segunda-feira, 23 de maio de 2016

Andrea Tornielli 
Tradução: Orlando Almeida
Exterminem aqueles monges. Assinado: o Vice-rei Graziani
 Foto: Fiéis cristãos ortodoxos diante do mosteiro de Debre Libanos, na Etiópia
Um documentário levanta o véu sobre o maior massacre de religiosos cristãos já feito na África. Em 1937, soldados sob o comando do general italiano, mataram em represália duas mil pessoas: mil eram membros do clero


Foi o maior massacre de religiosos cristãos já ocorrido na África. Maior ainda do que o cometido neste mesmo lugar pelos otomanos em julho de 1531. Custou a vida de cerca de duas mil pessoas, metade das quais eram padres, monges e diáconos, e quem o fez não foram milícias islâmicas, mas os soldados sob o comando de Vice-rei italiano da Etiópia, Rodolfo Graziani.
O que ocorreu em maio de 1937 no mosteiro etíope de Debre Libanos é uma voragem nossa memória, e uma ferida ainda aberta nas relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa da Etiópia.
A levantar o véu de silêncio que ainda envolve esses eventos é um filme documentário de mais de uma hora que será transmitido pela Tv2000 sábado 21 de maio, às 21 horas, e replicado no domingo às 18:30.
Antonello Carvigiani, jornalista e autor da reportagem, trouxe à luz documentos e testemunhos inéditos e também encontrou a última testemunha ainda viva. E, graças à contribuição do mais importante estudioso do massacre, o historiador inglês Ian Campbell que está prestes a publicar um livro sobre o caso, reconstruiu em detalhes o que aconteceu.
O mosteiro de Debre Libanos, fundado no século XIII pelo santo Teclé Haimanót, está localizado na região dos Amara, a noroeste de Addis Abeba, e fica entre um rochedo e um desfiladeiro criado por um afluente do rio Abbay. É ainda hoje o pulmão espiritual do cristianismo ortodoxo etíope.

“Todos executados”
O antecedente do massacre ocorreu em 19 de fevereiro de 1937, quando Rodolfo Graziani sofreu um atentado durante uma cerimônia pública na capital etíope. Alguns expoentes do movimento dos patriotas rebeldes, misturados ao povo, lançaram explosivos: sete pessoas morreram e o vice-rei italiano ficou gravemente ferido. Com base nas primeiras informações, que falavam de um envolvimento dos monges, sem provas e sem aguardar o resultado das investigações oficiais, Graziani ordenou ao General Pietro Maletti que massacrasse todo o clero de Debre Libanos.
O documentário da TV2000 recorda que as tropas italianas cercaram a área em 18 de maio, deixando passar os fiéis que se dirigiam ao mosteiro para a festa de São Miguel, que seria celebrada nos dias seguintes, mas impedindo ao mesmo tempo a passagem de todos os que queriam sair.  Consequentemente os peregrinos ficaram presos, vítimas da mesma sorte que iriam ter os monges. Em seguida, ocorreu o ataque.
Segundo as mais recentes pesquisas históricas, o número de mortos deve ter sido entre 1.800 e 2.200. Ian Campbell acredita que dois mil é o número que mais se aproxima da realidade, apesar de o relatório oficial elaborado pelo vice-rei de Mussolini se limitar a citar 449 mortos. “O número das vítimas referido por Graziani foi muito baixo; – explica Campbell – sabemos que o número de membros do clero, incluindo os monges, não era inferior a mil”.  Num telegrama do General Maletti, enviado no dia seguinte ao massacre, lê-se: “Confirmo que todos indistintamente os personagens assinalados foram definitivamente executados”.
A última testemunha
O autor do documentário conseguiu encontrar e entrevistar a última testemunha do massacre, Ato Zewede Geberu, agora com mais de 90 anos e então criança. “No dia da festa de São Miguel não fui a Debre Libanos. Muitíssimos fieis das aldeias vizinhas foram ao mosteiro. Mas a minha família daquela vez decidiu não ir. Uma decisão que nos salvou a vida. Não vi o massacre. Mas ouvi-o. Ouvi os tiros de metralhadora. Ficámos com medo, ficámos escondidos na nossa aldeia. Dois ou três dias depois fui ver. Ainda havia cadáveres, centenas de mortos, talvez 600, 700 … E os animais começavam a comê-los. Ainda havia soldados italianos andando por aqueles lados”.
O massacre aconteceu num lugar isolado. Longe de testemunhas. Muitos corpos foram lançados numa garganta de cerca de 500 metros de profundidade.  A lembrança do massacre também deve ter sido dolorosa para os que o executaram, obedecendo às ordens recebidas. O relato do monge Abba Hbte Gyorgis: “Alguns anciãos contaram-me que os militares italianos usavam guarda-sóis brancos para se protegerem do sol. Depois do massacre, alguns soldados levaram ao mosteiro os seus guarda-sóis brancos para pedir desculpa. Em sinal de reconciliação. No museu do mosteiro estão guardados três destes guarda-sóis”.
O filme documentário da TV2000, com direção e fotografia de Andrea Tramontano, conclui-se com a entrevista do Abuna Matthias I, Patriarca da Igreja Ortodoxa da Etiópia: “Não foi uma coisa boa. Nós perdemos muitíssimas pessoas, incluindo os monges, o bispo Abuna Petros. Agora, quase tudo foi devidamente esquecido e perdoado. Posso dizer que está bem assim. Que se pode fazer agora?”.
Talvez seja melhor lembrar.
 Andrea Tornielli 1
Andrea Tornielli
http://www.padrescasados.org/archives/45589/exterminem-aqueles-monges-assinado-o-vice-rei-graziani/

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