terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O bem comum foi enviado ao limbo

 Eis o artigo.
As atuais discussões políticas no Brasil em meio a uma ameaçadora crise hídrica e energética se perdem nos interesses particulares de cada partido. Há uma tentativa articulada pelos grupos dominantes, por detrás dos quais se escondem grandes corporações nacionais e multinacionais, a mídia corporativa e, seguramente, a atuação dos serviços de segurança do Império norte-americano, de desestabilizar o novo governo de Dilma Rousseff.
Não se trata apenas de uma feroz critica as políticas oficiais, mas há algo mais profundo em ação: a vontade de desmontar e, se possível, liquidar o PT que representa os interesses das populações que historicamente sempre foram marginalizadas.
Custa muito às elites conservadores aceitarem o novo sujeito histórico – o povo organizado e sua expressão partidária – pois se sentem ameaçadas em seus privilégios. Como são notoriamente egoístas e nunca pensaram no bem comum, se empenham em tirar da cena essa força social e política que poderá mudar irreversivelmente o destino do Brasil.

Estamos esquecendo que a essência da política é a busca comum do bem comum. Um dos efeitos mais avassaladaores do capitalismo globalizado e de sua ideologia, o neoliberalismo, é a demolição da noção de bem comum ou de bem-estar social.
Sabemos que as sociedades civilizadas se constroem sobre três pilastras fundamentais: a participação (cidadania), a cooperação societária e respeito aos direitos humanos. Juntas criam o bem comum.
Mas este foi enviado ao limbo da preocupação política. Em seu lugar, entraram as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competividade. A liberdade do cidadão é substituida pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competição.
A participação, a cooperação e os direitos asseguravam a existência de cada pessoa com dignidade. Negados esses valores, a existência de cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu: o seu emprego, o seu salário, o seu carro, a sua família.
Impera o individualismo, o maior inimigo da convivência social. Ninguém é levado, portanto, a construir algo em comum. A única coisa em comum que resta, é a guerra de todos contra todos em vista da sobrevivência individual.
Neste contexto, quem vai implementar o bem comum do planeta Terra? Em recente artigo da revista Science(15/01/2015) 18 cientistas elencaram os nove limites planetários (Planetary Bounderies), quatro dos quais já ultrapassados (clima, integridade da biosfera, uso do solo, fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio)).
Os outros em avançado grau de erosão. Só a ultrapassagem desses quatro pode tornar a Terra menos hospitaleira para milhões de pessoas e para a biodiversidade. Que organismo mundial está enfrentando essa situação que detrói o bem comum planetário?

Quem cuidará do interesse geral de mais de sete bilhões de pessoas? O neoliberalismo é surdo, cego e mudo a esta questão fundamental como o tem repetido como um ritornello o Papa Francisco. Seria contraditório suscitar o tema do bem comum, pois o neoliberalismo defende concepções políticas e sociais diretamente opostas ao bem comum.
Seu propósito básico é: o mercado tem que ganhar e a sociedade tem que perder. Pois é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é por que vamos construir coisas em comum? Deslegitimou-se o bem-estar social.
Ocorre, entretanto, que o crescente empobrecimento mundial resulta das lógicas excludentes e predadoras da atual globalização competitiva, liberalizadora, desregulamentora e privatizadora.
Quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral. Como mostrou em seu livro Thomas Piketty, O Capitalismo no século XXI quanto mais se privatiza, mais crescem as desigualdades.
É o triunfo do killer capitalismo. Quanto de perversidade social e de barbárie aguenta o espírito? A Grécia veio mostrar que não aguenta mais. Recusa-se a aceitar do diktat dos mercados, no caso, hegemonizados pela Alemanha de Merkel e pela França de Hollande.
Resumindo: que é o bem comum? No plano infraestrutural é o acesso justo de todos à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à cultura. No plano humanístico é o reconhecimento, o respeito e a convivência pacífica. Pelo fato de sob a globalização competitiva foi desmantelado, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição. Sem essa mudança, dificilmente se manterá a comunidade humana unida e com um futuro bom.

Ora, essa reconstrução constitui o núcleo do projeto político do PT e de seus afins ideológicos. Entrou pela porta certa:Fome Zero depois transformada em várias políticas públicas de cunho popular.
Tentou colocar um fundamento seguro: a repactuação social a partir dos valores da cooperação e a boa-vontade de todos. Mas o efeito foi fraco, dada a nossa tradição individualista a patrimonialista.
Mas no fundo vigora esta convicção humanística de base: não há futuro em longo prazo para uma sociedade fundada sobre a falta de justiça, de igualdade, de fraternidade, de respeito aos direitos básicos, de cuidado pelos bens naturais e de cooperação.
Ela nega o anseio mais originário do ser humano desde que emergiu na evolução, milhões de anos atrás. Quer queiramos ou não, mesmo admitindo erros e corrupção, o melhor do PT articulou e articula esse anseio ancestral.
É dai que pode se resgatar e renovar e alimentar sua força convocatória. Se não for o PT serão outros atores em outros tempos que o farão.
Cooperação se reforça com cooperação que devemos oferecer incondicionalmente.

Leonardo-BoffLeonardo Boff 
 teólogo, filósofo e escritor
FONTE: https://leonardoboff.wordpress.com/2015/02/12/o-bem-comum-foi-enviado-ao-limbo/

1 comment to O bem comum foi enviado ao limbo

  • Abílio Louro de Carvalho
    O capitalismo financeiro, resultante do neoliberalismo “cego, surdo e mudo”,como observa o colunista, não aprende com as crises que provoca dentro de si mesmo e ma relação com os outros sistemas, porque sobre cada crise o poder político, acenando com a produtividade e competitividade, como se diz na Europa, impõe que aqueles que detêm algum rendimento paguem os efeitos sequelares das crises. Sob a capa da reestruturação, empresas e serviços encerram ou rarefazem-se as suas representações; empresários declaram falência, mas abotoam-se com os proventos anteriormente auferidos; instâncias financeiras internacionais, em nome do progresso, ditam quem ocupa o poder aqui e ali, hoje ou amanhã. Assim, com o desemprego massivo, a anemia da economia, a política austeritária e a inevitabilidade da mudança de hábitos geram o empobrecimento mais gritante alastrante.
    Muitos se abeiram das instituições assistencialistas ou se entregam à sua sorte.
    E a democracia reduz-se a atos formais. Vota-se em listas que os partidos apresentam a partir do pico de seus aparelhos. É óbvio que políticos mercenários de interesses de grandes grupos não suscitam a participação efetiva, a cooperação solidária, o cuidado do planeta. Reduzem-se os cuidados de saúde (quem tem dinheiro, safa-se), desinveste-se na educação, declara-se a insustentabilidade da segurança social e o bem comum não sei se fica no limbo ou se é mesmo condenado.
    Se a sociedade não acorda, se se resigna a pagar as crises que outros criam irresponsavelmente; se os lesados não se levantam em torno do Papa Francisco (cuja voz simpaticamente aceite pode ser um pregão no deserto, como o de João Batista), o mundo destrói-se, a sociedade afunda-se no abismo.
    Por isso,há que mudar de agulhas e de rota. A esperança volta-se para o pregoeiro da paz e do desenvolvimento num mundo em que todos têm voz, vez e lugar. Porque subestimar este precioso aliado dos mais pobres, que denuncia a fúria dos interesses?

    FONTE:http://www.padrescasados.org/archives/32217/o-bem-comum-foi-enviado-ao-limbo/

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