sexta-feira, 22 de agosto de 2014

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Sobre a TdL
FONTE: Adital
Por André Canobel
 
Prezados, gostaria de compartilhar sobre meu sentimento quando leio que a Teologia da Libertação está morrendo.
 
Cresci em uma família Católica, participávamos assiduamente da Igreja, vamos assiduamente a nossa comunidade, nos mais diversos trabalhos.
 
Fui coroinha dos meus 8 anos de idade, aos meus 14 anos. E quando um novo pároco chegou à nossa comunidade e quis que nós já mais velhos déssemos espaço aos mais jovens ficamos muito chateados, porém continuamos a ajudar na comunidade.
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Auxiliei na preparação dos jovens para o sacramento da Crisma e então senti o chamado a ir mais além. Participei dos encontros vocacionais de minha diocese e entrei para o seminário. Mesmo já encontrando resistência do então pároco de minha comunidade, pois eu não havia comunicado ele, havia conversado direto com o reitor do seminário.
Infelizmente me decepcionei com muitas coisas. As pessoas me magoaram muito dentro da Igreja, a Igreja que eu conhecia, que eu participava, que eu ajudava não era a Igreja que eu estava conhecendo de perto.
No seminário tive dois professores, os quais eram declaradamente seguidores e vivenciavam a Teologia da Libertação. Através deles conheci Frei Betto, Leonardo Boff, Pedro Casaldáliga, dentre tantos e tantos outros. Ouvi relatos de um Frei, chamado por Frei Sigrist, Capuchinho, que viveu em Piracicaba, dedicou sua vida aos pobres, viveu junto à eles na favela. Tudo que levavam para ele, ele distribuía aos pobres. Me encantei pela Teologia da Libertação.
Levar o Cristo aos pobres, levar a consciência política. Despertá-los à viver em comunidade, serem a Igreja, porém despertá-los a lutar pelos seus direitos, sendo que ninguém era por eles, e ninguém é até hoje. Claro que a Teologia da Libertação é muito além disso, porém não é esse o assunto que quero focar.
Conhecer essa Teologia, que se aproximava ao máximo do ideal verdadeiro do Cristo, que se aproximava muito do ideal do Pobre de Assis, o qual eu tanto admiro me fez mergulhar em uma espiritualidade muito profunda. Sentia que era realmente minha vocação, levar essa profecia adiante.
Porém, como mencionei anteriormente, me decepcionei muito. Deixei o seminário. Tive uma crise profunda de fé. Deixei de colaborar com a comunidade. Da sacristia, dos bancos no presbitério, passei a sentar no último banco, quando não ficava em pé no fundo da igreja. Vivi uma crise profunda de fé.
Com a chegada de um novo pároco, tentei voltar a participar, colaborar. Sem sucesso. Abandonei definitivamente a igreja. Não colaboro mais.
Tentei abandonar minha fé também, abandonar Deus de uma vez por todas. Abandonar tudo o que eu acreditava.
E se eu não consegui, se hoje resta em mim um pouco de fé, se hoje resta em mim ainda um pouco de Deus, mesmo que às vezes por teimosia queira esconde-lo e silenciá-lo no canto mais escuro do meu coração, se hoje resta em mim um pouco de utopia, se hoje ainda sonho com justiça, com liberdade, com fraternidade, com igualdade é graças à Teologia da Libertação.
A sabedoria de Frei Betto, Leonardo Boff, Pedro Casaldáliga, Dom Fernando Penteado, Dom Paulo Evaristo Arns, além do testemunho de uma freira, amiga pessoal, missionária na África que tem amor e fala com amor sobre levar Cristo aos pobres, aos mais necessitados, aos marginalizados, aos oprimidos, é o que ainda mantém a lenha da fogueira da fé, que um dia queimou em fortes chamas, com alguns vestígios de brasa.
Portanto, quando alguém diz que a Teologia da Libertação morreu, ou acabou isso me entristece profundamente, pois eu sei que não acabou.
Ela ainda está viva em mim e certamente em tantos outros.
"Nossos filhos devem possuir as mesmas coisas que as outras crianças, mas eles devem também ser privados daquilo que falta às outras crianças". (Che Guevara)
*Técnico de suporte, de Capivari, Interior do Estado de São Paulo.
** O artigo foi motivado pela entrevista dada por Clodovis Boff publicada na Adital.

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