", lamenta o padre Pinillos.
O labirinto do sexo e o caos do celibato
Alegria, esperança, inclusive uma certa sensação de regozijo, convencidos de que o tempo e o Vaticano iriam lhes dando a razão. Essas foram algumas das sensações com as quais os padres católicos casados que existem na Espanha, mais de cinco mil segundo o Movimento pelo Celibato Opcional (Moceop), receberam em 2005 a notícia de que o bispo de Tenerife havia ordenado um homem casado e com duas filhas. Apesar de o novo sacerdote, o pastor anglicano Evans D. Gliwitzki, ter dito mais tarde que "passarão 100 anos antes que se admita o matrimônio sacerdotal", os padres casados defendem que essa ordenação em uma diocese espanhola lhes reabilita "como padres católicos casados e, principalmente, reabilita o Evangelho".
Foi a Conferência Episcopal que convidou Gliwitzki para vir se ordenar em Tenerife depois que seu caso fosse estudado e autorizado pela Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo então cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI.
Seu gozo em um poço. Apesar da afirmação do cardeal Martini, um dos grandes eclesiásticos contemporâneos – "a Igreja deve ter o valor de se reformar" – os últimos Papas estão fechados para a ordenação de homens casados ou de mulheres. Os padres lebaniegos Muela e Manuel Gutiérrez acreditam que esse é o único caminho para mitigar seu heroico trabalho diário.
O sexo é um assunto que desata as iras nos Papas desde que são solteiros. Giancarlo Zizola, historiador da Igreja moderna, ilustra isso em seu livro "A outra face de Wojtyla". Um de seus protagonistas é o já falecido cardeal de Sevilha e ex-presidente da Conferência Episcopal Espanhola, José María Bueno Monreal, um grande colaborador do cardeal Tarancón.
Em uma manhã de 1980, no Sínodo sobre a família, o Papa havia perdido a paciência enquanto falava com os cardeais alemães: "Muitos falam em repropor a lei do celibato eclesiástico. É preciso fazer com que se calem de uma vez!", disse-lhes. Na mesma época, o cardeal espanhol Bueno Monreal havia ousado dizer ao Papa durante uma audiência: "Santidade, minha consciência de bispo me impõe que lhe torne presente o fato de que existem problemas como o do celibato, da escassez de clero e da grande quantidade de sacerdotes que continuam esperando a dispensa de Roma". "E minha consciência de Papa me impõe que eu mande sua eminência embora de meu escritório", foi a resposta de Wojtyla. O bondoso cardeal sofreu um infarto dias mais tarde e deixou o cargo.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/noticias-arquivadas/27960-solucao-padres-casados-ou-mulheres-ordenadas

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