segunda-feira, 13 de março de 2017

Papa Francisco: Síntese da entrevista com o Die Zeit


Die Zeit – RV –  09/03/2017
(RV).- Numa extensa entrevista concedida ao semanário alemão Die Zeit, o Santo Padre refere-se às suas próximas viagens, aos  cartazes que apareceram contra ele há algumas semanas em Roma, bem como à questão  da Ordem de Malta e à crise vocacional na Igreja.
Tradução: Orlando Almeida
Idealizar as pessoas é uma forma de agressão
“Não me considero um homem excepcional” – afirma o Papa Bergoglio ao responder à pergunta sobre se se sente constrangido ante as expectativas que tantas pessoas colocaram nele –. “Sou um pecador”, “um homem que faz o que pode”, “comum”. Sinto que “não me fazem justiça com as expectativas”, “exageram”. “Não se deve esquecer – complementa – que a idealização de uma pessoa é uma forma sutil de agressão” e “quando me idealizam, sinto-me agredido”.


Compreendo se a alguém não agrada a maneira como ajo
O jornalista pergunta se o afetam os ataques que vêm do Vaticano.
“Não” – responde Francisco –. “Desde o momento em que fui eleito Papa não perdi a paz. Compreendo que a alguém não agrade o meu modo de agir, mas o justifico; há tantas maneiras de pensar, é legítimo e também é humano, é uma riqueza”. 

O romanesco dos cartazes e o senso de humor

Acerca do romanesco dos cartazes que o acusavam de não ser misericordioso, o Papa diz que o dialeto usado “era muito bonito”, acrescentando ao mesmo tempo que “não o  escreveu alguém da rua”, mas uma pessoa culta. “Consegue rir disso” – diz o jornalista. E o Papa responde que sim, lembrando que todos os dias reza a oração do São Tomás Moro para pedir o senso de humor. E o Senhor lhe “dá bastante senso de humor”.

Ordem de Malta

Sobre o caso da Ordem de Malta, o bispo de Roma
explica que havia problemas e que “talvez” o Cardeal Burke “não tenha sido capaz de resolver, porque ele não era o único protagonista“. Por esta razão – explica – designou um delegado capaz de arrumar as coisas, uma pessoa “com um carisma que o Cardeal Burke não tem”. Embora – observou –  o cardeal continue sendo Patrono da Ordem.

Crise vocacional: grande problema

No que diz respeito à crise de vocações, o Papa observa que “é um grande problema” e “grave”. Onde não há sacerdotes, falta a Eucaristia e “uma Igreja sem a Eucaristia não tem força. A Igreja faz a Eucaristia, mas a Eucaristia faz a Igreja”. Se faltam as vocações sacerdotais – diz – é porque falta a oração.
Há também o problema da baixa natalidade. Além disso, é importante o trabalho com os jovens, mas que não se caia no proselitismo. |Com efeito, também é importante fazer uma seleção, porque se não há uma vocação verdadeira, depois as pessoas vão sofrer. De qualquer forma – acrescentou
– “o celibato opcional não é a solução.” Ao passo que a questão dos “viri probati” é uma possibilidade, mas depois é preciso determinar as funções que podem assumir nas “comunidades isoladas”.

A crise é para crescer na fé

À pergunta sobre os seus momentos de dificuldade, Francisco reafirma que teve “momentos escuros” e também “momentos vazios” que não compreendia. “Inclusive situações feias” por sua culpa, de pecado, que o fizeram ficar zangado com Deus. “Eu fico com raiva… e agora – diz rindo – acostumei-me”, mas o Senhor – acrescenta – “quer mais aos pecadores.”
E além disso, “a crise é para crescer na fé. Não se pode crescer sem crise”. “A crise é parte da vida e uma fé que não entra em crise para crescer, geralmente permanece infantil”. Pedro também “teve uma crise feia”; renegou Jesus … “e fizeram-no Papa!”.
O jornalista pergunta-lhe como se volta à fé?
“A fé – responde o Santo Padre – é um dom: é dada. Eu peço-a, e Ele responde. Antes ou depois, eh! Mas às vezes é preciso esperar em uma crise”. E quanto ao medo, diz: “Os medos fecham as portas. Ao contrário, a liberdade abre as portas”.

O homem é uma bondade ferida, mas a maldade mata

O homem é bom ou mau por natureza?
“O homem é imagem de Deus” –  responde Francisco –  “é bom”, mas “foi tentado e feriu-se: é uma bondade ferida”, portanto, “é fraco”. “A maldade é outra coisa, mais feia”. Por exemplo: “Adão não foi mau. Foi fraco, foi tentado pelo diabo. Ao invés, a primeira maldade é a do filho, a de Caim”, que mata não por fraqueza, mas “por ciúme, por inveja, por desejo de poder… é a maldade das guerras. É a maldade que hoje encontramos nas pessoas que matam: matam os outros, a maldade” de quem fabrica armas.

Faz-me mal a Igreja que não é fiel

Fala-se dos mafiosos que fazem o sinal da cruz antes de matar: “É uma doença religiosa” –afirma o Papa – e diz que isso o deixa indignado. Mas fica mais indignado – acrescenta – quando a Igreja não dá testemunho de fidelidade ao Evangelho: “isso faz-me mal”.

Preocupado com os populismos na Europa

À pergunta sobre os populismos de hoje,
o Pontífice responde que fica preocupado, pelo menos com aqueles que se veem na Europa. E enfatiza que por trás do populismo há sempre um “messianismo. Sempre. E também uma justificativa”, a de preservar a identidade de um povo. Ao contrário, os grandes políticos do pós-guerra no Velho Continente “imaginaram a unidade europeia”, “uma coisa não populista”, mas sim “uma fraternidade de toda a Europa, do Atlântico aos Urais. E estes são os grandes líderes – os grandes líderes – que são capazes de buscar o bem do país sem serem eles o centro. Sem serem messias: o populismo é mau, e no fim acaba mal, como nos demonstra o Século passado”.

A terceira guerra mundial aos pedaços

O Santo Padre torna a falar da “terceira guerra mundial aos pedaços”.  Basta pensar na África, na Ucrânia, na Ásia, no drama do Iraque, “na pobre gente que foi expulsa”. É uma guerra que “é feito com as armas modernas e há toda uma estrutura de fabricantes de armas que ajuda nisto”.

As próximas viagens internacionais

Por fim, as suas próximas viagens. O Papa visitará a Índia, o Bangladesh, a Colômbia e Fátima, enquanto se está estudando uma viagem ao Egito. Gostaria de ir ao Sudão do Sul, mas não acha que seja possível. Estavam no programa os dois Estados do Congo, mas com Kabila não acredita poder ir. E também não pode ir à Rússia, porque também deveria ir à Ucrânia.

http://www.radiovaticana.va/ispano/imagenes/maria.gif
Maria Fernanda Bernasconi – RV.
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