terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Desejando casar-se, o padre Gréa escreveu aos seus paroquianos


 Marie Malzac – 19/02/2017 às 15:57
O emblemático padre de Lyon explica numa carta lida na missa de domingo, 19 de fevereiro, que vai tirar um “tempo  de retiro e de discernimento”,  a pedido do arcebispo de Lyon, Cardeal Philippe Barbarin, a quem tinha confiado as suas dúvidas sobre o celibato sacerdotal.
“Eu comecei a construir um relacionamento com uma mulher com a qual penso que Deus me chama a viver” – explica o padre Gréa nesta carta.




“Eu desejei estar de verdade com a Igreja, dizendo da minha alegria de ser sacerdote e do meu desejo de me casar”. É o que afirma o pároco da igreja Lyon Centre Sainte-Blandine, o padre David Gréa, bem conhecido localmente e alhures, em uma carta lida ontem na missa pelo vigário geral da diocese, o padre Patrick Rollin, para explicar a sua ausência.
Com efeito, o padre Gréa, depois de ter externado suas dúvidas quanto ao celibato sacerdotal ao cardeal Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, tirou, a pedido deste, um tempo para um “discernimento e reconsideração” e deixou a paróquia onde foi pároco durante seis anos.
Nesta carta, divulgada neste domingo no site da diocese de Lyon, o padre Gréa diz estar “feliz como padre” e “convencido ter sido chamado por Deus para este belo ministério”. No entanto – continua ele – “há algum tempo, comecei a construir um relacionamento com uma mulher com a qual penso que Deus me chama a viver. Descobri uma alegria inesperada que me parece em continuidade com o que tenho vivido até agora, dedicando-me de corpo e alma ao vosso serviço”.
 Pe. David Gréa com Francisco
Encontro com o Papa
Uma vez informado o Arcebispo, “a ideia de um diálogo com o papa” foi aventada. “Este encontro cara a cara tornou-se possível. Ele ouviu-me com benevolência e mostrou apreço pela minha atitude de integridade” – revela o padre Gréa. Após esta conversa, o papa e o cardeal conversaram e foi nesse momento que ocorreu a decisão de dispensar o padre das suas funções.
“É uma tristeza para mim não poder terminar o ano com vocês e imagino que vocês a compartilhem –  escreve o jovem padre. – Eu gostaria de falar com vocês de viva voz, hoje, como o fiz todos os domingos”.
O capelão da Universidade Católica de Lyon, o padre Arnaud Alibert, assuncionista, assumirá interinamente, e um novo pároco será nomeado em setembro. O cardeal Barbarin irá se reunir com os paroquianos e celebrar a missa com eles no dia 5 de março – informou um comunicado da diocese.
“Muitos confrades sacerdotes estão abalados. É um terremoto porque o cardeal Barbarin tinha-se apoiado muito no padre David para revitalizar a Igreja, com grande sucesso” – disse um deles, citado por ‘Le Progrès’, o diário local.
L’église Sainte-Blandine, à Lyon.
 Na Foto: A igreja Sainte-Blandine em Lyon. / Jean-Philippe Ksiazek / AFP

“A paróquia de amanhã”
O padre Gréa é muito conhecido em toda a França por ter criado missas com uma forte ênfase no louvor, graças à sua colaboração com o grupo de louvor-pop Glorious. Nomeado em 2011 para dirigir a paróquia Lyon- Centre recém-criada, e cujo “QG” se tornou rapidamente a igreja Sainte-Blandine, o padre Gréa viu a frequência dos locais crescer graças às suas numerosas iniciativas. “É ali que se inventa a paróquia de amanhã”– assegurava aquele de quem todo mundo elogia a capacidade de delegar e de desenvolver projetos originais.

Este padre originário da região do Jura, autor de uma tese de teologia sobre o cardeal Newman, também era o responsável pelas relações ecumênicas da diocese.


Marie Malzac
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http://www.padrescasados.org/archives/54562/desejando-casar-se-o-padre-grea-escreveu-aos-seus-paroquianos/

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Carta do padre Gréa aos seus paroquianos


Queridos irmãos e irmãs da igreja Lyon-Centre Ste Blandine,

Por quase seis anos, vivo com vocês uma grande felicidade. Juntos, nós procurámos pacientemente como viver e anunciar a fé segundo o que Deus esperava de nós neste lugar e neste tempo. Colocámos o louvor a Deus no centro da nossa igreja, procurando adotar uma linguagem acessível e pertinente para transformar os nossos corações e as nossas semanas. Assim, permitimos a muitas pessoas voltar à Igreja e achar-se bem nela, ouvir o Evangelho de uma maneira nova e encontrar-se renovados por ele. Nós desenvolvemos um louvor vivo, os ‘parcours Alpha’1  e numerosas iniciativas, especialmente um bom acolhimento e laços fraternos maravilhosos.  Vivi com vocês os meus mais belos anos de ministério, e dou graças a Deus por todos estes belos momentos, ao mesmo tempo em que vos agradeço do fundo do coração.
Feliz como padre, estou convencido de ter sido chamado por Deus para este belo ministério. Há algum tempo, comecei a construir um relacionamento com uma mulher com a qual penso que Deus me chama a viver. Descobri uma alegria inesperada que parece em continuidade com o que vivi até agora, dedicando-me de corpo e alma ao vosso serviço. Eu desejei estar de verdade com a Igreja, dizendo da minha alegria de ser padre e do meu desejo de me casar.
Portanto informei o cardeal e discutimos a ideia de uma conversa com o papa. Este encontro cara a cara tornou-se possível. Ele ouviu-me com benevolência e mostrou apreço pela minha atitude de integridade. Em seguida, o Papa e monsenhor Barbarin conversaram e nosso bispo pediu-me para tirar um tempo para discernimento e reconsideração. É uma tristeza para mim não poder terminar o ano com vocês e imagino que vocês a compartilham.
Eu gostaria de vos falar hoje, de viva voz, como o tenho feito todos os domingos. Sou testemunha do vosso amor por Deus e sei que vocês procuram colocar Jesus no coração da sua vida. Eu vi a nossa comunidade crescer em número, mas sobretudo na fé, mudar de atitude e se empenhar  na oração e no serviço. Vi cristãos se tornarem verdadeiramente adultos na fé. É por isso que eu quero dizer-vos da minha admiração e da minha gratidão, em particular pelo engajamento fiel de muitos de vocês. Dou graças a Deus pela obra que Ele realizou durante anos em Saint Blandine. Eu confio que Deus acompanhará a equipe que lidera a igreja, e o padre Arnaud, um amigo que me é caro, e que aceitou, com o consentimento do seu superior, ficar mais disponível até o verão. Eu oro pela nossa igreja, lembrando-me destas palavras que nós ouvimos em cada missa: “Na verdade é justo e bom te glorificar, te  oferecer a nossa ação de graças sempre e em todos lugares”.

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