sexta-feira, 7 de novembro de 2014

COMO VIVER COM A VIDA-MORTE?

Sou consciente de que serei apenas mais um na imensa fila dos que já manifestaram seus pensamentos acerca do tema vida-morte.  Mesmo assim, desejo confiar algumas palavras ao (à) fiel leitor(a) destas minhas reflexões semanais. Faço da música - mestra que nos ensina tanto sobre a vida-morte -, minha fonte de inspiração.

            Através dos séculos e das diversas culturas, a bela arte da música, “gerada na alma da mulher, criada no espírito do homem” – como dizia o poeta -, tem-nos feito herdeiros de infindáveis interpretações a respeito de tema tão instigante, que jamais deixará de mexer com o ser humano, pois este carrega dentro de si, desde sempre, a condição de vida-morte. Vida, porém, muito mais do que condição. Vida, entendida como tarefa, missão de criá-la, do jeito que nos ensina Dom Helder: “Decidir de fazer o Homem, este vermezinho da Terra – ela mesma, um grão de poeira - decidiu de fazer do Homem Criador, a teu lado. Decidir de fazer do Homem – miserável criatura – o dominador da Natureza, teu engenheiro e teu herdeiro”. Deus e o homem-mulher: co-criadores da vida. Quanta música canta a beleza desta criação, do amor, da liberdade, da paz, da vida.


Experimentamos, no entanto, ao mesmo momento, como somos chamados a conviver com a morte. Às vezes, morte em sua forma brutal, inexplicável e, humanamente falado, sem sentido, sem aceitação, pois provocada pelas múltiplas forças da anti-vida: é a morte triste, fim de vida, sem esperança, a morte da “dor demais”, a vida dura do povo do campo, como nos entoa o menestrel do Nordeste brasileiro, Luiz Gonzaga, em sua canção “A morte do Vaqueiro”. Sintamos a força entristecedora das palavras, o lamento musicado no aboiar da voz: “EI ... OI...tarde tristonha ...gado muge ... vaqueiro não vem mais aboiar... EI ... OI ... bom vaqueiro nordestino morre ... nunca mais ouvir seu cantar ...EI ... OI ... sacudido numa cova, desprezado do Senhor, só lembrado do cachorro ... é demais tanta dor a chorar com amor ... tengo, lengo, tengo, lengo, EI ... GADO... OI... EI... OI...!” Ou, ainda, aquela morte, causada pelas injustiças sociais, que perseguem, eternamente, os pobres, aquela morte, culpa de todos nós, morte esta, lamentada por Chico Buarque no “Funeral de um lavrador” ..... “Esta cova de palmos medida ... conta menor tiraste em vida ... bom tamanho, nem largo nem fundo ... parte que te cabe deste latifúndio ... cova grande pra teu pouco defunto ... mais ancho que estavas no mundo ... mais que no mundo te sentirás largo ... cova grande pra tua carne pouca ... a terra dada, não se abre a boca.”

                Dois exemplos do cotidiano da realidade da vida - ou da falta dela - de tanta gente por este mundo afora. Morte, em consequência das “pesadas estruturas sucumbes que esmagam aos milhões os filhos de Deus” e da “miséria, na qual temos a mais monstruosa guerra das guerras, porque ela engloba sub-habitação, sub-trabalho, sub-diversão, sub-saúde, sub-vida, opressão .... dominação! ... e leva a assaltos, roubos, assassinatos, ao ódio ... .” (Helder Camara).
             Podemos, porém, virar a página da nossa vida, a fim de dar vida à morte.
            Há uns tempos, descobri uma música que me comoveu. Ela abriu coração e mente quanto ao meu pensar em relação à morte. Eu tinha conhecimento de muitas músicas que falavam dos terrores da morte, e gostava delas, em razão de sua força de expressão. Elas, todas, falavam em ... “inferno, castigo, fogo eterno, Rei sentado no trono para nos julgar”, etc. .
            Mas cansei delas. Muito barulho. Confusão demais. Sem esperança. Só morte. Sem vida.
De repente descobri aquela música, uma outra música. Esta fala da morte numa visão de expectativa futura. É de um francês, de nome Gabriel Fauré. Vivia no século XIX. Compôs uma “Missa para Defuntos”, toda ela baseada em palavras “descanso ... paz eterna ... luz que brilhe sobre eles ... hino cantado ... promessa paga ... oração ... liberta as almas ... sacrifícios oferecidos com louvores ... piedoso senhor Jesus ... e, enfim ...Anjos que conduzem ao Paraíso ... Mártires que acolhem ... rumo à cidade santa de Jerusalém ... Coro dos Anjos que te recebe ...”.
Que alívio! Que leveza! Quanta esperança! Como um túmulo vazio! Como aquele “terceiro dia!” ... para todos nós. Morte, sim, mas como entrada numa nova “aurora, um canto, uma sinfonia!” (Dom Helder).
Creio poder desejar a todos uma feliz memória, cheia de gratidão, a todos que já passaram pela vida e pela morte ... rumo à vida.
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FONTE: Geraldo Frencken - MFPC - CEARÁ
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P.S. Com gratidão ao Dom Helder, de quem emprestei algumas palavras de sua “Sinfonia dos Dois Mundos”, interpretando-as de forma um pouco livre.

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