sexta-feira, 20 de março de 2015

No Rio, bispo fará ordenação à revelia do papa

Excomungado da Igreja Católica em 1988 pelo papa João Paulo II e readmitido em 24 de janeiro de 2009 pelo papa Bento XVI, o bispo tradicionalista inglês d. Richard Nelson Williamson, de 75 anos, ordenará um bispo à revelia do Vaticano, o religioso André Zelaya de León. A solenidade acontecerá às 9 horas de sábado, 21, no Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, cidade na Região Serrana do Rio.
 
A reportagem é de Carina Bacelar e Fábio Grellet, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 19-03-2015.
O ato reacenderá um cisma na Igreja Católica e, conforme o Código de Direito Canônico, implicará excomunhão automática de Williamson e do religioso que será ordenado bispo. Em nota, o bispo da Diocese de Nova Friburgo, Edney Gouvêa Mattoso, classifica o ordenação como “desobediência em matéria gravíssima” e conclama os fiéis a “não apoiarem de modo algum essa ilegítima ordenação episcopal e as consequências que dela advirão”.
 

“A ilegítima ordenação episcopal ora em causa será uma desobediência ao papa em matéria gravíssima, num tema de importância capital para a unidade da Igreja, a ordenação dos bispos, mediante a qual é mantida sacramentalmente a sucessão apostólica. Tal ato ilegítimo leva a uma rejeição prática do Primado do Romano Pontífice”, afirma d. Edney.
 
Na nota, o bispo de Nova Friburgo diz que o Vaticano será informado. “Penso poder garantir em nome de todo o clero, religiosos e fiéis ao (...) papa Francisco, o primeiro a quem compete a tutela da unidade da Igreja, a nossa filial união e obediência, em especial nesse doloroso momento. Para tanto, enviarei carta para Sua Santidade.”
Lefebvre
 
Ordenado padre em 1976, Williamson, de 75 anos, integra a corrente católica que foi liderada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991), resistente às reformas instituídas pelo Concílio Vaticano II, entre 1961 e 1965. Em 1970, Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que segue a doutrina anterior ao concílio. Em 30 de junho de 1988, sem consentimento do papa João Paulo II, ele ordenou bispos Williamson e mais três padres. O ato foi considerado ilícito pelo Vaticano, que excomungou os cinco.
 
Rompida com o Vaticano, a Fraternidade Sacerdotal continuou funcionando como entidade religiosa, tendo Williamson como um de seus bispos. Hoje, a instituição está presente em 31 países.
Em 2009, liderado por Bento XVI, o Vaticano se reaproximou da fraternidade sacerdotal e anulou as excomunhões de 1988. Williamson resgatou a condição de bispo, mas sem o poder de realizar atividades inerentes ao bispado católico, como as ordenações.
 
O bispo d. Fernando Arêas Rifan, membro da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney, em Campos dos Goytacazes (município no norte fluminense), também condena a ordenação. Ele se autointitula representante da doutrina tradicional. “Estou em comunhão com o bispo d. Edney. Está errada essa atitude de d. Richard. Ele está em uma atitude cismática.”
De 1991 a 2002, o grupo de sacerdotes do qual Rifan faz parte permaneceu em situação episcopal irregular por ter sido ordenado por bispos ligados a Williamson. No papado de Bento XVI, a divisão foi sanada.
 
Em nota, o arcebispo do Rio, cardeal d. Orani Tempesta, manifestou “sua tristeza” e disse que “faz chegar seu apoio e solidariedade” ao bispo diocesano de Nova Friburgo.
 

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