terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O DOM ESTÁ VIVO

O Dom está vivo!


Marcelo Barros


Adital

Nesse domingo, às 11 horas, na Igreja das Fronteiras, local onde, durante 40 anos, Dom Helder Câmara morou e onde faleceu, diversas comunidades cristãs, movimentos sociais, grupos artísticos e até maracatus e blocos de Carnaval se reúnem para celebrar o 106° aniversário de nascimento de Dom Helder e recordar a sua memória tão querida. Alguém que ouviu falar dessa homenagem perguntou que sentido tem celebrar aniversário natalício de alguém que já faleceu há mais de 15 anos. Celebramos o nascimento de Dom Helder para testemunhar que ele continua presente entre nós. Lembramos sua vida e seus ensinamentos para manter viva sua profecia e continuarmos, hoje, a causa pela qual ele deu a vida.
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No Evangelho, Jesus alerta que alguns grupos religiosos da época matavam os profetas e depois construíam para eles belos túmulos para homenagear sua memória. Faziam isso para garantir que estavam bem mortos e sepultados. Essa tendência existe em relação a todas as grandes figuras que marcaram a humanidade. Na Índia, nem sempre as pessoas que se colocam como herdeiras do Mahatma Gandhi agem de acordo com a sua profecia de não violência. Em torno da herança do pastor Martin-Luther King nos Estados Unidos, há muitos problemas, como houve entre os herdeiros de Nelson Mandela. No Brasil, quem representa realmente a herança viva de Paulo Freire? Há discordâncias graves sobre isso. Com Dom Helder, pastor e profeta de Deus, poderia ser diferente. No entanto, somos todos humanos. Mesmo entre nós, grupos e pessoas que, em vida, nunca aceitaram a mensagem e o testemunho do Dom, agora podem até reconhecê-lo como santo e colocá-lo em um altar, mas nada fariam para retomar o jeito de ser Igreja pela qual Dom Helder lutou a vida inteira, nem acolhem o espírito de fraternidade universal que ele viveu.
O mundo atual ainda está mais desigual e injusto do que nos tempos de Dom Helder. Por isso, o testemunho de vida, a forma de ser pastor e a mensagem do Dom não só são atuais, mas se revelam cada dia mais necessárias e urgentes. Em Roma, o papa Francisco retomou o espírito de Dom Helder e atualiza, a cada dia, a sua mensagem. No entanto, o papa está bastante sozinho. Sua proposta de uma Igreja em saída e de ministros com cheiro de ovelha precisa de uma força maior do Espírito Divino para se espalhar pelas Igrejas locais. Essa celebração do aniversário de Dom Helder Câmara nos convida a assumir a proposta evangélica do papa Francisco em nossa comunidade local, católica ou evangélica.
Se o Dom estivesse fisicamente conosco, em dúvida, estaria engajado de corpo e alma no projeto de uma ampla e profunda Reforma Política para a sociedade brasileira e estaria reatualizando no meio do mundo cristão e não cristão a Ação Justiça e Paz, como instrumento para transformar e cuidar da natureza como sinal da ternura divina conosco. Como profeta, ele nos faz ouvir o que o Espírito diz hoje às Igrejas.
FONTE:http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83900

Marcelo Barros

Monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. É um dos três latino-americanos membros da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte
Pernambuco, Brasil

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