segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O segredo do poder do capitalismo e a evangelização (Parte final).

O segredo do poder do capitalismo e a evangelização (Parte final).


Jung Mo Sung


Adital

Nesta série de artigos sobre o segredo do poder do capitalismo, eu procurei mostrar que o poder fundamental do sistema capitalista global não reside na sua força política ou militar, nem no seu poder econômico, mas no seu poder "espiritual”; na sua capacidade de cooptar os desejos mais profundos dos seres humanos e direcioná-los para a obsessão pelo consumo e de controlar o modo de pensar da sociedade de tal forma que o sistema de mercado livre é visto como o único caminho (no artigo anterior).
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Com isso não estou dizendo que os poderes econômico, político e militar não sejam importantes; mas ressaltar que o sistema dominante só precisa usar poderes "brutos” quando há contestação ou rebelião, quando as pessoas deixam de desejar e de pensar de acordo com a lógica do sistema. O verdadeiro poder de um sistema se revela na sua capacidade de se mostrar "natural” ou "sagrado”, de fazer as pessoas lutarem pela sua liberdade ou seus desejos dentro dos marcos do sistema. Isto é o que alguns autores chamam de "colonização da subjetividade”.

Na atual disputa eleitoral, as propostas e argumentos dos três principais candidatos estão dentro do parâmetro do sistema capitalista. É claro que há diferenças entre eles no que tange às prioridades do governo, sobre o peso e o real valor dos programas econômicos e sociais visando a superação do "dualismo social” que ainda marca o Brasil, e tipos de aliança que se estabelece com setores políticos e econômicos do país. Por ex., é melhor um governo que se alia ao setor industrial nacionalista visando o aumento do mercado consumidor interno (com a incorporação de mais consumidores ao mercado tirando pessoas da pobreza) do que aquele que se alia ao setor financeiro nacional/internacional. Contudo, devemos reconhecer que essas disputas estão se dando dentro dos limites aceitáveis ao sistema.

Nos debates entre candidatos/as à presidência na TV, a Luciana Genro é exemplo de uma candidatura que procura se posicionar fora desses limites; as suas críticas partem do ponto de vista de quem está ou procura estar fora da lógica do capitalismo. Mas, por mais interessante que sejam suas colocações, por mais "curtidas” na rede social que possa ter, a grande maioria não as leva a sério porque não conseguem entender (pela "colonização” do pensamento) e nem conseguem se identificar com os objetivos "pós-capitalista” ou socialistas subjacentes a essas propostas.

Em uma análise "fria” das propostas da candidata do PSOL, poderíamos dizer que no momento não há condições objetivas para essa ruptura com o capitalismo. Tenho quase certeza que a própria candidata e o seu partido também pensa assim. Mas, as grandes lutas sociais e políticas não podem ser restritas a batalha e objetivos de curto prazo. Há lutas e objetivos socialmente mais justos que são possíveis dentro das atuais condições históricas, outras não. Exatamente por isso, é preciso também planejar e executar lutas que visam objetivos de longo prazo; que também podem ajudar nos objetivos de curto prazo, mas sua finalidade é pensada a longo prazo.

Um exemplo disso é a luta por derrotar o "espírito do capitalismo” que Weber tão bem detectou como um elemento fundamental na origem e consolidação do capitalismo. A gestação e a consolidação desse espírito – que inverteu o sentido da vida, de "trabalhar para viver” para "viver para ganhar dinheiro”; de "economia a serviço da vida do povo” para "a humanidade a serviço da economia” – levou alguns séculos. Nessa luta espiritual, o "modelo de ser humano” assumido pela sociedade e por pessoas concretas tem um papel fundamental. Nós desejamos ser como o modelo de ser humano que assumimos, por isso imitamos os seus desejos, desejamos o que ele(s) deseja. Pensamos que desejamos o nosso desejo, mas na verdade desejamos o que o(s) nosso(s) modelo(s) deseja(m). (Um autor de referência para essa questão é René Girard.)

Por isso, uma das chaves do poder espiritual do sistema dominante é sua capacidade de impor modelos de ser humano, modelos de desejo. Essa é a razão porque empresas, para aumentar suas vendas, pagam tanto para os "ídolos” mostrarem que desejam certos produtos ou marcas. Resistir e lutar contra essa "colonização da subjetividade” pressupõe assumir e oferecer à sociedade modelos alternativos de ser humano. Mudança de modelo de ser humano que implica em romper com a cultura dominante é o que a religião chama de conversão.

Aqui encontramos o "nó” que une a missão de evangelização das igrejas cristãs – de propor conversão das pessoas a Jesus Cristo – com a luta espiritual de "longo alcance” contra o capitalismo. É preciso des-inverter o sentido fundamental da vida: a economia deve estar a serviço da vida humana porque o sentido último da vida não está na acumulação de riqueza ou na competição para ver quem consome mais as últimas novidades tecnológicas, mas na humanização que se dá nas relações de solidariedade e vida comunitária.

Não basta apresentar essa "teoria” para que as pessoas imersas na cultura capitalista mudem o seu desejo. Para que haja essa mudança é preciso que elas vivam a liberdade de abandonar o modelo do sistema, que coloniza a sua subjetividade, e assumam o novo modelo de ser humano. E a verdadeira evangelização não consiste em apresentar doutrinas, mas apresentar um novo modelo de ser humano que deseja e pensa de modo diferente, o Jesus de Nazaré, e caminhar juntos neste novo Caminho.

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