terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Estado não é uma máquina, é uma entidade política


Adital

Há uma tendência no governo a considerar o Estado como uma máquina para implementar políticas. Se uma peça não funciona, ela é trocada, mas não se altera nada o caráter que uma certa visão tecnocrática tem do Estado como coisa, como administração, mas não como entidade política, de direção geral da sociedade.
O aspecto mais determinante do resultado das últimas eleições foi o de que o governo perdeu – e feio – na disputa da opinião pública, mas venceu – bonito – nas políticas sociais, e isso lhe deu a vitória. Mas quanto mais o resultado se deu perto dos setores mais influenciados pelo monopólio privado da mídia – e sua atuação como partido político da oposição – melhor foi o resultado da oposição e pior o do governo.
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Olhada retroativamente a dinâmica da apuração de votos – de que o fuso horário do Acre nos salvou o coração, percebemos que na primeira parte os votos das grandes metrópoles do centro sul – especialmente São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, levavam a um resultado próximo a dois terços para a oposição, um terço para o governo. Foram as políticas sociais, no Nordeste, mas também em lugares como o interior de Minas, que permitiram a virada do governo.
Tivesse sido um mau governo, se poderia explicar o resultado apertado mas, apesar das dificuldades no plano econômico, que levaram a praticamente uma estagnação, as políticas sociais se consolidaram e se estenderam, sendo o marco mais importante do primeiro mandato de Dilma. Mesmo os índices que poderiam ter sido afetados pela retração econômica não o foram: o desemprego continuou a diminuir e a inflação – um dos cavalos de batalha da campanha da oposição – se manteve nos patamares programados.
A vitória apertada do governo se deveu então à projeção da imagem do governo que a mídia promoveu na opinião pública. Antes de tudo, a marca de corrupção, que desde 2005 é o tema maior da mídia, calou profundamente no PT e, por extensão, no governo. O objetivo da oposição é o da desqualificação do Estado, como fonte de todos os males do Brasil, a começar pela corrupção. Desalentada pelo sucesso dos governos do PT no resgate do Estado, principalmente na implementação das políticas sociais, a direita se voltou para outro plano – o da corrupção, para atacar.
Duas referências da esquerda foram os alvos maiores: o PT e a Petrobras. O PT, como partido que buscava resgatar a política, desqualificada pela ofensiva neoliberal, encarnada na vitória de Fernando Collor e no discurso do FHC. Em contraposição aos partidos e ao Estado, à política, emergia o mercado, como ente todo poderoso, contraponto da ineficácia e da corrupção estatal.
A vitória de Lula e seu governo resgatou a política, o PT e as estatais, a começar pela Petrobras. Daí a sanha da direita contra Lula, o PT e a Petrobras. A política, mais diretamente representada pelos parlamentos, sempre foi alvo frágil para desqualificar a atividade política, mas o resgate da ação dos governos e do Estado foram golpes duros dados ao receituário liberal e neoliberal.
A reversão da imagem do PT e da Petrobras – as duas maiores vitórias ideológicas e políticas da direita nestes 12 anos – se deram pela via das denúncias de corrupção. O terrorismo econômico contribuiu para gerar um clima negativo em relação ao governo, mas quando chegou o horário eleitoral, esse clima foi desarticulado, até porque o terrorismo econômico não bate com a vivência das pessoas. Mas o da corrupção veio, ficou e, reatualizado pela Petrobras, não tem hora para acabar.
Diante desse quadro, a divulgação dos casos de melhoria social das pessoas e do sucesso das políticas sociais do governo, convence e fortalece as convicções de quem está convencido. O silêncio do governo é um erro gravíssimo.
Quando Dilma falou da Pátria Educadora, dizendo que era uma tarefa transversal, para todo o governo, parecia apontar para preencher esse vazio. Mas já na primeira reunião do ministério, quando se poderia esperar que um dos temas centrais seria o de como colocar em prática esse orientação, de forma decepcionante houve silêncio total sobre o tema. Como se tivesse sido um enunciado geral, sem implementação prática, um enunciado de vontade, sem consequências práticas.
O governo se mantém ainda sob forte influência tecnocrática. Acredita que, realizando boas políticas para a população, esta reconhecerá o governo. As eleições foram um desmentido rotundo dessa visão ingênua, pré-gramsciana, que não leva devidamente em conta o peso da mídia monopolista na formação da consciência das pessoas. Entre os programas concretos do governo e a cabeça das pessoas, entra a fabricação da visão da população pelas campanhas partidárias da mídia.
O governo e, em particular, a presidenta, tem que falar, o tempo todo, por todos os canais existentes e criando novos canais. É uma obrigação do governante prestar contas o tempo todo, explicar, denunciar as mentiras sobre o governo e sobre o país. A presidenta tem que ter um programa semanal, pela rede pública de rádios e TVs, para quem quiser retransmitir, onde presta contas do que está fazendo, dos problemas que está enfrentando, levando os ministros para dialogar com a cidadania.
O Estado não é uma máquina, é uma entidade política, de direção política da sociedade. A presidenta deveria ser a primeira professora da Pátria Educadora.
Fonte: Rede Brasil Atual
FONTE:http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83986

Emir Sader

Filósofo; doutor em ciência política. É professor aposentado da Universidade de São Paulo, dirige o Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde é professor de sociologia

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