segunda-feira, 20 de junho de 2016

Desonestidade sem limites


Brasil 247
Adital
*Por Ramon Brandão
O novo secretário de Segurança de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, afirmou que estupros no estado estão ligados à crise econômica. Quando perguntado sobre os 3 mil casos de estupro registrados apenas de janeiro a abril de 2016, o secretário respondeu que o problema é o desemprego. A desonestidade da classe política brasileira realmente não tem limites.


Segundo o secretário, "o camarada perdeu o emprego. Ele começa a se desesperar, começa a beber. Um monte de gente, que nunca cometeria qualquer tipo de crime, hoje está praticando o pequeno ilícito e, às vezes, até esses crimes mais graves. O crime de estupro atualmente é um tipo mais aberto – aquele beijo forçado, uma situação de uma carícia imprópria configura o crime de estupro. (...) Muita gente cai em depressão porque perdeu emprego e começa a beber. E aí termina perdendo a cabeça e praticando esse tipo de delito. Não estou falando que é a principal causa, mas uma das causas com certeza é essa aí".
O que podemos dizer, senão que o secretário está muitíssimo equivocado quando diz que a violência contra a mulher está relacionada à recessão da economia? O Banco Mundial publicou um estudo em 2015 onde afirmava que um terço das mulheres do mundo é ou serão vítimas de violência ao longo de suas vidas. E concluiu o óbvio: a violência contra a mulher é uma pandemia global que afeta todos os grupos socioeconômicos de países ricos e pobres. Não está relacionada, portanto, à qualquer crise de natureza econômica.
Relacionar estupro e crise econômica é uma retórica, no mínimo, perigosa. O secretário parte da premissa de que vivemos um surto de violência contra a mulher. Um momento atípico. E o pior: ele não é o único homem no poder a dizer isso.
Na terça-feira (31/05), o presidente interino Michel Temer também afirmou que o país vive uma onda de violência contra a mulher. Anunciou que vai formar um núcleo subordinado ao Ministério da Justiça para liderar esse debate em sua administração. Algo como uma secretaria de políticas para as mulheres – muito semelhante àquela que já existe e que ele ofereceu a uma deputada conservadora cujas declarações públicas sobre direitos reprodutivos e laicidade do Estado foram nada menos que estarrecedoras. Ele e seus ministros, todos homens (é claro), vão trabalhar com os estados no intuito de desenvolver políticas públicas que respondam ao problema.
As mulheres estão denunciando as práticas que reificam a desigualdade de gênero a muitos anos; combatendo a cultura do estupro que mantém a desigualdade a muitos anos. Não é uma luta nova. Não estamos passando por um surto atípico aos moldes do Zika vírus ou Chikungunya. Essa luta sempre esteve na paula dos movimentos feministas que, vale lembrar, ocupam um lugar especialmente duro: elas vigiam os consensos e as generalizações.
Você deve conhecer os números: uma mulher no Brasil é estuprada a cada 11 minutos. Em 70% dos casos de estupro, a vítima conhecia seu algoz. O estupro não acontece no baile, na balada; o estupro não depende do tamanho da saia da vítima ou do quanto ela bebeu. O estupro tem todas as cores, todas as raças e está em todas as classes. O estupro é regra, é norma e não uma exceção.
O estupro hoje é "normal" e nós, definitivamente, queremos que deixe de ser. Não nos interessa falar do que o caso da menina estuprada por 33 homens tem de incomum. Nos interessa lembrar o que ele tem de comum. É só mais um caso de violência contra a mulher num espectro de 1 para cada 11 minutos. Mais um caso em que a vítima conhecia o seu agressor. Mais um caso onde o corpo de uma mulher foi violado.
E esses homens do poder, o que fazem? Fazem o "mais do mesmo". E o mundo continua assim: violento, preconceituoso e machista.
Segundo os homens do poder, trata-se de uma onda. A culpa é da crise. Do desemprego. A culpa é da nova lei, que é muito "aberta". A violência contra a mulher é um fenômeno novo ou que ganhou, por qualquer razão, uma nova dimensão. Ao fazer isso, eles estão construindo um discurso que faz da regra, uma exceção. Um discurso que não nos permite, enquanto sociedade, olhar para o estupro como uma cultura que está presente em todos os espaços da vida em sociedade.
Esses homens do poder estão desenhando respostas ofensivamente superficiais para a violência de gênero, subestimando a inteligência da população que, em muitos casos, se deixam convencer. Mas dessa vez não, não seremos ludibriados com palavras vazias. Nunca enfrentaremos de frente as inúmeras desigualdades (de gênero, de raça, de credo, etc.) se não entendermos que ela não é rara, nova ou que não passa de um surto momentâneo.
Qualquer tentativa de singularizar a brutalidade do estupro coletivo no Rio de Janeiro contribui para, dentre outras coisas, normalizar os outros 3 mil casos que aconteceram somente em São Paulo desde janeiro de 2016.
Não devemos nos calar e, acima de tudo, precisamos nos posicionar. Nos jornais, nas redes sociais, na família, no trabalho, na escola. A violência (física ou não) de gênero merece intolerância. Chega de relativizar o estupro. O nosso silêncio e/ou passividade em casos de violência contra a mulher é um diagnóstico de arcaísmo social.
*Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cat=22&cod=89094

Brasil 247

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