quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

“Não somos a polícia do sagrado, fazemos renascer as comunidades”


 Andrea Tornielli -02/2017
Tradução: Orlando Almeida
Foto: O bispo de Alessandria Guido Gallese
A viagem para conhecer os novos pastores italianos: Guido Gallese de Alessandria, que institucionalizou a presença de leigos e mulheres entre os conselheiros do bispo.
“Este é um momento realmente fácil para evangelizar”


Quando Bento XVI em outubro de 2012 o nomeou pastor de Alessandria, Guido Gallese, com os seus cinquenta anos, era o mais jovem dos bispos italianos. Genovês de nascimento, padre da diocese de Gênova, empenhado no acompanhamento aos escoteiros, procurou na sua nova diocese promover os leigos para colocar em prática os ensinamentos contidos na exortação Evangelii Gaudium.
O bispo Galllese diz, referindo-se aos tempos que vivemos, palavras que soam distantes das abordagens dos “profetas da desventura”: “Este é um momento realmente fácil para evangelizar. Os jovens de hoje não têm ideologias, estão prontos … Nós é que falhamos ao anunciar o Evangelho”. Vamos encontrá-lo em seu escritório. Dobrada sobre a mesa, uma pequena estola roxa, pronta para o caso de o visitante sentir necessidade de confessar-se.

Como foram estes primeiros anos como bispo?
“Uma experiência maravilhosa e ao mesmo tempo uma crucifixão. Nunca tive um ministério mais ingrato na minha vida. Mas a experiência é belíssima, porque o que me faz continuar é saber que foi o Senhor que me quis aqui. E isso dá força, mesmo se as coisas não saem como eu esperaria. É um trabalho tão profundo que, antes que dê frutos, vai passar muito tempo. É o ministério do agricultor. Os frutos não dependem só de nós”.
O bispo de Alessandria Guido Gallese fazendo “selfie”

Quais os principais problemas que encontrou?
“O trabalho consiste basicamente nisto: fazer com que a Igreja seja constituída por comunidades cristãs verdadeiras. Sobre isto precisei pensar muitíssimo. Às vezes parece-me que nas paróquias faltam elementos essenciais e constitutivas da comunidade cristã tal como é descrita para nós no Novo Testamento. Acontece-me encontrar pessoas com problemas e chego à conclusão que só poderiam ser ajudadas por uma comunidade. Quando pergunto: você tem um lugar onde possa compartilhar este problema de que me fala? Muitas vezes, respondem que não. E nisto a dificuldade maior é a dos sacerdotes, que são na Igreja de hoje as pessoas mais feridas de todas”.

Porque o senhor define os padres como as “pessoas mais feridas”?
“Preguei há poucos dias um retiro para leigos e fizemos um pouco de partilha. Uns falaram do seu serviço na paróquia, que às vezes é decepcionante, desencorajador, dá a sensação de não deixar marca, de não afetar [as pessoas]. Outro notou como por vezes descobrimos fora das paróquias pessoas melhores do que as que estão dentro, ou ministros da Igreja com traços humanos carentes ou pouco sociáveis. Eu respondi assim: veja, você presta serviço na igreja, e ficamos gratos, mas tem uma esposa que o ama, uma filha, um emprego.
Você, louvavelmente, ajuda no serviço da paróquia, e volta desanimado. Imagine uma pessoa que dedicou toda a sua vida a Jesus Cristo, que quis colocar-se ao seu serviço, que para isso sacrificou até a sua afetividade, e depois de executar o seu serviço experimenta esses seus mesmos sentimentos. Mas não volta para casa e pensa: bem, tenho a minha mulher e os meus filhos; ele não tem outro trabalho em que em que tenha sucesso. É uma espécie de falência.
Ou se chega ao ápice da espiritualidade, ao estilo do cura d’Ars, e se passa por essas experiências com uma fé de louco, ou se  corre o risco de ficar pouco sociável
e de mostrar traços pouco agradáveis ​​no próprio ministério, e é necessário compensar de alguma forma,  não se consegue controlar psicologicamente”.

Foram os padres que mudaram ou foi a sociedade?
“Hoje o padre é realmente na Igreja a figura que carrega o maior peso, numa época em que tivemos uma grande mudança: antes havia, por assim dizer, uma cultura “monomarca”, homogênea, ao estilo católico, na qual estavam os mais quentes e os mais mornos, mas tínhamos quatro regras comuns e seguíamos adiante juntos. Agora com essas quatro regras não se chega a lugar algum. Vivemos num mundo multicultural, multi-religioso, multi … tudo.
Terminou a época das  quatro regras comuns que na verdade eram mais regras para ser bons cidadãos do que para ser  bons cristãos. Quantas confissões eu ouvi de pessoas que me diziam: padre, sou um bom cristão,
  • não mato,
  • não roubo,
  • não traio minha mulher;
como se o cristianismo se reduzisse a isso. No trabalho da mudança o eixo é exatamente o sacerdote, que é como a dobradiça da porta, deve suportar o movimento mas é também o ponto fraco”.

O senhor insiste nas comunidades cristãs. Como se fazem nascer? Não se deve contar também com os leigos?
“Certamente sim. Devemos mudar mesmo nossa mentalidade. Muitas entidades da nossa Igreja carecem dos elementos característicos e fundamentais de uma comunidade cristã, tais como os lemos no Novo Testamento. Que seja necessário contar com os leigos é mais que evidente. Uma coisa é que certas coisas te sejam ditas por um padre, outra é que te sejam ditas por um leigo, com a qual te identificas. Como vice-pároco em Gênova eu dava um curso preparatório para o casamento que era sempre precedido por três serões bíblicos.
Quando o bispo me transferiu, eu disse aos meus colaboradores leigos: olhem, vocês vão ter de fazer tudo, até mesmo a parte bíblica. E uma delas disse: “Você ficou maluco! Nós não estudámos teologia!”. Eu respondi: Estou convencido de que o Espírito vos dará palavras … Então eles começaram, e no final do primeiro curso os noivos perguntaram: “Será que poderíamos continuar a ver-nos?  Gostámos especialmente das explicações do Evangelho e da Bíblia”. O problema não está só no clero, mas também nos leigos, porque se nós  pedimos certas coisas, os leigos respondem: você está maluco!”.

O que o senhor fez em Alessandria para envolver os leigos?

“Eu coloquei um professor aposentado de filosofia, muito bom com os alunos, no secretariado das escolas. Depois nomeei para a pastoral dos jovens uma senhorita, a primeira (na Itália) diretora mulher, e não freira,  à frente de um secretariado para os jovens e as vocações. Nas comunicações sociais coloquei um jovem de 33 anos.
Quando o Papa escreveu Evangelii Gaudium, impressionaram-me as suas palavras sobre leigos e mulheres que deveriam estar também onde se tomam decisões importantes da Igreja. Pensei nisso e rezei muito e assim, dois anos atrás, escrevi uma carta ao Papa para lhe perguntar o que ele achava da ideia de incluir leigos e mulheres  no conselho do bispo, um lugar clerical por excelência. Perguntei ao Papa Francisco que  ele pensaria se eu incluísse uma freira, um leigo e uma leiga além do costumeiro grupo de consultores padres”.

O que respondeu o Papa?
“Não tive coragem de mandar a carta, guardei-a na bolsa por três meses, então um dia eu fui a Roma para um encontro de espiritualidade escoteira  e a Missa de encerramento foi dentro do Vaticano, na igreja de Santo Estêvão dos Abissínios, a poucos passos de Santa Marta. Saindo  da missa, passei e deixei o envelope para o Papa. Naquela mesma noite, enquanto eu estava voltando para Alessandria, de carro, recebi o telefonema do papa Francisco.
Que me disse: “Li a sua carta, vá em frente. O importante é que você deixe ao colégio dos consultores as suas prerrogativas, de acordo com o Código de Direito Canônico”. Mas não foi fácil, foi preciso tempo.
Após cerca de um ano, consegui e instituí com um decreto esta nova figura jurídica, o “conselho diocesano permanente” que é um lugar muito bom de envolvimento dos leigos. A sua função é aconselhar o bispo e, além de todos os sacerdotes consultores,  há no mesmo nível uma freira, um leigo e uma leiga. Estou satisfeito com a escolha, confio muito neles. Funciona e além disso faz bem.
Para a pastoral da juventude e das vocação escolhi uma senhotrita de trinta anos. Devo dizer que tem uma forma diferente de agir, tem uma abordagem interessante, mesmo quanto ao tema das vocações. É uma abordagem diferente da nossa, é inteligente e acima de tudo é apaixonada! Com aquela paixão que às vezes é difícil de encontrar entre nós, sacerdotes”.

Como se anuncia o evangelho às jovens gerações pós-cristãs?
“O que toca o coração de um jovem? O encontro com uma comunidade, quando alguém vê e diz: olha como estes se querem bem! Foi o critério seguido desde o início pela Igreja. “Nisto saberão que sois meus amigos, se tiverdes amor uns pelos outros”, disse Jesus. Assim, a comunidade é realmente o ponto que atrai, ver as pessoas que dão um testemunho belo, alegre, que também sabem divertir-se, que fazem uma experiência fascinante. A vida cristã atrai. E este é um tempo muito fácil para evangelizar. Não sei se houve um momento tão fácil como o que vivemos agora. Na minha vida certamente não, porque os jovens de hoje não têm ideologias, estão … prontos.
Somos nós que  falhamos em anunciar o Evangelho. Lembro a experiência vivida durante o Jubileu, com uma viagem a Roma,  de alunos das escolas, dois ônibus cheios de estudantes que acompanhámos. Antes eles tinham uma atitude de suficiência, depois  envolveram-se  quando o Papa chegou para a audiência. No fim celebrei uma missa de encerramento e se alguém não quisesse participar, não iria. Todos estavam presentes. Com um silêncio e um respeito; fiquei impressionado. Mas quem o teria pensado! No meu tempo não teria sido assim”.

Como foi recebida na sua diocese a exortação sobre a família e o matrimônio, Amoris Laetitia? Houve dificuldades para aplicá-la?
“Se por recebida pretende referir-se à disciplina sacramental, já vivíamos na selva antes do documento, portanto não se nota diferença …”

Talvez seja uma oportunidade para lançar luz sobre o que o senhor chama “selva”?
“Digo isto: nós ficámos reduzimos a ser a polícia do sagrado, e não é exatamente o nosso papel como pastores. Nisto concordo plenamente com o Papa, porque sinto, sempre me senti num papel errado ao bancar  o policial do sagrado. Atenção, sempre observei literalmente o ensinamento da Igreja, e também tive a experiência de que, quando se acompanham as pessoas e se explica bem as coisas, elas entendem. Dito isto, no entanto, também estou convencido de que não podemos colocar todos os nossos esforços em aplicar as regras quando na verdade falta o coração. Aquele coração que deveria orientar para o respeito às regras.
Perdemos o coração, a essência. É preciso amadurecer sobre muitas coisas… Pensemos no padrinho e na madrinha: quem deles faz hoje é o que seria previsto, ou seja, um acompanhamento espiritual? Um em mil?  E nós estamos aí a fazer guerras nas trincheiras, afastando pessoas de Cristo por um princípio, quando este princípio é um fim a si mesmo, porque ninguém realmente faz o papel de padrinho e madrinha, mesmo aqueles que estão em condições de fazê-lo”.

E como se recupera?
“Antes de tudo fazendo perguntas a nós mesmos. Isto é verdadeiramente pastoral? Devemos perguntar-nos se faz sentido ter instituído padrinhos e madrinhas, e ter conflitos com as pessoas, em vez de usar o mesmo espaço para um encontro e uma aproximação a Cristo. A mim interessa muito que se aprenda a amar, e vendo como está a situação, parece-me que temos ideias muito disformes e que é difícil ter uma disciplina comum. O problema é primeiro reconstruir o senso de comunidade, depois virá a exigência de uma disciplina comum”.

Em comparação com trinta anos atrás, a família hoje mudou profundamente e mostra-se decididamente em crise. Amoris Laetitia indica o discernimento caso a caso…
“Sim, é preciso sempre ver cada caso… as situações da vida são diferentes, ao padre pede-se um grande trabalho para discernir. Mas a verdadeira implementação de Amoris Laetitia para mim é o curso para operadores a serviço das famílias feridas que instituímos, no âmbito da renovação do processo matrimonial. Decidi criar o tribunal diocesano para as causas de nulidade, com previsto pelo motu proprio do Papa e preparámos os operadores.
Sinto a necessidade de estar perto do povo de Deus neste processo; para mim o tribunal regional estava sempre muito distante, não do ponto de vista quilométrico mas pastoral. Este trabalho de atenção às famílias feridas é importante porque cria um clima no qual depois se chega também a detalhar com mais clareza, e com partilha verdadeira, as normas, em profundidade, para uma disciplina comum, embora na diversidade dos casos da  vida”.

Como a Igreja italiana está recebendo, na sua opinião, o Magistério do Papa Francisco?
“O Papa tem um estilo que às vezes nos coloca um pouco em dificuldade. A categoria, sobre a qual se sentiu menos a misericórdia, é a dos pastores. Os bispos ficam às vezes com problemas porque as pessoas acham exemplos muito belos no Papa mas por vezes a mensagem que é apresentada pela mídia é diferente do que Francisco realmente disse. Não vejo oposição ou resistência ao Papa. Certamente sempre houve uma atitude crítica em relação ao Papa, nunca vi na Igreja serem tomadas ao pé da letra as palavras do Papa, mas não só de Francisco: não vi isso com João Paulo II, nem com Bento XVI.
Em última análise, é até saudável que se faça um pouco de avaliação crítica do que é dito e também  é saudável que neste contexto dialético se chegue  uma profunda adesão ao magistério do Bispo de Roma. Francisco pede uma mudança interior de abordagem e de mentalidade, e dá por suposto e adquirido um estilo de Igreja que não existe nas nossas comunidades. Eu, que concordo totalmente com o Papa Francisco, não nego que depois concretamente me tenho visto em apuros”.

Pode dar um exemplo?
“Eu disse, como o Papa está sendo entendido pelas pessoas. As pessoas percebem alguns traços realmente evangélicos: às vezes escuto Francisco pregando e dentro de mim digo que este é realmente o Evangelho! Como ecoa a palavra de Jesus, sinto que ele está em sintonia. Diz coisas verdadeiramente evangélicas, que não são fáceis de viver onde falta a comunidade. É como falar de futebol, de estratégias e de esquemas de ataque para alguém que não sabe parar uma bola.
Nós não estamos preparados sobre certos aspectos … mais humanos. Não temos uma Igreja baseada nas relações humanas, ao passo que somos bons na organização. Um exemplo é este: passa-se uma certa mensagem que as pessoas percebem como um “todos livres”: você pode fazer sempre a comunhão como quiser e quando quiser… E então nós nos  encontramos  em dificuldade, e se se corrige uma interpretação errada passa-se por ser ruim”.

Na conferência de Florença Francisco pediu que se trabalhe sobre a Evangelii gaudium, mas já se tinham passado dois anos desde a publicação do documento. Como o senhor leu aquelas palavras?

“Eu sei que alguns viram isso como uma repreensão à Igreja italiana. Eu não entendi assim. Como sou alérgico a muitos documentos, pareceu-me que o Papa nos dizia: olhem que Evangelii gaudium continua sendo um texto programático, continua a ser esta a referência, o background, o estilo de fundo, a ambientação de todo o resto. Então, não me pareceu uma censura. Quando o ouvi fiquei contente”.

Andrea Tornielli 1

Andrea Tornielli

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