quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Os campos de refugiados são campos de concentração", constata Francisco

"Muitas são as provações dos justos, mas o Senhor os salva de todas elas; Ele cuida de todos os seus ossos, nenhum sequer será quebrado." O coro cantava os versos do hino aos mártires enquanto Bergoglio entrava na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina, em Roma, onde presidiu na tarde de sábado, 22 de abril de 2017, a vigília de oração promovida pela Comunidade de Santo Egídio pelos novos mártires dos séculos XX e XXI.


A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 22-04-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.
 
Neste lugar, escolhido como um memorial para os novos e antigos mártires por João Paulo II após o Jubileu do ano de 2000, onde o testemunho dos cristãos mortos "in odium fidei" durante os séculos passados se entrelaça com o dos seguidores de Cristo perseguidos pelas ideologias do século XX ou pelas recentes loucuras extremistas, o Papa Francisco entrou como um peregrino e rezou por todos aqueles que "tiveram a graça de confessar Jesus até a morte". 
 
"Alguns foram nossos amigos, ou até mesmo companheiros", disse Andrea Riccardi, fundador da Sant'Egidio, em sua saudação inicial, que lembrou alguns deles: Don Andrea Santoro, assassinado na Turquia; Shabbaz Bhatti, morto no Paquistão; Christian de Chergé, massacrado na Argélia; Padre Jaques Hamel, decapitado na Normandia; o bispo Enrique Angelelli, perseguido pelos militares na Argentina.
Destes e de outros testemunhos preservam-se nas capelas laterais da Basílica alguns objetos pessoais: a manta, o breviário, a pastoral, o cálice, o bíblia: "Fomos amigos, mas não nos livramos da vontade obstinada de salvar a nós mesmos". Além disso, eles queriam nos lembrar, através do testemunho "usque ad sanguinis effusionem", que "como cristãos não vencemos pelo poder, pelas armas, pelo dinheiro, mas pela força humilde da fé e do amor". Os cristãos que, ao contrário do resto do mundo abalado pela "guerra, a mãe das dores e da pobreza", "não roubam a vida, mas a oferecem". 
 
"A memória destes testemunhos heroicos, antigos e recentes, nos confirma a consciência de que a Igreja é Igreja se for a Igreja dos Mártires", como falou o Papa Francisco no começo de sua homilia. E com uma voz suave, acrescentou, "há mais um ícone nesta Igreja". "Uma mulher. Não sei seu nome, mas ela olha para nós do céu. Quando eu estava em Lesbos, cumprimentei os refugiados e encontrei um homem de 30 anos com três filhos, que me disse: "Padre, eu sou muçulmano, mas minha esposa era cristã. Vieram terroristas ao nosso país, nos viram e perguntaram qual era a nossa religião. Eles viram o crucifixo e pediram que o jogássemos no chão. Minha esposa não o fez e foi degolada na minha frente. Nós nos amávamos muito." Este é o ícone com que lhes presenteio hoje. Não sei se este homem ainda está em Lesbos ou conseguiu ir para outro lugar. Não sei se conseguiu escapar desse campo de concentração, porque os campos de refugiados... muitos deles são campos de concentração. Eles são abandonados lá, às pessoas generosas que os recebem, que têm que levar este peso adiante, porque os acordos internacionais parecem ser mais importantes do que os direitos humanos. E este homem não tinha rancor. E mesmo sendo muçulmano ele carregava esta cruz sem rancor, refugiava-se no amor de sua esposa, que recebeu a graça do martírio".

Ícone dos Novos Mártires da Basílica de São Bartolomeu. (Crédito: Comunidade de Sant’Egidio)
O mártir é, na verdade, "agraciado", disse Bergoglio. "Quantas vezes, em momentos difíceis da história, se escutou: 'Hoje, a pátria precisa de heróis'. Os mártires podem ser considerados heróis, mas o aspecto fundamental do mártir é que ele recebeu uma graça. Há a graça de Deus, não a coragem, a valentia, isso é o que o torna mártir". Os mártires, continuou o Pontífice, citando passagens do Apocalipse lidas na liturgia, "tiveram a graça de confessar Jesus até o fim, até a morte. Eles sofrem, eles dão a vida, e não recebemos a bênção de Deus por seu testemunho", disse o Papa. E lembro também dos "tantos mártires escondidos" de hoje, esses homens e mulheres "fiéis ao poder suave do amor, à voz do Espírito Santo que na vida diária tratam de ajudar aos irmãos e amar a Deus sem reservas". 
 
Papa Bergoglio descreveu a "causa" das perseguições: "o ódio do príncipe deste mundo àqueles que foram salvos e redimidos pela morte e ressurreição de Jesus. Na passagem do Evangelho que ouvimos (cf. Jo 15:12-19), Jesus usa uma palavra forte e chocante: a palavra "ódio". Ele, que é o mestre do amor, que gostava de falar de amor, fala de ódio. Mas Ele sempre quis chamar as coisas pelo seu nome. E nos diz: "Não tenha medo. Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes odiou a mim." Jesus nos escolheu e nos salvou por um dom gratuito de seu amor. Com sua morte e ressurreição, Ele nos resgatou do poder do mundo, do poder do diabo, do poder do príncipe deste mundo. E esta é a origem do ódio: porque fomos salvos por Jesus e o príncipe deste mundo não quer isto, ele nos odeia e suscita a perseguição, que vem desde os tempos de Jesus e da Igreja primitiva até hoje Quantas comunidades cristãs são perseguidas hoje! Por quê? Por causa do ódio do espírito do mundo". 
 
Então, "de que a Igreja mais precisa hoje?", perguntou-se o Papa: "De mártires, testemunhos, ou seja, Santos, aqueles de vida comum, porque são os santos que levam a Igreja adiante. Os santos! Sem eles, a Igreja não vai adiante. A Igreja precisa de santos todos os dias, da vida comum levada adiante de forma coerente; mas também daqueles que têm a coragem de aceitar a graça de serem testemunhas até o fim, até a morte." 
 
Todos eles são, para o Papa, "o sangue vivo da Igreja", as testemunhas "que demonstram que Jesus ressuscitou, que Jesus está vivo" e que "nos ensinam que, com o poder do amor, com a mansidão, é possível lutar contra a prepotência, a violência, a guerra e alcançar, com paciência, a paz". 
 
Antes da homilia do Pontífice, momento comovente da celebração, ofereceram-se três testemunhos. O filho de Paul Schneider, pastor da Igreja Reformada, assassinado no campo de extermínio de Buchenwald em 1939, disse: "Meu pai foi escolhido para oferecer seu testemunho do Evangelho e isso me conforta". Depois, falou Roselyne Hamel, irmã do padre Jacques, pároco de Rouen decapitado por dois fundamentalistas em julho do ano passado durante a missa. Meu irmão "nunca quis estar no centro das atenções, mas ofereceu um testemunho ao mundo inteiro, cuja extensão ainda não conhecemos exatamente. Com sua morte, ele se tornou um irmão universal", disse ela. No final, falou um amigo de William Quijano, assassinado pelas gangues de El Salvador, que tentava "quebrar as cadeias de violência" através da educação e da formação de crianças, sabendo que "um país sem escolas e professores é um país sem futuro".
Nota de IHU On-Line: Para ver o vídeo da peregrinação do Papa Francisco à Basílica de São Bartolomeu, clique aqui
FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/566870-os-campos-de-refugiados-sao-campos-de-concentracao-constata-francisco

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