sexta-feira, 24 de março de 2017

Entrevista de João Tavares a Evelin Azevedo – Jornal Extra/Globo

João Tavares -21/03/2017 – 
Resultado de imagem para Padres casadosFoto: Francisco visita padres casados em Roma – Oss. Romano. Outras fotos: MFPC
Evelin Machado, do Jornal Extra/Globo, procurou o MFPC para uma Entrevista sobre a presença de um padre que, na novela Sol Nascente,  se apaixona e deixa o ministério. Queria saber o nosso parecer sobre o assunto e fazer perguntas sobre a experiência de um padre casado na realidade. Fui encarregado pela Diretoria Nacional, na qualidade de “Secretário” de Comunicação, de responder.
Elaborei e enviei as respostas, a perguntas feitas por ele, por escrito, tática que, por precaução, dada a dificuldade  e especificidade do tema,  venho usando há tempos.


Depois, por motivos de falha no “timing” da correspondência, o artigo saiu sem ela poder aproveitar a Entrevista. Publico-a, como tínhamos combinado, após a publicação do artigo dela, que insiro após a Entrevista - João Tavares – Editor

Eis a Entrevista:

Evelin- Para o senhor, que passou pela experiência de deixar de ser padre, qual é a importância de uma situação dessas ser retratada numa novela?
 R/ Antes de mais nada, Evelin, um esclarecimento: eu não deixei de ser padre. Eu sou padre casado. Deixei o ministério, porque casei e a Igreja ainda não permite que padre que casa continue no exercício do ministério. E como eu, cerca de 150.000 no mundo inteiro, cerca de 1/3 do clero da ativa.
Não estou seguindo a novela Sol Nascente. A importância ou não de uma situação dessas ser tratada numa novela, depende de como, com que objetivo, com que espírito, sensibilidade e competência, vai ser tratada. Não é um tema fácil, mas pode ser feito um bom trabalho se houver boa assessoria e capacidade de aprofundar o tema.
Falando genericamente, não tenho nada contra que numa novela se fale desse tema. Pode até ser uma boa oportunidade para aumentar a discussão sobre se seria melhor que os padres continuassem com o celibato obrigatório ou, pelo contrário, se  não seria melhor que o celibato fosse opcional. É um tema e tanto e acho, sinceramente, que o povo brasileiro, como também de outros países, está aberto a essa discussão. Sobretudo devido às tantas notícias tristes da pedofilia do clero e da já ampla porção de padres homossexuais. 

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XXI Encontro Nacional do Movimento das Famílias dos Padres casados – MFPC – Brasília, 18-22 jan 2017
- Quando foi que o senhor decidiu seguir a vocação para ser padre? Quantos anos o senhor tinha? Como foi? Sua família o apoiou?
 R/ Terminei o primário com dez anos, era um garoto esperto e todos diziam que eu devia continuar os estudos. Mas naquele tempo era quase impossível, pelos custos. E não havia escola média pública por perto. Um ano depois surgiu a oportunidade de estudar no Seminário. Fui, gostei e fiquei. Tinha 11 anos. Minha família me apoiou: sabiam que eu ia ser um bom aluno e queriam me ver formado. Como padre ou em qualquer outra coisa. Mas logo se aperceberam que eu estava gostando da ideia de ser padre e sempre me apoiaram. Era gente de fé simples e sólida. E ambos sabiam ler, coisa rara naquele tempo. 
- Por quanto tempo o senhor desempenhou suas funções como padre? Chegou a liderar alguma igreja? 
R/ Por 11 anos. Era de uma Congregação missionária e, logo após a ordenação, vim da Europa para a diocese de Balsas, no sul do Maranhão. Sem asfalto, sem luz, sem telefone, sem água encanada. As viagens pelo interior eram a cavalo. Depois começamos a andar de jipe. Trabalhei em três paróquias diferentes, no meio de um povo pobre, mas não miserável. Havia uma pobreza digna e nós, na metodologia pastoral das CEBS (Comunidades eclesiais de base), procurávamos, evangelizar, catequizar, formar lideranças cristãs e sociais e lhes dar noção clara de seus direitos como pessoas e como cidadãos. Para começarem a ser donos de sua vida e da sua história.
Mais tarde, já em São Luís, liderei outras duas Paróquias, uma na área rural outra na capital. 
Bahia 2016
Confraternização de padres casados do grupo da Bahia

- Quando foi que o senhor decidiu não seguir mais a vida como padre? Quantos anos o senhor tinha? Teve alguma situação ou episódio que foi determinante para o senhor tomar essa decisão? 
- Nunca foi minha vontade deixar o ministério sacerdotal. Estudei logos anos e me sentia bem preparado. Mas devido a problemas de relacionamento e a não querer continuar a me sentir objeto, coisa, nas mãos do bispo e dos superiores religiosos, habituados a usar as pessoas e, depois, a descartá-las, quando a um certo momento vi que, para meu equilíbrio humano, era melhor (mesmo com muita pena, pois sempre gostei muito da vocação sacerdotal e sempre tentei ser um padre digno e eficiente),  assumir a minha vida fora do exercício do ministério sacerdotal.
Fui formado durante o Concílio Vaticano II e sempre dei muita importância à pessoa humana como condutora da sua história, não objeto nas mãos de quem quer que seja. Minha visão de Igreja, de trabalho pastoral e de relacionamento com as autoridades e os poucos ricos da cidade, também eram diferentes. Isso levou a choques e a isolamento psicológico.
O início da crise se deu quando eu tinha 32 anos e, sem me consultarem, me destinaram à Europa, depois de 5 anos de Brasil. Me senti profundamente desrespeitado, mesmo traído, um ser descartável. E senti que a Congregação, na qual vivia há cerca de 20 anos não era mais um chão seguro e confiável para mim. Tentei superar, fiz análise psicológica por alguns meses, viajei bastante, me aconselhei com amigos e amigas, mas não me foi possível reconstituir mais a confiança básica, indispensável para me lançar de alma e corpo no trabalho pastoral.
Foi aí que eu, que não acho bom ser masoquista, vendo como as pessoas eram tratadas quando tinham algum problema, e sabendo que Deus me criou para eu ser uma pessoa realizada e feliz, comecei a pensar em possíveis alternativas, antes de virar uma pessoa destruída, um resto de gente.  
Sempre fui aberto a sadias amizades masculinas e femininas e nunca tive problemas especiais para a vida celibatária: tínhamos tido uma boa formação humana, intelectual e espiritual. Isso o devo à Congregação. Apesar de eu ter saído, continuamos amigos.
Validei meu curso de Filosofia da Europa aqui no Brasil: assim poderia procurar um trabalho a meu nível intelectual. E, dentre vária boas amizades femininas que eu cultivava, não ia ser difícil encontrar uma para, se assim o resolvesse, pensar em casamento.
Depois de um ano na Europa, desanimado com os horizontes pequenos e acanhados da Igreja em Portugal, de pura manutenção do status quo, onde tudo estava feito, voltei para o Brasil no fim de 1977, agora incardinado na diocese de S. Luís, disposto a continuar no ministério, mas também a procurar um trabalho para garantir o meu sustento e, se e quando resolvesse, o sustento de uma eventual família.
Se o relacionamento não era fácil na Congregação religiosa e missionária, muito mais difícil era na diocese, onde, infelizmente, cada um cuida de si.  
E foi assim que, um ano depois, resolvi casar. Foi uma longa, sofrida e honesta busca. Eu estava com 38 anos 
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Confraternização de Padres casados de Florianópolis 

- O senhor considera que deixar de ser padre foi uma decisão difícil? Como sua família reagiu? 
R/ Foi, sim uma decisão bem difícil, pois não se passa 15 anos no seminário e mais 11 anos no ministério à toa. E sempre procurei levar a vida a sério e ser autêntico. Minha família sofreu com a notícia, mas compreendeu e me apoiou muito. 
- Como foi a reação dos seus amigos e dos fieis quando o senhor decidiu não ser mais padre? 
R/ O mesmo posso dizer dos amigos. Consultei-me com bastantes deles e delas, e, na quase totalidade, tive compreensão e apoio. Se bem que vários lamentaram minha saída, pois me apreciavam como homem, amigo e padre. 
- O senhor ainda é casado? Como o senhor conheceu sua esposa? Namoraram por muito tempo? Vocês tiveram filhos? Quantos anos eles têm hoje? 
Sim continuo casado. Conheci minha esposa antes de ir para a Europa, pela segunda vez e contra a vontade. Houve uma grande atração recíproca, mas eu não lhe podia prometer nada, pois não sabia se ia voltar e também não tinha resolvido nada quanto a deixar ou não o ministério. Portanto, deixei-a totalmente livre. Ela resolveu esperar um ano e, na volta, continuamos a conversa, mas sem compromisso algum. Quase um ano depois, eu disse-lhe que estava pronto para casar.
Posso dizer que dei tempo ao tempo. Ela arriscou esperar… e deu certo.
Temos duas filhas de 32 e 33 anos. E uma neta de 10.

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TV entrevista Antônio Evangelista,  Presidente do MFPC, e Família – Jan 2017

- O senhor continua com atividades na igreja? Se sim, trabalha com o que?
R/ Quando casamos, já éramos professores da Escola Técnica Federal e Universidade Federal, área de Filosofia. Entramos no Movimento das Famílias dos Padres Casados – MFPC, onde sempre fomos e somos bastante ativos, agora também a nível nacional, latino-americano e internacional. Hoje, aposentados, eu dirijo o Site www.padrescasados.org e o Setor de comunicação do  MFPC. Ela, cujo nome é Sofia, que também fez Teologia, dá palestras sobre a Bíblia e a formação de leigos nas paróquias. E acaba de escrever o seu segundo livro: a Idade da Águia, para comemorar os seus 70 anos. Minha atividade na Igreja local se resume, além da participação na vida da paróquia, a uma ou outra palestra quando nos convidam.
Mas, no site, tenho a oportunidade de estar em contato contínuo com a vida da Igreja no Brasil e no mundo, e luto por uma Igreja aberta, a serviço, em diálogo com o mundoa ciência  e as outras religiões, no estilo do Concílio Vaticano II, Medellin, Puebla, Aparecida, João XXIII e Francisco. Igreja em saída, não curvada sobre si mesma. Além de me interessar por Política, Economia, Ecologia, etc. 
Sem minhas aulas de Ética na Universidade e sem púlpito, estou fazendo do Site minha cátedra e meu púlpito. Com tanta coisa que a gente aprende na vida, não dá para parar, ficar quieto. 
- Quantos anos o senhor tem agora? 
R/ Vou fazer 76 anos, dos quais 50 no Brasil e no Maranhão. 
- Tem alguma informação que o senhor gostaria de ver na matéria que eu não tenha perguntado? Alguma informação que seja importante? 
R/ Sim haveria muita coisa para contar, mas esta entrevista já está comprida. Só queria acrescentar que, mesmo gostando muito do  ministério sacerdotal, de que às vezes sinto saudade, nunca me arrependi de ter constituído família. E que acho bom e possível o celibato, se for vivido com autenticidade e se a pessoa se realizar e for feliz nele. O que não vale é ser um celibatário triste, angustiado ou falso.
Também queria acrescentar que o papa João Paulo II demorou 14 anos para dar a licença para eu casar no religioso. E que, nesse intervalo, houve várias tentativas para me convencerprimeiro, de que talvez eu fui ordenado sem ter vocação, depois  de que eu não devia ter casado. Finalmente,  já pai de duas filhas, fui convidado para deixar a família e voltar ao ministério, pois eu tinha sido um bom padre e não devia ter saído.
Aí eu fiquei bravo, briguei, falei firme com o Vaticano… e a dispensa veio pouco depois. 
Eles não conseguiam entender e admitir que um padre, mesmo sem nada de grave contra ele, pedisse, livremente, para sair do ministério… 
- O senhor poderia me enviar uma foto sua com a sua família? 
R/ Posso, sim, essa que vai em anexo. Ordem, na foto: a neta Bruna, a filha Diana, a Esposa Sofia, a sogra Umbelina, a filha Luana  
Familia Santos Tavares
O autor com a Família. Foto: Gandra Produções
João Tavares

 PS. Evelin: 
  1. Se você publicar, gostaria de saber quando e onde. E receber uma cópia via e-mail ou indicação de Site.
  2. Se não publicar dentro de um mês, me reservo o direito de a publicar no nosso Site. 
  3. Se achar as respostas muito longas, pode resumir. Mas ficando fiel ao texto e contexto
fonte: http://www.padrescasados.org/archives/55385/55385/

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