quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Quem era a serpente do Paraíso? (3)


Ainda na continuação do livro de Ariel Álvarez, com a pergunta acima e mais 19 sobre a Bíblia.
1. “Como é que Jesus fazia os seus milagres?” “Nenhum historiador sério duvida de que Jesus realizava obras prodigiosas.” Fez coisas admiráveis a favor das pessoas, nas quais os seus seguidores viram o sinal de Deus.
Mas não fez milagres no sentido estrito da palavra, isto é, suspendendo as leis da natureza. Crer neste tipo de milagres significa ou implica ateísmo, pois supõe-se que Deus está fora do mundo e, de vez em quando, vem dentro, a favor de uns e não de outros. Porque tudo é milagre – o milagre do ser e de se ser -, não há milagres.


Sobre os milagres, pense-se na observação, com lucidez cáustica, de Pascal, um dos maiores cristãos europeus de sempre. Quando um amigo chegou, com a roupa rota e cheio de feridas, contando o milagre que Deus acabava de fazer-lhe - “O cavalo resvalou por uma ravina, eu caí e, imagina, parei precisamente à beira do abismo” -, Pascal, pensativo, respondeu: “E a mim? Que milagre Deus me fez, porque nem sequer caí do cavalo!”
2. “Jesus Cristo era sacerdote?” “Os sacerdotes da Igreja Católica sustentam que o são como Jesus Cristo. Mas donde tiram a ideia de que ele era sacerdote? Nos Evangelhos isso nunca se diz. Os únicos sacerdotes que se menciona são os do Templo de Jerusalém.”
Embora com escândalo de muitos, deve dizer-se que Jesus era leigo e não reconhecido como sacerdote, pela simples razão de que não pertencia à tribo de Levi. E enfrentou os sacerdotes do Templo, onde oficiavam mais de oito mil. A Carta aos Hebreus diz que Jesus é sacerdote, mas de outra ordem, oferecendo–se a si mesmo a Deus para salvar a vida das pessoas.
“Cada um é sacerdote da sua própria vida, da sua própria existência, que livremente deve oferecer a Deus, vivendo de acordo com a sua vontade”, que já não tem que ver com a prática de ritos, mas com a transformação do mundo, na prática da justiça e do amor. Neste sentido, todos os baptizados são sacerdotes. “Depois, e para organizar melhor as tarefas na Igreja, alguns podem tornar-se ministros (presbíteros) e outros trabalhar mais directamente no mundo (leigos).”
3. “Eram doze os apóstolos de Jesus?” Não. De facto, os apóstolos são mais do que “os Doze”: Paulo e Barnabé, Silvano e Timóteo e até uma mulher – Júnia – têm o título de apóstolos.
4. “Como foi a conversão de São Paulo?” Não pode ser tomada à letra toda aquela descrição da queda do cavalo, diálogo com Jesus, cegueira, que apenas quer significar a importância do acontecimento. Todas as grandes experiências são interiores. “Também Paulo, em certo momento da sua vida, experienciou um encontro íntimo e especial com Jesus, que o levou a abandonar tudo e a centrar a sua existência unicamente em Cristo ressuscitado.” Foi uma iluminação interior tão intensa que, de perseguidor, Paulo se tornou apóstolo, fazendo mais de 20 mil quilómetros para anunciar o Evangelho.
5. “Morreu ou não morreu a Virgem Maria?” A pergunta levantou–se porque se em certos passos da Bíblia se diz que a morte entrou no mundo por causa do pecado, então Maria não deveria morrer, uma vez que não cometeu pecado. Chegou a afirmar-se, até não há muito tempo, que sem o pecado original não haveria morte.
É evidente que toda esta doutrina do pecado original precisa de ser revista, atendendo não só ao facto de no Génesis, como vimos, não constar esse pecado, mas sobretudo devido ao facto da evolução. Como é que os primeiros homens na sua imensa fragilidade – quem foram os primeiros? – poderiam ter tido um acto de liberdade tal que dele derivaram todos os males, incluindo a morte? De facto, com pecado ou sem pecado, a biologia manteve-se “inalterável”.
6. “Quando se cumprirão as profecias do Apocalipse?” Quem nunca viu um filme referente ao Apocalipse? Quem nunca ouviu falar da besta, do dragão, da mulher do Apocalipse, do número 666? Quando se quer aludir a catástrofes, horrores, guerras, fim do mundo, lá vem o adjectivo tenebroso “apocalíptico”.
Depois, lá estão os números e os seus enigmas. Para a sua interpretação, ficam aí algumas indicações:
  • 3 é um número perfeito e o número de Deus;
  • assim, 3+4=7, sendo o 4 a indicação dos pontos cardeais,
  • ou 3×4=12, para simbolizar a plenitude (os dias da criação ou a aliança de Deus com as 12 tribos);
  • os 144 000 assinalados são o múltiplo de 3x4x12x1000 – 1000 é o símbolo da universalidade – e simbolizam o novo povo de Deus.
Em sentido contrário, como explica o padre Carreira das Neves,
  • a metade destes números só pode significar o não-tempo de Deus e a sua não–aliança, como é o caso de três e meio e de seis.
  • Assim, 666 é o número da besta, um símbolo numérico do nome e título de Domiciano como imperador, perseguidor dos cristãos.
É decisivo compreender que o livro do Apocalipse tem o sentido exactamente contrário do vulgarizado.
  • Escrito pelo ano 95, quando os cristãos atravessavam “dois problemas muito graves” - a ruptura com o judaísmo e a perseguição desencadeada pelo Império Romano -,
  • quer animá-los, dando–lhes confiança, esperança: Deus e o seu Cristo triunfarão.
  • Portanto, o livro do Apocalipse é tudo menos “apocalíptico” no sentido vulgar do termo.
7. É no calvário da existência que se percebe a força do Apocalipse. No romance de Shusaku Endo, Silêncio, sobre a perseguição brutal, arrasadora, dos cristãos japoneses no século XVII, quando Deus parece ausente num silêncio obstinado, o padre jesuíta Rodrigues duvida de Deus e chega a perguntar se não foi ao… Nada que andou a rezar. “E se, por absurdo, Deus não existisse? Hipótese aterradora”: que drama absurdo seriam as existências de quem sofreu os horrores da vida, da morte, do martírio. Exige-se moralmente que Deus exista.
O Apocalipse, último livro da Bíblia, termina com um clamor: “Vem, Senhor Jesus!
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Anselmo Borges
http://www.padrescasados.org/archives/53956/quem-era-a-serpente-do-paraiso-3/

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