segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Teologia e Igreja: quando as mulheres escrevem ao papa




IHU - Unisinos


Adital
Por Carlo Molari
A contribuição que as mulheres estão dando para a reflexão teológica em âmbito católico se torna cada vez mais relevante na Itália. Sinal particular disso foi o Congresso Teológico Internacional organizado em Roma pela Coordenação de Teólogas Italianas no 50º aniversário do início do Concílio Vaticano II, de 4 a 6 de outubro de 2012 sobre o tema "Teólogas releem o Vaticano II: assumir uma história, preparar o futuro".
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Participaram dele 225 teólogas de 23 países diferentes. Agora foram publicados os anais pelas edições Paoline (Avendo qualcosa da dire, Milão, 2014, organizado por Marinella Perroni e Hervé Legrand, com a contribuição de várias teólogas, incluindo Cettina Melitello, que examinou La teologia delle donne: quale incidenza ecclesiale? [A teologia das mulheres: qual incidência eclesial?, p. 48-60).
Nesses dias, foram publicados outros livros de teólogas italianas sobre os quais será preciso falar pela riqueza e profundidade que os caracterizam, como Le ribelli di Dio. Donne e Bibbia tra mito e storia [As rebeldes de Deus. Mulheres e Bíblia, entre mito e história], de Adriana Valerio (Feltrinelli, 2014); e os dois livros de Benedetta Selene Zorzi: Antropologia e teologia spirituale. Per una teologia dell'io [Antropologia e teologia espiritual. Por uma teologia do eu] (Ed. San Paolo, Cinisello Balsamo, 2014); Al di là del gênio femminile. Donne e genere nella storia della teologia cristiana [Além do gênio feminino. Mulheres e gênero na história da teologia cristã] (Ed. Carocci, Roma, 2014).
Porém, o impulso à reflexão que eu pretendo propor, vem de uma iniciativa menor, mas rica em significado. É uma expressão do entusiasmo despertado pelos gestos e pelas palavras do Papa Francisco, que estimularam esperanças de renovações e abriram um fluxo de pedidos na Igreja.
O livro Caro Francesco. Venticinque donne scrivono al Papa [Caro Francisco. Vinte e cinco mulheres escrevem ao papa] (Ed. Il Pozzo di Giacobbe, Trapani, 2014) reúne 25 cartas redigidas em estilo confidencial por 25 mulheres. Os temas são resumidos em uma única palavra que, em ordem alfabética, desenvolvem reflexões muito variadas de A, de ambiente, a V, de vida religiosa.
A única intervenção masculina é a introdução pedida ao bispo emérito de Caserta, Raffaele Nogaro, pela sua sensibilidade social e pelo apoio oferecido a escolhas pastorais inovadoras feitas em Caserta pelas religiosas ursulinas, que parecem estar na origem da iniciativa.
A variedade de pertencimento e de profissão reúne as escritoras na busca de novas formas de solidariedade e de justiça. A grande diversidade de formação e de origem evidencia as modalidades diversas com que a feminilidade pode ser vivida em formas convergentes.
Há também o eco da escolha dolorosa de 17 religiosas que foram expulsas da sua congregação em 2010 e que continuam vivendo "no exílio e com toda a sua relativa precariedade, graças a um reforçado vínculo fraterno e com a ajuda do Alto e do Baixo, a dinâmica fidelidade da 'primeira hora'... Com todo o 'vivo' de dor e de alegria que isso comporta" (Maria Stella Fabbri, Vita religiosa, p. 150).
O termo que retorna muitas vezes nessas páginas é "medo", "medo das mulheres". Daniela Esposito, no vocábulo "Libertação", lamenta que, no documento preparatório do Sínodo sobre a família, haja um total silêncio sobre a "violência de gênero, seja física, sexual, econômica (...) dentro da família. Essa escandalosa cegueira (...) preocupa porque o massacre de mulheres, minuto a minuto, é testemunhado pelas estatísticas e só reforça a ideia de que o 'escondimento' do feminino deriva do medo que o homem tem dele. Acredito que foi esse medo, constitutivo do masculino, que, com o tempo, se tornou responsável, não conscientemente, de todas as coisas. É necessário e prioritário, portanto, libertar o mundo e a Igreja do medo das mulheres" (Liberazione, ibid., p. 74).
A pergunta dirigida ao papa é clara: "Você não acredita que chegou a hora de a Igreja abrir os braços para as mulheres em um gesto de amor, que, finalmente, se liberte do medo e seja testemunha na escola de Jesus?" (ibid., p. 75).
Por isso, outras pedem que "o clero também [seja] formado e educado. Os seminaristas terão medo da mulher se virem nela uma possível Eva tentadora, que corre o risco de afastá-los do seu caminho de celibato; se a sexualidade é libertada de opressões legalistas, pode-se ajudar os aspirantes ao presbiterado a apreciar a alteridade e a diversidade da mulher como valor a se reconhecer e a se acolher...".
"Caro Papa Francisco, a Igreja não deve ter medo das mulheres; ajude-a nesse caminho, continuando nas suas decisões corajosas e, acima de tudo, dando confiança às mulheres" (Donna, Adriana Valerio, ibid., p. 44). É precisamente o medo que leva à exclusão ou à marginalização.
Além disso, quando a mulher é prófuga ou abandonada, torna-se uma pessoa da qual se deve ter medo, que se deve temer (p. 122). As páginas dedicadas ao tráfico de mulheres para a prostituição expressam muito bem a paixão e o entusiasmo com que algumas religiosas "tentaram dar respostas concretas às muitíssimas mulheres vítimas de tráfico de seres humanos, especialmente para exploração sexual" (Eugenia Bonetti, Schiavitù, p. 129).
O dado que emerge mais frequentemente das cartas é o lamento pela falta de poder dentro da Igreja. Isto é, o fato de que as decisões relativas às mulheres são tomadas por homens, e as mulheres não têm nenhuma possibilidade de decisão.
Com uma fórmula incisiva, eco de uma citação de Sartre (A náusea, 1938), Anna Carfora retoma "o paradoxo de uma religião como coisa de mulher gerida por homens padres" (Clero, p. 27).
Essa fórmula é ainda mais significativa porque foi escrita por uma educadora de futuros padres como professora de História da Igreja na Faculdade Teológica da Itália Meridional, seção de S. Luigi, de Nápoles.
Carfora retoma particularmente a denúncia da "insidiosa e sutil tentação da carreira". "Ainda resiste, de fato, o binômio clero-poder. O clero confiou a si mesmo a gestão e a responsabilidade da doutrina e da ortodoxia, da liturgia e da organização eclesiástica, do direito e do governo" (p. 27).
O papa falou de "autoridade das mulheres na Igreja: uma autoridade, portanto, que não passa pelo ser padre". Ela se pergunta se foi entendido até o fim "o porte dessa afirmação, o golpe decisivo no coração do clericalismo que isso implica" (Clero, p. 27).
Um agradecimento espontâneo ao Papa Francisco pelo caminho empreendido: o caminho da inclusividade, "capacidade de entrar em relação simplesmente de seres humanos com outros seres humanos", e a "superação do medo de se desfazer como o fermento na massa. O fermento desaparece, não é reconhecido, mas a massa se torna, graças ao fermento, melhor" (p. 28).
As mulheres pedem para ser ouvidas, pedindo que sejam criados na Igreja "espaços para uma presença não decorativa e consultiva, mas falante e decisional em todos os organismos em que se implementa o protagonismo fiel do povo de Deus" (Adriana Valerio, Donna, p. 43 ).
"Os tradicionais modelos eclesiológicos, portanto, deveriam ser revistos segundo os princípios da comunhão e da corresponsabilidade apostólica" (ibid., p. 43).
Marinella Perrone, partindo da homilia do Papa Francisco do dia 13 de dezembro passado, retomou a contraposição entre clericalismo e profecia. O profeta tem "os olhos penetrantes" (Profezia, p. 116), mas não se trata "de um dom, mas de uma habilidade que se adquire graças à escuta da Palavra de Deus. Não uma qualidade reservada a alguns, mas vocação de todos os batizados, a profecia nasce da disciplina da escuta" (p. 116).
"É a Igreja no seu conjunto que deve reencontrar a força profética: cada fiel deve ser chamado ao seu compromisso de testemunha, cada teólogo deve reencontrar a coragem de pensar a fé e de pronunciar palavras de encorajamento e de estímulo, cada bispo deve assumir a responsabilidade de construir e de guardar a comunhão do povo de Deus" (p. 117).
É significativa a verificação sugerida pelo papa na sua homilia: "Quando no povo de Deus não há profecia, o vazio que deixa é ocupado pelo clericalismo" (citado na p. 118.). Perrone comenta: "O clericalismo, isto é, aquela mistura letal entre sagrado e poder, tornou-se uma verdadeira praga. El distorce a mentalidade, aflige os comportamentos (...) É duro, mas é assim, e todos vimos isso nesses anos: o clericalismo cresceu de modo proporcional ao decrescimento da profecia. Por aí, e só por aí, passa a verdadeira reforma da Igreja" (ibid., p. 118).
Citando ainda o papa, segundo o qual "quem caiu na mundanidade (…) olha do alto e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem lhe faz perguntas, faz ressaltar continuamente os erros dos outros e é obcecada pela aparência" (Evangeli gaudium 97), Marinella Perrone observa que, "na Europa, houve dois sínodos ecumênicos das mulheres (...) Mas tudo isso (...) é olhado de cima por aqueles que sentem deter as chaves da legalidade. Olhar para esta nossa Igreja com 'olho penetrante' significa, então, para mim, hoje, acreditar que finalmente é possível que se dê atenção, além da profecia dos irmãos, também à profecia das irmãs".
É essa esperança que ela, em nome de todas as mulheres, confia ao Papa "com grande gratidão" (ibid., p. 119).
[Carlo Molari é sacerdote e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Rocca, 15-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.]
FONTE: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81771

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