terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Papa Francisco: “A tragédia de Lampedusa fez-me sentir o dever de fazer viagens”

O Pontífice: não estava programado, mas era importante ir. Depois não parei mais: é cansativo, mas por aqueles sorrisos vale a pena


Andrea Tornielli 08/01/2017 – Cidade do Vaticano
Foto: Papa Franciso fez 80 anos em 17 de dezembro  –   LaPresse
Tradução: Orlando Almeida 
Na terça-feira, 10 de janeiro, estará nas livrarias o livro “In viaggio” [Em viagem] (edições PIEMME, pp. 348, 18 euros), o relato das viagens internacionais do Papa Francisco escrito por Andrea Tornielli, jornalista do diário’ La Stampa’ e coordenador do ‘site’ Vatican Insider.



  • A primeira viagem de surpresa a Lampedusa,
  • depois ao Brasil,
  • à Terra Santa,
  • à Ásia,
  • à América Latina,
  • a Cuba e aos Estados Unidos.
  • A Porta Santa foi aberta antecipadamente na África e na Ásia,
  • mas houve também a surpresa da ilha de Lesbos,
  • com uma visita ao campo de refugiados, e viagens-relâmpago a Tirana, a Sarajevo, a Lund…
Territórios fascinantes e cidades emblemáticas, lugares complexos e populações heterogêneas, onde o pontífice denunciou com firmeza
  • o narcotráfico,
  • a venda de armas,
  • a corrupção,
  • a própria escravidão em determinados setores da economia,
  • e definiu como tragédia humanitária a questão das migrações do Sul para o Norte do mundo.
Um Papa peregrino da paz, mas também um profeta incômodo, que convida as Igrejas locais a ficarem próximas dos setores mais marginalizados da sociedade.
O livro é um diário de viagem, com bastidores, episódios inéditos e o relato direto dos encontros de Bergoglio que aconteceram ao redor do mundo de 2013 até o presente. E é aberto com um capítulo que registra uma longa entrevista de Francisco sobre suas viagens.

 Publicamos aqui um extenso trecho da entrevista.

Santidade, o senhor gosta de viajar?

“Sinceramente, não. Nunca gostei muito de viajar. Quando eu era bispo na outra diocese, em Buenos Aires, vinha a Roma somente se necessário e se podia não vir, eu não vinha. Sempre me pesou ficar longe da minha diocese, que para nós bispos é a nossa “esposa”. E ademais eu sou uma pessoa bastante rotineira, para mim ter férias é  ter algum tempo extra para rezar e ler, mas para descansar nunca tive necessidade de mudar de ares ou mudar de ambiente”.

 Esperava, no início de seu pontificado, ter de viajar tanto?

“Não, não, realmente não! Como eu disse, não gosto muito de viajar. E nunca teria imaginado fazer tantas viagens…. ”

 Como começou? O que o fez mudar de ideia?

“A primeiríssima viagem foi a Lampedusa. Uma viagem italiana. Não estava programada, não houve convites oficiais. Senti que devia ir, tinham me tocado e comovido as notícias sobre os migrantes mortos no mar, afogados. Crianças, mulheres, homens jovens… Uma tragédia terrível. Vi as imagens do resgate dos sobreviventes, recebi testemunhos sobre a generosidade e hospitalidade dos habitantes de Lampedusa. Por isso, graças aos meus colaboradores, foi organizada uma viagem-relâmpago. Era importante ir lá. Depois houve a viagem ao Rio de Janeiro, para o Dia Mundial da Juventude. Era um compromisso já agendado, já estabelecido. O papa sempre participou das JMJ (…). A viagem nunca foi posta em questão, era preciso ir, e para mim foi o primeiro retorno ao continente latino-americano”.

 A JMJ era um encontro ao qual o Papa não podia faltar. Mas os outros?

“Depois do Rio veio outro convite, e depois outro. Eu simplesmente disse sim, deixando-me de alguma forma “levar”. E agora sinto que devo fazer as viagens, ir visitar as Igrejas, encorajar  as sementes de esperança que há nelas”.

 Quanto lhe pesam os deslocamentos internacionais, do ponto de vista físico?

“São pesados, mas digamos que por enquanto eu dou conta. Talvez me pesem ainda mais do ponto de vista psicológico do que do ponto de vista físico. Eu precisaria de mais tempo para ler para me preparar. Uma viagem não exige empenho só nos dias em que se está no país ou países visitados. Há também a preparação, que geralmente ocorre em períodos nos quais há também todo o trabalho ordinário a ser desenvolvido. Quando volto para casa, no Vaticano, geralmente o primeiro dia depois da viagem é bastante cansativo e preciso me recuperar. Mas trago sempre comigo rostos, testemunhos, imagens, experiências… Uma riqueza inimaginável, que me faz dizer sempre: valeu a pena”.

 Mudou alguma coisa na agenda já consolidada das viagens papais?

“Não muito. Tentei, por exemplo, eliminar totalmente os banquetes de representação. É natural que tanto as autoridades institucionais do país visitado, como os irmãos bispos, desejem receber festivamente o hóspede que chega. Não tenho nada contra ficar à mesa com companhia. Lembremo-nos que o Evangelho está cheio de relatos e testemunhos que descrevem exatamente circunstâncias como esta: o primeiro milagre de Jesus acontece durante um banquete de núpcias (…).
Mas se a agenda da viagem, como acontece quase sempre, já está completamente cheia de compromissos, eu prefiro comer de modo simples e em pouco tempo”.

 Que sentimentos experimenta diante do entusiasmo das pessoas que esperam por horas para vê-lo passar nas ruas?

  • “O primeiro sentimento é o de quem sabe que há os “Hosana!” mas, como lemos no Evangelho, podem chegar também os “Crucifica!”.
  • O segundo sentimento tiro-o de um episódio sobre o qual li em algum lugar. Trata-se de uma frase pronunciada pelo então cardeal Albino Luciani sobre os aplausos recebidos de um grupo de coroinhas, ao recepcioná-lo. Ele disse mais ou menos assim: ‘Mas vocês podem por acaso imaginar que o burro em que Jesus vinha sentado na entrada triunfal em Jerusalém pudesse pensar que aqueles aplausos eram para ele?’.
Aí está, o Papa deve estar consciente do fato de que ele “traz” Jesus, testemunha Jesus e a sua vizinhança, proximidade e ternura para com todas as criaturas, especialmente para com os que sofrem. Por isso às vezes tenho pedido a quem grita “viva o Papa” que em vez disso grite “Viva Jesus!”.  Há também belíssimas expressões sobre a paternidade em um dos diálogos do Beato Paulo VI com Jean Guitton. O papa Montini confidenciava ao filósofo francês: ‘Creio que de todas as dignidades de um Papa, a mais invejável é a paternidade.
A paternidade é um sentimento que invade o espírito e o coração, que nos acompanha a cada hora do dia,  que não pode diminuir, mas que aumenta porque aumenta o número  dos filhos. É um sentimento que não enfraquece, que não cansa, que repousa de qualquer fadiga. Nunca, nem mesmo por um momento, me senti cansado, quando levantei a mão para abençoar. Não, nunca me cansarei de abençoar e de perdoar’.  Paulo VI dizia  isto logo depois de voltar da Índia. Creio que são palavras que explicam por que, na época  contemporânea, os Papas decidiram viajar”.

 Lembranças das viagens que lhe ficaram indeléveis  na memória?

  • “O entusiasmo dos jovens no Rio de Janeiro, que me puxavam de todos os lados do papamóvel. E, depois, também no Rio, aquela criança que conseguiu esgueirar-se e subiu as escadas correndo e me abraçou.
  • Lembro-me das pessoas que se reuniram no santuário de Madhu, no norte do Sri Lanka, onde a acolher-me encontrei, além dos cristãos, também os muçulmanos e os hindus, um lugar aonde os peregrinos chegam como membros de uma única família.
  • Ou as boas-vindas nas Filipinas. Ainda tenho diante dos olhos o gesto daqueles pais que erguiam os seus filhos, para que os abençoasse, e parecia-me que quisessem dizer: este é o meu tesouro, o meu futuro, o meu amor, por ele vale a pena trabalhar e fazer sacrifícios. E havia muitas crianças deficientes, e os seus pais não escondiam o filho, estendiam-no para mim para que eu o abençoasse, dizendo com os seus gestos: este é o meu filho, é assim, mas é meu filho. Gestos nascidos do coração
  • Lembro também as tantas pessoas que me acolheram em Tacloban, sempre nas Filipinas.
Chovia muito naquele dia. Eu tinha de celebrar a missa para lembrar os milhares de mortos provocados pelo tufão Hayan, e o mau tempo por pouco não causou o cancelamento da viagem. Mas eu não podia deixar de ir: as notícias daquele tufão, que tinha devastado a área em novembro de 2013, impressionaram-me muito. Chovia e eu estava vestindo um impermeável amarelo por cima dos paramentos para a missa que lá celebrámos, como foi possivel, num pequeno palco fustigado pelo vento. Após a celebração um mestre de cerimônias disse-me que estava impressionado e até mesmo edificado porque os coroinhas, apesar da chuva, nunca tinham perdido o sorriso. Também havia sorriso nos rostos dos jovens, dos pais e das mães. Uma alegria verdadeira apesar da dor e do sofrimento daqueles que tinham perdido a casa e algum dos seus entes queridos “.

 Depois de uma viagem, o que acontece: como lembra as pessoas encontradas?

“Trago-as no meu coração, rezo por elas, rezo pelas situações dolorosas e difíceis com as quais tive contato.  Rezo também para que diminuam as desigualdades que vi”.

 Muitas viagens pelo mundo, quase nenhuma nos países da União Europeia. Por quê?

  • “O único país da União Europeia que visitei foi a Grécia, com a viagem de apenas cinco horas a Lesbos para encontrar  e confortar os refugiados, juntamente com os meus irmãos Bartolomeu de Constantinopla e Hyeronimos de Atenas (…).
  • Depois estive no Parlamento Europeu e no Conselho da Europa em Estrasburgo, mas essa foi uma visita a uma instituição, não a um país.
Mas de qualquer modo visitei outros países que são europeus embora não façam parte da União:
  • a Albânia
  • e a Bósnia Herzegovina.
Preferi dar prioridade aos países em que posso dar uma pequena ajuda, encorajar os que, apesar das dificuldades e conflitos, trabalham pela paz e pela unidade. Países que estão, ou estiveram em sérias dificuldades. Isso não significa não ter atenção para com a Europa que encorajo como posso a redescobrir e pôr em prática as suas raízes mais autênticas, os seus valores.
Estou convencido de que não serão as burocracias ou os instrumentos da alta finança que nos salvarão da crise atual e resolverão o problema da imigração,  que para os países da Europa é a maior emergância depois do fim da II Guerra Mundial”.

Entre as novidades das viagens papais há, imagino, um protocolo diferente a respeito da segurança. É assim?

“Eu estou grato à polícia e aos guardas suíços por terem-se adaptado ao meu estilo. Não consigo andar em carros blindados ou no papamóvel com os vidros à prova de balas fechados. Compreendo muito bem as exigências de segurança e sou grato a todos aqueles que, com dedicação e muito, realmente muito esforço, ficam perto de mim e vigiam durante as viagens.
Mas um bispo é um pastor, um pai, não podem existir muitas barreiras entre ele e as pessoas. Por esta razão eu disse desde o início que só viajaria se me fosse sempre possível o contato com as pessoas. Houve apreensão durante a primeira viagem ao Rio de Janeiro, mas percorri várias vezes a avenida  litorânea de Copacabana com papamóvel aberto, saudando os jovens, parando junto a eles, abraçando-os. Não houve nenhum incidente em toda o Rio de Janeiro, naqueles dias. É preciso acreditar e confiar.
Estou ciente dos riscos que se podem correr. Devo dizer que, talvez eu seja imprudente, mas não temo pela  minha pessoa. Mas estou sempre preocupado com a incolumidade de quem viaja comigo e sobretudo das  pessoas que  encontro nos vários países. O que me preocupa são os riscos concretos, as  ameaças para quem vem e participa de uma celebração ou de um encontro.
Há sempre o perigo de um gesto inconsulto de algum louco. Mas há sempre o Senhor “.

© 2017 Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano
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Andrea Tornielli 1

Andrea Tornielli
http://www.padrescasados.org/archives/53208/papa-francisco-a-tragedia-de-lampedusa-fez-me-sentir-o-dever-de-fazer-viagens/

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