terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A AUTORIDADE DE JESUS


Adital


Os relatos evangélicos são enfáticos ao acentuar a autoridade de Jesus no confronto com os mestres contemporâneos, particularmente as autoridades responsáveis pela religião da Palestina na época (saduceus, escribas e fariseus). "Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os doutores da Lei” – insistem os textos (Mc 1, 22). Desnecessário este conceito de autoridade nada tem a ver com autoritarismo, menos ainda com poder ou domínio. Como então explicar semelhante superioridade que o povo identificava no novo Mestre? Entre os fatores possíveis, coloquemos em cena três aspectos de fundamental relevância.
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A coerência
Antes de qualquer coisa, vem a coerência entre o que o Mestre diz, ensina, e o que Ele faz. Bastaria um olhar sobre o comportamento de cada um de nós para constatar que, em todos os seres humanos, persiste sempre uma distância considerável entre o falar e o agir. Costumamos ser excessivamente pródigos quanto primeiro e mesquinhos quanto ao segundo. Semelhante distância, em casos extremos, pode alcançar um grau elevado de verdadeira dicotomia, ruptura com a realidade, desencadeando um estado patológico de esquisofrenia. De maneira geral, porém, tal discrepância se matém em níveis aceitáveis, variando, entre outros motivos, de acordo com a posição que a pessoa ocupa na extratificação social, com a função que nela desenvolve, com a própria personalidade e com uma série de circunstâncias conjunturais. Quem sabe o segredo da santidade não esteja justamente no empenho para diminuir ao máximo essa distância!
O fato é que em Jesus "o verbo se faz carne” (Jo 1, 14) não somente a partir de um ponto de vista teológico. Também em termos práticos, morais e concretos, no seu Ministério Público a palavra se faz ação. O que Ele diz corresponde ao que faz, e viceversa. Não seria exagero afirmar que semelhante correspondência entre o discurso e a ação transparece em sua serenidade profunda, quer nos momentos de convivência e alegria a serem partilhados, quer diante das adversidades e polêmicas a serem enfrentadas, e mesmo diante dda morte. Como Ele mesmo acena, sua atitude é como a de uma criança que, ao contrário dos adultos experimentados na arte de dissimular, reproduz no olhar e no rosto o que lhe vai pelo coração e pela alma. Daí que a elas (as crianças) o Pai revela coisas que esconde aos "sábios e cultos” (Lc 10, 21) e, além disso, garante Jesus, "quem não se converter e se tornar como criança, não entrará no Reino do Céu” (Mt 18, 2-5).
Quanta sabedoria, quanta paz e quanta força esconde essa coerência e autencidade, em especial na sociedade contemporânea, destituída de referências sólidas, e onde a palavra dada, assinada e até mesmo registrada em cartório, pode ser rompida a qualquer momento, sob qualquer pretexto e sem qualquer escrúpulo!
O sumo sacerdote
Pelas aldeias, povoados e caminhos da Galileia, no contato vivo com os pequenos e doentes, pobres e excluídos, pecadoes e marginalizados, Jesus reflete o rosto resplandecente do Deus oculto e silencioso; no deserto, retirado num lugar à parte ou na montanha, em seus momentos de oração, meditação e contemplação, leva impresso em si mesmo e oferece ao Pai o rosto desfigurados de tantos sofredores, tentando buscar-lhes o conforto do alto. Faz uma verdadeira ponte reveladora e intercessora entre a bondade misericordiosa de Deus, por um lado, e, por outro, a ânsia de alívio, saúde e liberdade diante da dor e do sofrimento humano. Nessa intermediação permanente, procurando entrelaçar o divino e o humano, reside justamente a missão real, profética e sacerdotal de todo o batizado, como lemos na liturgia deste sacramento.
No caso de Jesus – de acordo com a teologia do Quarto Evangelho, no prólogo (capítulo 1) e na oração sacerdotal (capítulo 17), de acordo com a elqaborada argumentação da Carta aos Hebreus e de acordo com o hino da Carta de Paulo aos Filipenses (2, 6-11) – Deus desce e se faz homem para que o homem possa superar sua condição humana de pecador, faz-se pobre para enriquecer-nos, torna-se "servo-escravo-obediente” para nos libertar. O sumo sacerdote, fazendo de sua mensagem, de sua vida e de sua obra uma ponte entre o céu e a terra, promove um encontro inaudito entre o divino-humano e o humano-divino. Sendo a revelação do amor infinito de Deus, Jesus é igualmente a revelação do homem em suas potencialidades mais elevadas e profundas. Esgotou em si mesmo todas as possibilidades ocultas no amor humano, tornando-se por isso mesmo "caminho, verdade e vida”. Nele toda pessoa pode espelhar-se para endireitar o rumo de seus passos.
Como estamos longe de um sacerdócio real que, pelo batismo, deveria fazer de cada um de nós, como também de cada família ou comunidade, não só um intercessor dos pobres e necessitados junto a Deus, mas também um mensageiro autêntico d’Este e de sua Palavra viva, a qual nutre e fortalece a fé, a esperança e a caridade!
O primado do amor
Da mesma forma que os escribas, saduceus e fariseus, Jesus vive, ensina e se move ao abrigo da Torah, no contexto socioreligioso da Lei Mosaica. Diferentemente deles, porém, Jesus estabelece o primado do amor sobre o ritualimso e o legalismo, com destaque para os sacrifícios do Templo e as prescrições cotidianas. Como já haviam feito os profetas antes d’Ele, este novo profeta itinerante da Galileia denuncia o peso e o rigor que a Lei, quando levada ao extremo da intolerância, pode representar para o povo simples. Ao invés de uma orientação ao comportamento moral, torna-se um fardo insuportável que as autoridades religiosas impõem, embora "não estejam dispostas a movê-lo nem sequer com um dedo” (Mt 23, 1-7). O Mestre não pretende abolir a Lei e os Profetas, e sim "dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5, 17). Trata-se, no fundo, de resgatar seu espírito originário que, após a saída da terra da escravidão no Egito, fundamentava-se na liberdade e na dignidade da pessoa humana. É a partir desse quadro geral que se entende porque "o sábado foi feito para servir ao homem e não o homem para servir ao sábado” (Mc 2,27), bem como o duplo mandamento do amor a Deus sobre todas as coisas e do amor ao próximo como a si mesmo (Mc 12, 28-31).
Conforme o laborioso e monumental estudo de John P. Meier, Jesus retoma e reelabora duas passagens do Antigo Testamento para essa dupla dimensão do amor: "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6,4-5) e "amarás o próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18b). Ainda segundo o mesmo autor, a novidade em relação a outras formulações do mesmo binário é que Jesus: a) cita explicitamente, palavra por palavra, os dois textos; b) une-os, colocando um ao lado do outro; c) estabelece entre eles uma ordem númerica, como primeiro e segundo; e d) afirma que nenhum outro mandamento é maior do que estes. (in Un Ebreo Marginale, ripensare il Gesù storico, vol. 4, sulla Legge e Amore, Ed. Queriniana, Brescia, 2008, pag. 541ss). O amor figura não como substituto da lei, mas como a luz que a ilumina por inteira, a partir do brilho que a misercicórdia imprime sobre o olhar divino de Jesus.
Que diferente e acolhedora seria a Igreja se, em lugar do ritualismo e do liturgirmo inócuos e estéreis, em lugar da preocupação por exteriorizar excessiva pompa e solenidade, em lugar do poder, da prepotência e da arrogância do saber – exercitasse a escuta, a humildade, a compaixão e o serviço que derivam do amor!
Roma, 1º de fevereiro de 2015

FONTE: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83966

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Assessor das Pastorais Sociais

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