quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O abraço dos dois Papas, contra a rebelião dos ‘falcões’ cardinalícios

Há feeling entre Francisco e Bento. Apesar de serem tão diferentes nas formas e no estilo, estão unidos pela mesma fé e pela experiência compartilhada da carga quase insuportável do papado. Tão pesada que obrigou o Papa Ratzinger a renunciar. Tão pesada que ao próprio Papa Bergoglio está buscando Deus e ajuda para reformar a cúria e renovar a Igreja.
A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada no jornal espanhol El Mundo, 14-02-2015. A tradução é de André Langer.
Supõe-se que Deus esteja disposto a dar uma mão ao seu “vigário” na terra. E oPapa emérito, com sua simples presença na Basílica de São Pedro, para participar da criação dos novos cardeais, encena seu apoio total ao Papa em exercício.

Consciente disso, a primeira coisa que Francisco fez, antes de iniciar a cerimônia de criação de novos cardeais, foi deixar o báculo nas mãos do mestre de cerimônias, aproximar-se do Papa emérito e fundir-se com ele em um caloroso e longo abraço, seguido de um forte aperto de mãos.
Não é a primeira vez que o Papa ancião e sábio oferece seu apoio físico e espiritual a Francisco. Mas desta vez sua presença ao lado de Bergoglio é mais necessária do que nunca e, por conseguinte, mais significativa.
Quando as críticas contra Francisco recrudescem e já não se escondem; quando um cardeal como o norte-americanoRaymond Burke declara que está disposto a “resistir” ao Papa, caso prosseguir em suas reformas, a presença doPapa Ratzinger é um respaldo ao seu sucessor. Sem dizer uma palavra, Bento proclama um axioma eclesial: “Nada sem Pedro”. E Pedro hoje é Francisco.
Quando a oposição à reforma em andamento da cúria é mais feroz do que nunca, porque desmonta cordadas [grupo de alpinistas amarrados pela mesma corda], desfaz lobbys e trunca o carreirismo e as apetências de poder de um grande número de eclesiásticos curiais, Francisco necessita ao seu lado da sombra protetora de Bento. Porque o Papa emérito sofreu em sua própria carne as dentadas de um aparelho vaticano a quem, em várias ocasiões, tratou de “matilha de lobos”, e admoestou com esta duríssima frase de São Paulo: “Se vos mordeis e devorais uns aos outros, acabarão por se destruir mutuamente”.
Um abraço público que sela um pacto implícito: Francisco está terminando a limpeza da cúria e Bento empresta-lhe toda a sua ajuda moral, para que seja capaz de levar a bom termo o que ele nem sequer pôde começar. Quer deixar claro aos olhos do mundo e, sobretudo, da própria Igreja que a primavera de Francisco é justa e necessária.
Uma piscada de Bento especialmente dirigida à ala conservadora do colégio cardinalício, liderada por Raymond Burke e Gerhard Ludwig Müller, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e à qual estão se somando cada vez mais cardeais. São todos do setor conservador e já não se escondem para dizer que não comungam com a forma de ser, de governar e de falar do Papa.
A campanha aberta contra Francisco já está chegando ao ponto de não retorno. O núcleo duro deste setor já está disposto não apenas à dissidência pública, mas à desobediência. A desobediência de um cardeal ao Papa é um pecado, porque atenta contra o juramento de fidelidade ao sucessor de Pedro “até derramar o sangue” por ele, que fazem antes de receber o capelo. Por mais que a rebelião cardinalícia trate de se justificar dizendo que nem o Papa está acima da lei canônica.
A verdade dos dissidentes acaba de ser descrita pelo cardeal de Washington, Donald Wuerl: “O fio comum que unifica todos os dissidentes é que estão contra o Papa, porque o Papa não está de acordo com eles e não segue suas posições”. São os papistas com condições.
Francisco, sumamente consciente desta rebelião conservadora cardinalícia, está se apressando para formar a “equipe”, ou seja, somar ao colégio cardinalício eclesiásticos moderados, procedentes das periferias e que comunguem, por pensamento e vida, com seu objetivo prioritário: converter a Igreja-alfândega em Igreja hospital de campanha.
O Papa forma equipe
Por isso, entre os 20 novos cardeais, há apenas um curial. Trata-se de tirar poder da cúria de todas as formas possíveis. E todos os outros são cardeais das periferias. Desses que nem passava pela cabeça que pudessem ser eleitos para o colégio mais exclusivo do mundo. Os dois espanhóis são exemplos paradigmáticos.
Fonte: http://mun.do/174SlIk
Já de saída por sua idade, foi difícil aRicardo Blázquez deixar Bilbao e converter-se em arcebispo na era dominada pelo então todo-poderoso cardeal Rouco Varela. E isso quedom Ricardo nunca foi um bispo indômito nem doutrinariamente inseguro. Pelo contrário, sempre entendeu seu ministério em chave de serviço e não de poder. Por isso, seus companheiros o elegeram presidente do episcopado para frear o excessivo poder do então cardeal de Madri, e voltaram a elegê-lo novamente agora. E, em Roma, já em tempos de Bentofoi reconhecida a sua temperança e o seu equilíbrio, premiando-o com a tranquila Arquidiocese de Valladolid. Uma sede periférica em nível cardinalício.
O outro cardeal espanhol, nascido emNavarra, mas nacionalizado panamenho há mais de 40 anos, éJosé Luis Lacunza. O religioso agostiniano recoleto é bispo de uma pequena diocese de periferia de um país periférico como o Panamá. Mas, desde sempre, foi um prelado nada principesco, entregue ao seu povo e, sobretudo, aos mais pobres.
Nesta mesma linha de prelados-servidores inscrevem-se todas as outras nomeações. Bispos simples e humildes de países da periferia, como Cabo Verde ou as Ilhas Tonga, entre outros. Todos vão na mesma linha do Papa e subiram ao seu carro reformador com confiança e esperança.
São, por enquanto, 20 novos cardeais, que, somados aos “franciscanos” já existentes, formam uma maioria qualificada do colégio cardinalício. E logo serão mais. Francisco sabe que seu pontificado será breve, por razões de idade e de pressão psicológica à qual está sendo submetido por querer mudar as coisas eclesiais em profundidade. Especula-se que poderia renunciar ao completar 80 anos, ou seja, dentro de dois anos, e retornar a Buenos Aires.
Mas o faria com a reforma encaminhada. Porque a Igreja não dá solavancos e, uma vez iniciada uma tendência (neste caso, para uma maior radicalidade evangélica), costuma prosseguir nesse caminho durante algum tempo.
Para apontar o timão eclesial na direção iniciada, Francisco pretende aumentar o número dos membros do colégio cardinalício, passando dos atuais 120 para 140. Com essa mudança, por enquanto em estudo, o Papa poderia nomear no próximo ano outros 20 cardeais de sua estirpe, que, com os 20 destes dias, mais os que o elegeram Papa para que fizesse precisamente o que está fazendo, formariam uma ampla maioria no colégio cardinalício e na cúria. E as reformas não correriam perigo de involução. E a rebelião dos “falcões” cairia no vazio. Porque ninguém pode parar a primavera na primavera. Sobretudo, quando é obra do Espírito Santo.

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