sábado, 21 de fevereiro de 2015

Igreja ainda não aprendeu a viver numa ‘política de comunhão’, afirma Marcelo Barros




A Teologia da Libertação vivencia, hoje, um momento de refortalecimento e difusão de suas ideias na figura do Papa Francisco. Ainda que não se considere adepto do pensamento dessa corrente do Cristianismo, o Sumo Pontífice tem ecoado em todo o mundo fundamentos da mensagem libertadora.

Para comentar esse contexto, o monge beneditino e escritor Marcelo Barros conversou com exclusividade com a Adital, durante o 11º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude (ENPJ), realizado em janeiro desate ano, em Manaus, Estado do Amazonas, no Brasil.



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Barros acredita que, atualmente, os grandes temas da humanidade passam primordialmente pelas juventudes e por uma cultura do "bem viver”, respeitando povos, tradições e culturas. Na relação dialógica entre a vida concreta e a espiritualidade, o escritor também aponta que a Igreja Católica ainda não aprendeu a viver numa "política de comunhão” e que o desafio de Francisco passa por esse caminho.

Monge Marcelo Barros acredita que mensagem de Francisco fortalece Teologia da Libertação. Foto: Reprodução.

Adital – O senhor acredita que os jovens vão se apropriar das ideias da Teologia da Libertação? Como engajar a juventude nesta temática?
MB – A Teologia da Libertação tem que incorporar, hoje, os grandes temas, que são os temas da juventude. Então, toda a questão, por exemplo, da relação de gêneros, especificamente os novos desafios, como a questão do homoerotismo, de todos esses desafios éticos e morais que tocam a família, que tocam as relações humanas, têm que ser incorporados na Teologia da Libertação. Como também a questão da cultura do Bem Viver, toda a questão ecológica, indígena e negra.
Adital – Na sua opinião, a ascensão dos governos progressistas na América Latina contribui para uma abertura, para uma recuperação da Teologia da Libertação?
MB – Sem dúvida nenhuma, inclusive, alguns deles, como o de Rafael Correa [presidente do Equador], foi formado dentro dos campos da Teologia da Libertação. Agora, o que é importante é que a Teologia da Libertação sempre parte das bases e dos pequenos, e não dos governos, mas é bom ter governos como aliados.
Adital – Qual é a relação das ideias do Papa com a Teologia da Libertação?
MB – O Papa Francisco mostra uma identidade muito grande com alguns princípios fundamentais da Teologia da Libertação, como o fato da inserção na vida concreta, a partir dos pobres, ter uma atitude espiritual que é de amor universal, abertura... Isso coincide muito profundamente, o que é importante é que haja uma leitura mais sistemática, mais estrutural e não somente ocasional.
Adital – A chegada do Papa Francisco ao Vaticano resgata, então, a Teologia da Libertação? Quais são os desafios que ele tem que enfrentar, sobretudo, dos movimentos mais opressores, em vista da opção pelos movimentos mais oprimidos?
MB – Como o Papa representa uma instituição que é imperial, que é monárquica, que é piramidal e que, até agora, não aprendeu a partir do diálogo e a viver numa política de comunhão no sentido de igualdade, então, o desafio é nisso. Ele, como Papa, deve propor esse caminho novo.

Barros participou do 11º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude (ENPJ), em Manaus. Foto: Tatiana Félix/Adital.

Adital – O senhor acredita que está havendo uma campanha de difamação contra o Papa Francisco? Tem gente duvidando, por exemplo, da veracidade da carta que ele enviou aos jovens aqui do Encontro...
MB – O Papa Francisco desgosta profundamente dos grandes do mundo. Então, na Itália mesmo, na Europa, em vários jornais e meios de comunicação, tem havido sim uma campanha sistemática contra ele, e é muito importante que a proposta dele, que agrada tanto a muita gente da humanidade, penetre mais nas estruturas da Igreja Católica.
Adital – Recentemente, tivemos o atentado contra a revista Charlie Hebdo, em Paris, que colocou muito em discussão a intolerância religiosa e a liberdade de expressão. Como o senhor analisa essa questão? Quais os limites de um e de outro?
MB – Acho que o atentado de Paris foi uma coisa lamentável, a gente só pode se condoer e se solidarizar com os parentes das vítimas, mas ele é resultado de uma expressão cultural de muita arrogância, de muita prepotência dos franceses, dos europeus, que olham sempre o outro, o muçulmano, o árabe e o latino-americano, o africano como inferior, como não tendo direitos iguais. Então, uma coisa é liberdade de expressão, a outra é essa avacalhação de uma maneira suja, que o outro não pode responder, da religião e da cultura. Então, enquanto não houver uma mudança nessa linha, pode haver outros fatos como esse. Eu lamento, não sou a favor, mas é uma violência provocada por outra violência. A violência institucional é maior.
(Colaborou Marcela Belchior)


Tatiana Félix
Adital

Tatiana Félix

Jornalista da Adital

Fonte:http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=84091

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