terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

POVO: EM BUSCA DE UM CONCEITO

Povo: em busca de um conceito


Leonardo Boff


Adital

Imagem: 6º grande ato contra o aumento da tarifa dos transportes públicos em São Paulo (2015). Crédito: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

Há poucas palavras mais usadas por distintas retóricas do que esta de "povo”. Seu sentido é tão flutuante que as ciências sociais dão-lhe pouco apreço preferindo falar em sociedade ou em classes sociais. Mas como nos ensinava L. Wittgenstein "o significado de uma palavra depende de seu uso”. Entre nós, quem mais usa positivamente a palavra "povo” são aqueles que se interessam pela sorte das classes subalternas: o "povo”.
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Vamos tentar fazer um esforço teórico para conferir um conteúdo analítico a "povo” para que seu uso sirva àqueles que se sentem excluidos na sociedade e querem ser "povo”.
O primeiro sentido filosófico-social deita suas raízes no pensamento clássico da antiguidade. Já Cicero e depois Santo Agostinho e Tomás de Aquino, afirmavam que "povo não é qualquer reunião de homens de qualquer modo, mas é a reunião de uma multidão ao redor do consenso do direito e dos interesses comuns”. Cabe ao Estado harmonizar os vários interesses.
Um segundo sentido de "povo” nos vem da antropologia cultural: é a população que pertence à mesma cultura, habitando determinado território. Quantos culturas, tantos povos. Esse sentido é legítimo porque distingue um povo do outro: um quéchua boliviano é diferente de um brasileiro. Mas esse conceito de "povo” oculta as diferenças e até contradições internas: tanto pertence ao "povo” um fazendeiro do agronegócio como o peão pobre que vive em sua fazenda. Mas no Estado moderno o poder só se legitima se estiver enraizado no ”povo”. Por isso a Constituição reza que "todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”.
Um terceiro sentido é chave para a política. Política é a busca comum do bem comum (sentido geral) ou a atividade que busca o poder de Estado para a partir dele administrar a sociedade (sentido específico). Na boca dos políticos profissionais "povo” apresenta grande ambiguidade. Por um lado expressa o conjunto indiferenciado dos membros de uma sociedade determinada (populus), por outro significa a gente pobre e com parca instrução e marginalizada (plebs=plebe). Quando os políticos dizem que "vão ao povo, falam ao povo e agem em benefício do povo”, pensam nas maiorias pobres.
Aqui emerge uma dicotomia: entre as maiorias e seus dirigentes ou entre a massa e as elites. Como dizia N. W. Sodré: ”uma secreta intuição faz que cada um se julgue mais povo quanto mais humilde é. Nada possui, mas por isso mesmo orgulha-se de ser "povo” (Introdução à revolução brasileira, 1963, p. 188). Por exemplo, nossas elites brasileiras não se sentem "povo”. Como dizia antes de morrer em 2013 Antônio Ermírio de Moraes: ”as elites nunca pensam no povo, somente em si mesmas”. Eis o problema que aflige já por séculos a sociedade brasileira.
Há um quarto sentido de "povo” que se deriva da sociologia. Aqui se impõe certo rigor do conceito para não cairmos no populismo. Inicialmente possui um sentido político-ideológico na medida em que oculta os conflitos internos do conjunto de pessoas com suas culturas diferentes, status social e projetos distintos.
Esse sentido possui parco valor analítico pois é globalizador demais embora seja o mais usado na linguagem da mídia e dos poderosos.
Sociologicamente "povo” aparece também como uma categoria histórica que se situa entre massas e elites. Numa sociedade que foi colonizada e de classes, aponta clara a figura da elite: os que detêm o ter, o poder e o saber. A elite possui seu ethos, seus hábitos e sua linguagem. Face a ela, surgem os nativos, os que não gozam de plena cidadania nem podem elaborar um projeto próprio. Assumem, introjetado, o projeto das elites. Essas são hábeis em manipular "o povo”: é o populismo. O "povo” é cooptado como ator secundário de um projeto formulado pelas elites e para as elites.
Mas sempre há rachaduras no processo de hegemonia ou dominação de classe: lentamente da massa surgem lideranças carismáticas que organizam os movimentos sociais com visão própria do país e de seu futuro. Deixam de ser "povo-massa” e começam a ser cidadãos ativos e relativamente autônomos. Surgem sindicatos novos, movimentos dos sem terra, dos sem teto, de mulheres, de afrodescendentes, de indígenas, entre outros. Da articulação desses movimentos entre si nasce um "povo” concreto. Já não depende das elites. Elabora uma consciência própria, um projeto diferente para o país, ensaia práticas de resistência e de transformação das relações sociais vigentes.
"Povo”, portanto, nasce e é resultado da articulação dos movimentos e das comunidades ativas. E ele nunca acaba de nascer totalmente, porque depende da mobilização dos grupos sociais que buscam mais e mais participação, e assim vão fazendo nascer um povo.
Esse é o fato novo no Brasil e na América Latina dos últimos decênios que culminou hoje com as novas democracias de cunho popular e republicano. Bem dizia um líder do novo partido ”Podemos” na Espanha: ”não foi o povo quem produziu o levante, foi o levante que produziu o povo”. (Le Monde Diplomatique, janeiro 2015 p. 16).
Agora podemos falar com certo rigor conceitual: aqui há um "povo” emergente enquanto tem consciência, projeto próprio para o país e se organiza para implementá-lo.
"Povo” possui também uma dimensão axiológica: todos são chamados a ser povo: deixar de haver dominados e dominadores, elites e massas, mas cidadãos-atores de uma sociedade na qual todos podem participar.
Fonte: Leonardoboff.wordpress
FONTE:http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83878

Leonardo Boff

Doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Conta-se entre um dos iniciadores da teologia da libertação. É assessor de movimentos populares. Conhecido como professor e conferencista no país e no estrangeiro nas áreas de teologia, filosofia, ética, espiritualidade e ecologia. Em 1985 foi condenado a um ano de silêncio obsequioso pelo ex-Santo Ofício, por suas teses no livro Igreja: carisma e poder (Record).
A partir dos anos 80 começou a aprofundar a questão ecológica como prolongamento da teologia da libertação, pois não somente se deve ouvir o grito do oprimido, mas também o grito da Terra porque ambos devem ser libertados. Em razão deste compromisso participou da redação da Carta da Terra junto com M. Gorbachev, S. Rockfeller e outros. Escreveu vários livros e foi agraciado com vários prêmios.

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