sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Mudanças climáticas: caos ou esperança?



 
 
Selvino Heck -
Adital
 
A água está batendo nos queixos, digo na reunião do Grupo de Trabalho Adaptação à Mudança do Clima – GT Adaptação, janeiro de 2015. Não está batendo nos queixos, responde alguém. "Chega só nos calcanhares.” É verdade, respondo. "Os dois temos razão. Está batendo nos queixos ou no pescoço em muitos lugares. Em outros, mal chega nos ‘calcanha’.”
A conversa aconteceu porque está em formulação o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA), coordenado pela Secretaria de Mudança do Clima e Qualidade Ambiente do Ministério do Meio Ambiente (MMA), com participação de diferentes órgãos do governo federal e organizações da sociedade civil.
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E não é sem tempo. A mídia todos os dias apresenta as calamidades e o sofrimento da população, seja por água demais, seja por falta de. Outro dia, um jornal colocou na manchete: "CRISE DA ÁGUA – CAOS... E CORRERIA – Anúncio de possível rodízio de água por 5 dias em SP vira ‘piada’ em condomínio na periferia, há 11 dias com as torneiras secas, e faz moradores começarem a estocar galões no centro e na zona oeste. Chorando copiosamente, Andreia Mafra Gentile mostra como vive há onze dias sem água em Guaianazes, extremo leste de São Paulo. Moscas sobrevoam a louça suja da pia, enquanto o cheiro do esgoto acumulado na fossa do prédio invade as janelas do condomínio de casas populares. Junto com outros vizinhos, ela chegou a tentar fazer uma vaquinha pra comprar um caminhão-pipa, mas não deu. Sem uma gota na torneira, sai com os dois filhos e anda cerca de um quilômetro para buscar água na casa de amigos” (Folha de São Paulo, Cotidiano, C4, 29.01.15).
Parece relato de outros tempos do Semiárido brasileiro, quando não havia as cisternas de placa (aliás, fruto da organização da sociedade, em parceria com o governo federal). Mas Andreia mora a 27 km do centro de São Paulo. E não é o único relato dramático. São dezenas, centenas, milhares. Assim como outros tantos relatos das enxurradas que arrancam árvores, inundam casas e carros em capitais, fecham estradas, provocam pânico.
O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA) do governo federal vai orientar iniciativas para o período 2015-2018, visando a gestão e diminuição do risco climático no longo prazo. O processo de elaboração deste plano, além de contar com a contribuição de redes temáticas compostas por especialistas de vários setores e comunidade científica, está tendo ampla participação da sociedade, inclusive por meio de chamada e consultas públicas.
Segundo as primeiras formulações do PNA, impactos da mudança do clima já são observados na atualidade. O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) sistematiza dados e informações indicando que as diferentes regiões do Brasil já apresentam registros de mudanças de sinal variável em seus climas característicos. A previsão é que essas mudanças afetem os ecossistemas terrestres e aquáticos do país de maneira não uniforme. Um aumento de temperatura poderá conduzir a um incremento na frequência de eventos extremos nas diferentes regiões no Brasil, bem como alteração no regime de chuvas, com maior ocorrência de secas, inundações, alagamentos, deslizamentos de encostas e consequentes deslocamentos populacionais das regiões atingidas. Essas alterações climáticas causarão consequências negativas para a sociedade, ecossistemas e diferentes setores da economia.
Relatórios do PBMC e do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na sigla em inglês) são unânimes em revelar que a América do Sul e o Brasil já apresentam registros de impactos dos modelos associados às mudanças do clima: Aumento de temperatura de até 2,5°C na região costeira do Brasil entre 1901/2012; aumento da temperatura da superfície da terra em aproximadamente 0,6ºC; aumento do número de dias com chuvas acima de 30 mm na região sudeste; aumento da temperatura do mar no Atlântico Sul e mudanças na salinidade; aumento na ocorrência, intensidade e influência dos eventos no clima continental do país (El Niño Pacifico Leste Equatorial, El Niño Pacifico Central, La Niña).
O PNA tem por objetivo orientar a formulação de políticas e a ação estratégica para promover a gestão e diminuição do risco climático no país frente aos efeitos adversos da mudança do clima, de forma a aproveitar as oportunidades emergentes, evitar perdas e danos e construir instrumentos que permitam a adaptação dos sistemas naturais e humanos. (Contatos e informações: www.mma.gov.br; adaptaçao.clima@mma.gov.br)
A gestão do risco climático é essencialmente territorial e multissetorial.Por isso, para o PNA estão sendo considerados 11 recortes setoriais: Água, Biodiversidade e Ecossistemas, Zonas costeiras, Desastres naturais, Saúde, Segurança alimentar e nutricional, Agricultura, Indústria, Cidades e Infraestrutura (energia, transportes e mobilidade urbana), Povos Indígenas e Comunidades tradicionais.
A previsão de aprovação do PNA é no final do primeiro semestre de 2015. E é mais do que hora, todos nós vemos e sentimos diariamente. Diz o renomado climatologista Carlos Nobre, "o Brasil precisa urgentemente buscar desenvolver sistemas e infraestruturas resistentes ao aumento dos extremos climáticos.” Para o economista Adnan Z. Amin, diretor-geral da Agência internacional de Energia Renovável (IRENA), "há três fontes que irão determinar a viabilidade da vida na Terra em algumas décadas – comida, energia e água. Existe uma relação muito clara entre elas”. Para Antônio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), "estamos em uma situação bastante grave. A ponto de a comunidade científica, que não costuma concordar entre si, ter formado um bloco com uma convicção sobre o assunto. As mudanças climáticas não são mais apenas uma projeção”.
Há luz no fim do túnel, mas não dá mais para esperar. O PNA, aprovado em debate entre sociedade e governo e implementado, será instrumento valioso para que o futuro continue sendo futuro.

Selvino Heck


Diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã e Secretaria Geral da Presidência da República. Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO)

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