sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Teoria do Big Bang: o casamento entre ciência e fé para explicar origem do mundo



reproducao Adital
Recentemente, o Papa Francisco fez declarações que reavivaram a polêmica em torno das discussões sobre a Teoria do Big Bang como possibilidade real para explicar a origem do universo. Em declaração à Academia de Ciências do Vaticano, o Papa disse que "quando lemos a respeito da Criação no Gênesis, corremos o risco de imaginar que Deus era um mágico, com varinha de condão capaz de tudo fazer. Mas isso não é assim”.Para o Sumo Pontífice, a criação não é obra do caos, mas deriva de um princípio supremo que cria por amor. "O Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige", disse. 

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A declaração trouxe à tona uma velha rixa entre os adeptos da explicação científica e os defensores da explicação divina e sobrenatural para o surgimento do mundo. Quem está com a razão? Em entrevista especial à Adital, a professora do curso de Ciência da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Lidice Meyer, que esteve recentemente no Vaticano, conversou sobre a postura da Igreja nos últimos tempos sobre o assunto e o que representa a declaração do Papa.
Qual seria o ponto realmente desafiador nessa discussão entre a fé da Igreja Romana e da teoria do Big Bang?
Não há novidades na declaração de Francisco. A Igreja Católica, há décadas, vem se mostrando aberta ao diálogo com a ciência. O próprio cientista que fotografou a imagem do Big Bang declarou que estava "olhando a face de Deus”. Logo, afirmar a possibilidade de se crer no Big Bang e na origem divina do Universo ao mesmo tempo não é uma contradição. A Igreja tem se mostrado aberta ao diálogo com a ciência, submetendo até mesmo seus mais valiosos tesouros, como o santo sudário ao exame de cientistas.
O que seria o "Evolucionismo Teísta" dentro dessa discussão?
O Evolucionismo Teísta afirma que Deus deu origem ao processo evolutivo criando os primeiros organismos vivos e direcionou o mesmo até o momento do surgimento dos seres humanos. Esta hipótese afirma que, em alguns momentos, a evolução poderia ter se dado aleatoriamente, como proposto por Darwin [Charles Darwin, criador da teoria da seleção natural na evolução das espécies].
Esta hipótese é defendida por alguns líderes cristãos, principalmente dentro do catolicismo, e se trata de uma tentativa de conciliar a ciência com a fé.

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A antropóloga Lidice Meyer afirma que a Igreja vem se mostrando aberta ao diálogo com a ciência.

Como você analisa a teoria do TDI (Teoria do Design Inteligente), segundo a qual uma Inteligência Suprema criou, diretamente, a complexidade da célula humana?
A hipótese do Design Inteligente surgiu nos Estados Unidos como uma resposta à proibição de se ensinar o criacionismo nas escolas por este não se tratar de uma questão científica. O Design Inteligente propõe a orientação e o controle total de Deus durante todas as fases do surgimento e organização da vida na Terra. Baseia-se na alta complexidade encontrada no mundo desde uma célula até o cosmos, o que sugeriria que todo o Universo tenha sido planejado de forma inteligente por um Criador. Por ser uma hipótese recente, utiliza em seus critérios pesquisas bioquímicas, genéticas e astrofísicas, podendo ser considerada uma hipótese científica.
O tema já foi abordado anteriormente por outros Papas em outros momentos históricos. Qual seria a importância e a diferença do Papa Francisco levantar essa questão no contexto atual?
A Igreja Católica através de diversos Papas tem admitido a possibilidade da teoria evolucionista, desde que o início do processo evolutivo tenha tido origem partindo de Deus. O Papa Pio XII, ao declarar, em 1950, na encíclica HumaniGeneris, que o processo de evolução poderia ser "uma abordagem válida do desenvolvimento humano”, levantou a hipótese de um desenvolvimento evolutivo controlado por Deus. Pio XII, porém, condenou o poligenismo, admitindo a origem da espécie humana a partir de um ancestral único (monogenismo).
Em 1996, João Paulo II também admitiu essa possibilidade e afirmou que a evolução era um fato cientificamente comprovado e não mais uma hipótese. E, em 2007, Bento XVI afirmou que o debate entre criacionismo e evolucionismo "é um absurdo”, destacando que a teoria da evolução pode perfeitamente coexistir com a fé.
Assim, as declarações de Francisco não são inéditas, porém, como o alcance de suas declarações tem sido muito maior do que o de seus antecessores, devido ao seu caráter mais acessível e popular, causaram uma reação maior perante os veículos da imprensa, em especial.
Para muitos, até hoje, a Igreja seria contrária ao desenvolvimento da ciência e mesmo à aproximação da ciência com a fé. A história da inquisição de Galileu Galilei ainda é mais conhecida do que as afirmações de Pio XII, João Paulo II e Bento XVI. Logo, a declaração de Francisco tem o valor de mostrar uma realidade já existente, mas desconhecida da maioria.

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A Igreja estaria adaptando-se às descobertas científicas em diversos campos.
Como você avalia a mudança de postura da Igreja nos últimos tempos, mais aberta ao diálogo com outros tipos de conhecimentos?
A Igreja tem se desenvolvido através dos tempos, mostrando que não é possível permanecer fechada em seus dogmas e tradições, mas adaptando-se às descobertas científicas em diversos campos. A arqueologia e a antropologia, por exemplo, têm trazido à tona questionamentos fortes a muitas tradições da igreja, que por sua vez tem sido revistas. Da mesma forma, tem acontecido com as descobertas trazidas pela genética, bioquímica, física e demais ciências. Essa postura de abertura ao diálogo revela uma faceta da Igreja Católica que é a sua tendência à reestruturação para evitar divisões.
Essa discussão também seria uma maneira da Igreja se aproximar de seus fiéis? É uma postura necessária?
Essa discussão faz parte de todo um processo de reaproximação da igreja dos fiéis afastados, principalmente do público mais jovem e mais crítico. Devido ao esvaziamento das igrejas na Europa, principalmente, esta é uma postura adequada e necessária.
Podemos esperar alguma transformação na relação entre a Igreja e a sociedade a partir da figura do Papa Francisco?
Sim. Essa transformação já vem ocorrendo desde o primeiro mês de seu papado. A Jornada Mundial da Juventude no Brasil foi uma grande mostra de como essa relação já se modificou.
Como está o diálogo do conhecimento religioso com o conhecimento científico dentro das Universidades?
O diálogo entre ciência e fé na comunidade acadêmica ainda é muito ruim. Embora alguns cientistas de renome defendam suas posturas religiosas abertamente, na grande maioria das universidades brasileiras, esse diálogo é tido como impossível. Os estudantes e professores que procuram estimular e defender a possibilidade de coexistência pacifica dos dois campos, fé e ciência, são, na maioria das vezes, ridicularizados, sofrendo, muitas vezes, perseguição ideológica.

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Diálogo entre fé e ciência precisa evoluir. Muitas vezes há perseguição ideológica.
 
Que outro ponto importante você destaca nesse debate?
Deixaria a frase de Bento XVI: "Ante a beleza do mundo, seu mistério, sua grandeza e racionalidade... só podemos nos deixar ser guiados em direção a Deus, criador do céu e da terra". Não há como estudar a vida na terra sem se admirar com sua perfeição e complexidade, e sem intuir a existência de um Criador.
*Lidice Meyer é professora do curso de Ciência da Religião do Mackenzie, possui Pós-Doutorado em Antropologia e História pela Universidade de São Paulo (2014) e doutorado em Ciências Sociais (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (2005). Tem experiência nas áreas: antropologia cultural, antropologia da religião, antropologia bíblica, antropologia para a psicologia, antropologia da nutrição, ética e cidadania, ciências da religião, magia e religião.
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FONTE: Teoria do Big Bang: o casamento entre ciência e fé para explicar origem do mundo

Cristina Fontenele

Estudante de Jornalismo pela Faculdades Cearenses (FAC), publicitária e Especialista em Gestão de Marketing.
E-mail
cristina@adital.com.br
crisfonte@hotmail.com

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