sábado, 31 de janeiro de 2015

REVISITANDO O CONCÍLIO VATICANO II - COM DOM ALOÍSIO LORSCHEIDER (I)



Entre 25 de janeiro e 15 de novembro de 2005, nós, “O GRUPO”, nos encontramos mensalmente, em Fortaleza, com Dom Aloísio Lorscheider (8 de outubro 1924- 23 de dezembro de 2007) em entrevistas, realizadas em dez sessões. A atuação dele nas (arqui)dioceses de Santo Ângelo, Fortaleza e Aparecida, na CNBB e no CELAM, o seu testemunho pessoal, a sua brilhante inteligência, a presença simples junto aos pobres, as posições claras e firmes perante às autoridades civis e militares, o inesgotável volume de trabalho (apesar da saúde frágil), as homilias e palestras inspiradas e inspiradoras, enfim, todas as qualidades de uma pessoa completa que era, levaram-nos à decisão de que não podíamos perder, nem para o presente e muito menos para o futuro, esse exemplo, esse testemunho de vida, dedicada integralmente à Igreja de Cristo.leia mais: 
             


Este trabalho resultou no livro MANTENHAM AS LÂMPADAS ACESAS. Revisitando o Caminho, recriando a Caminhada. Fortaleza: Editora da Universidade federal do Ceará, 2008, 214 pgs.
            Gostaria de apresentar, ao longo dos meses finais deste ano, algumas passagens desta rica entrevista, em razão dos 50 anos do Concílio Vaticano II, que acaba de estar ensaiando sua ressurreição através de palavras, atitudes e gestos do Papa Francisco. O próprio Dom Aloísio Lorscheider, sagrado bispos em 20 de maio de 1962, véspera da 1.ª Sessão do Concílio, e nomeado bispo de Santo Ângelo (RS), foi participante do Concílio.
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O GRUPO: A ideia-mestra do Concílio Ecumênico Vaticano II foi o aggiornamento, lançada pelo Papa João XXIII. Que balanço se faz, quatro décadas depois, desta grande intuição do Papa e das reformas práticas que os documentos conciliares provocaram para a vida da Igreja?

DOM ALOÍSIO: O discurso de abertura do Concílio do papa João XXIII impressionou muito. Ele disse: “Nós estamos aqui não para condenar, definir, ou repetir o que outros concílios já disseram, mas para expor a verdade da fé, hoje, que deve ser vivida pelo mundo, e por isso deve ser uma verdade adaptada”. Ele fez aquela distinção entre op depósito da fé em si e as expressões históricas. Nós bispos expressamos o conteúdo da fé católica, mas hoje precisamos adaptá-lo à compreensão das pessoas. Também é uma questão de linguagem. A intenção do aggiornamento era destacar algumas ideias que o mundo de então vivia e nas quais a Igreja podia ver algo positivo. O aggiornamento não significa só atualização, mas também é um conceito teológico: que dizer, no fundo, que eu devo fazer um esforço permanente de expressar aquilo em que eu creio de forma compreensível para hoje. Aparece aqui o fenômeno da enculturação que depois, na Conferência de Santo Domingo, ganhou mais força. O Papa Paulo VI insistia muito nesta enculturação. O discurso de João XXIII parecia um alívio, porque em todos os documentos que havíamos recebido da comissão preparatória ainda existia aquela velha e forte tendência de condenar todas as doutrinas modernas que pareciam contradizer as verdades católicas. Esta atitude condenatória tinha que ser abandonada. Por isso, praticamente todos os esquemas anteriormente preparados foram rejeitados, o que foi muito positivo. Começou-se a considerar mais positivamente o que o mundo de então pensava sobre aquilo que é bom, aquilo que pode desenvolver a pessoa humana, que a faz se sentir realmente responsável e participante da história dos homens. A estes valores nós, cristãos católicos, devemos acrescentar nossa visão de fé. Este foi o grande propósito. O Papa mesmo disse: “Este Concílio tem que ser eminentemente pastoral!”. Hoje estamos todos acostumados a enfatizar muito a pastoral, uma coisa nova. Começou-se a dar um caráter pastoral a toda reflexão teológica, utilizando-se de uma linguagem que fizesse as pessoas se sentir enriquecidas pela vivência da fé. {...}. A constituição conciliar Gaudium et Spes (Alegria e Esperança – sobre a Igreja no mundo) teve seu peso. Porém, ela é imperfeita. Deveria ser revista de forma que as possíveis atualizações não contrariassem o teor do próprio documento, já que se apresenta como expressão da Igreja naquele tempo – sua visão antropológica, sua compreensão do ser humano, que contrastava com a visão marxista, muito em evidência nos anos 60, quando começavam a surgir os tratados das chamadas teologias terrestres, por exemplo, a teologia do cosmo e a do relacionamento entre natureza humana e Graça. Essa mentalidade influiu bastante no concílio. Mais ou menos neste sentido o Papa João XXIII que este aggiornamento. Surgiam perguntas, como: “Quais são as legítimas aspirações do mundo de hoje?” Isto fez a Igreja começar a ser ver mais na função de servidora da humanidade, ou seja, a Igreja não é sociedade perfeita, mas antes servidora: “Eu vim para servir e não para ser servido”.

O GRUPO: Mas parece que a grande maioria do povo católico não compreendeu esta guinada, pois, hoje, o que predomina novamente é uma atitude eclesiástica de extrema reserva diante das realidades seculares.

DOM ALOÍSIO: Esta mudança eu também não sei explicar. Durante o Concílio houve uma grande alegria, embora houvesse também oposição, mas esta foi mínima. Os documentos foram aprovados de forma quase unânime. Havia uma referência restritiva: tudo devia ser feito dentro do Direito Canônico de 1917-1918, que era o nosso ‘catecismo’. O Papa João XXIII, contudo, já tinha escrito uma carta aos bispos do Brasil para que houvesse mais reflexão pastoral. Assim surgiu o “Plano de Emergência”. Tratava-se, já na época, de uma mudança fundamental. A partir dos anos 70, porém, acentuaram-se três tendências na sociedade que despertaram cautela em uns e novo fechamento ao mundo em outros: 1. O ‘Secularismo’: uma postura que nega o transcendente, valorizando apenas o iminente; 2. O ‘Relativismo Ético’, que nega a existência de valores universais: “o que valo hoje, não vale mais amanhã, o que valeu ontem, não vale mais hoje”; 3. O ‘Consumismo’: um modelo de vida que encontra sua suposta realização no consume desenfreado de bens materiais. Na época do Concílio, no entanto, ainda não dominavam estas tendências. Por isso digo que sempre devemos nos atualizar!

O GRUPO: Como as ideias do Concílio Vaticano II foram compreendidas pelo povo católico?

DOM ALOÍSIO: Em geral houve boa aceitação. Na verdade, dependia muito dos bispos. Eu, em Santo Ângelo, organizei um grupo, constituído por um padre, uma freira e um professor. A eles transmiti os principais conteúdos do Concílio e munidos desta forma, começaram a visitar todas as paróquias, onde houve melhor aceitação possível. O que deve crescer, no entanto, ainda é o envolvimento do laicato católico. O Papa (à época João Paulo II, red.) costuma convocar para o Sínodo alguns leigos dos movimentos. Não é bem isso que o Concílio tinha em mente, porque os movimentos são mais de caráter exclusivamente religioso. Mas o leigo deve ter sua própria condição dentro da Igreja. Não deveriam ser convidados leigos ‘maquiados’ e sim, leigos-leigos’.


Continua .....

(postado em 03 de outubro de 2013 por Geraldo Frencken)

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