sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Teologia de Papa Francisco

Bruno Scapin  –2017 
“Três ensaios que, movendo-se a partir de perspectivas diferentes e com métodos diferentes, oferecem uma significativa panorâmica da ‘teologia’ do Papa Francisco…, desmentindo as críticas, às vezes duras e preconceituosas, daqueles que o acusam de pouca profundidade doutrinal.” É o que se lê no fim do prefácio do livro Papa Francesco.


Quale teologia?, que reúne as contribuições de Alberto Cozzi, professor de teologia sistemática da Faculdade Teológica da Itália Setentrional, em Milão, de Roberto Repole, professor de teologia sistemática da Faculdade Teológica da Itália Setentrional (seção de Turim) e presidente da Associação Teológica Italiana, e de Giannino Piana, ex-professor de ética cristã das universidades de Urbino e de Turim e ex-presidente da Associação Teológica Italiana para o Estudo da Moral (Atism, na sigla em italiano).
A reportagem é de Bruno Scapin, publicada no sítio Settimana News, 22-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Cozzi reconhece no Papa Francisco um modo original de expressar a sua teologia, tanto na linguagem quanto no modo de argumentar. O lugar privilegiado da teologia bergogliana é o núcleo essencial do anúncio evangélico. Continua sendo central a figura de Jesus, que assumiu na Sua carne todo o humano. Por isso, o Papa Francisco gosta particularmente do mistério da encarnação do Filho de Deus.
Ao lado desse, os outros dois pilares da teologia do Papa Bergoglio são o mistério da cruz e o mistério trinitário. Neste último, dá-se uma ênfase especial à pessoa do Pai como fonte de toda a ternura e misericórdia, e ao Espírito Santo como artífice de imaginação e de novidade na vida da Igreja.
A teologia do Papa Francisco, na análise de Cozzi – afirma-se no prefácio –, “é uma teologia robusta, fortemente ancorada na tradição e ligada ao contexto latino-americano, mais interessada na ação pastoral do que na especulação teórica”.
Roberto Repole, na sua contribuição, ressalta a fidelidade do Papa Francisco à eclesiologia conciliar, da qual ele retoma com vigor algumas questões, tais como a Igreja “povo de Deus” e o sensus fidelium. Ênfases características do pontífice são a Igreja “em saída” e a Igreja que responde às urgências da sociedade de hoje, não se refugiando do mundo, mas encarnando, em particular nas “periferias existenciais”, o amor de Deus pelo ser humano.
Não devem ser esquecidas outras dimensões da eclesiologia bergogliana, como a centralidade das Igrejas locais e a reforma do papado e da Cúria em sentido sinodal. Bastam essas referências para entender como esse pontificado marca “uma nova e importante etapa na recepção do Concílio” (do prefácio).
A terceira contribuição é de Giannino Piana sobre um tema congênito a ele: “O magistério moral do Papa Francisco. Entre radicalidade e misericórdia”. É claro que o papa atual conjuga o ideal com a realidade, o dado objetivo com o dado subjetivo, mantendo-se distante tanto do rigorismo quanto do laxismo, e apontando, com a ajuda da graça, para o “bem possível”.
Ao mundo da economia, o Papa Bergoglio pede para não buscar o fetichismo do dinheiro e a lógica implacável do mercado, que geram exclusão e “desigualdade”. E, à política, ele pede a proteção dos direitos humanos, a busca do bem comum e a atenção a uma ecologia integral.
Não podia faltar, nas páginas de Giannino Piana, a discussão sobre os temas da família e da sexualidade, incluindo as “situações irregulares”. Aqui – de acordo com o teólogo – o pontífice mostra trazer no coração a beleza do ideal evangélico, conjugado, porém, de forma realista, sobre as diversidades subjetivas e situacionais.
Revela-se precioso, para interpretar os textos do Papa Francisco, o posfácio assinado pelo cardeal Ravasi. Ele ressalta como o pontífice ama o estilo homilético e a linguagem simbólica. O primeiro lhe permite aquela abordagem dialógica e imediata que cria uma relação envolvente com o ouvinte. A segunda (pensemos em algumas expressões como “Igreja hospital de campanha”, “cheiro das ovelhas”, “a máfia fede”…) permite-lhe esculpir em imagens bastante eficazes o conceito que pretende transmitir.
Um texto que faz justiça às reservas que até mesmo alguns eclesiásticos influentes manifestaram sobre a densidade e a ortodoxia da teologia do Papa Francisco.

  • Alberto Cozzi, Roberto Repole, Giannino Piana. Papa Francesco. Quale teologia? Assis: Cittadella Editrice, 2016, 210 páginas.

Bruno Scapin

http://www.padrescasados.org/archives/53735/a-teologia-de-papa-francisco/

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