segunda-feira, 12 de junho de 2017

Francisco e Trump

Resultado de imagem para FRancisco e Trump no Vaticano
Anselmo Borges – 09/06/2017 – Foto: reportermaceio.com.br
” Penso que um dos problemas com Trump é que é muito infantil. É impetuoso, destemperado, age a partir da ira e não modera os sentimentos. Essa é uma forma perigosa de actuar, e isso é característico das crianças. ……….
 Há uma coisa que o Papa Francisco tem: um sentido maravilhoso de maturidade. Maturidade, equilíbrio e justiça. Estando assim as coisas, julgo que Francisco é um dos poucos muros de contenção -talvez o único – ao que Trump gostaria de fazer.” – Harvey Cox

1 Para ajuizar do encontro entre o Papa e Trump, não basta uma fotografia em que Francisco surge “de rosto fechado”, não habitual nele. Esquece-se que uma fotografia fixa um instante, e lá andam os fotógrafos metralhando momentos, que depois põem a circular, para delícia dos comentadores a fazer o que sabem ou não fazer: comentários que outros comentarão para entretenimento difuso ou irritante… Aliás, quando duas pessoas se encontram frente a frente para dialogar e têm jornalistas a observar e fotógrafos a fixar os tais instantes, que ficam “congelados”, em que estão verdadeiramente a pensar?
Claro que a espontaneidade, que também depende do modo de ser de cada um, fica fragilizada. Mesmo sem jornalistas e fotógrafos, quando duas pessoas com imensas responsabilidades globais se colocam em frente uma da outra, o que se passará lá no mais íntimo?
Isso acontece até quando não há essas responsabilidades nem jornalistas nem fotógrafos, mas, claro, tudo fica tremendamente aumentado nas ditas circunstâncias. Porque há o que realmente se pensa (e o que é que realmente se pensa?) e há a diplomacia, o que se pode e o que se não pode nem deve dizer. Por palavras e por gestos.
Francisco até procurou desanuviar a situação perguntando a Melania Trump se o marido lhe “dá a comer potizza“. Com um sorriso, ela respondeu: “Sim, delicioso.” A potizza é um bolo típico esloveno. A Eslovénia é o país de origem da primeira-dama norte-americana, que se diz que é católica e terá pedido ao Papa para lhe benzer um terço.
2 De qualquer modo, percebe-se que este não foi dos encontros mais exaltantes para Francisco. São bem conhecidos os diferendos existentes entre os dois líderes, que vêm de há muito.
  • Francisco tinha dito que “não é cristão” construir muros, referindo-se à promessa de Trump de levantar um ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México,
  • tendo Trump respondido que não fica bem a um Papa julgar a fé dos outros,
  • acrescentando, ainda durante a campanha eleitoral: “Se o Vaticano fosse atacado pelo Daesh, que toda a gente sabe ser o derradeiro troféu dos terroristas, garanto-vos que o Papa rezaria para que Donald Trump fosse presidente.”
Os pontos de divergência referem-se concretamente
  • à política migratória,
  • à pobreza global
  • e à defesa do meio ambiente.
Sobre a imigração, por exemplo, Francisco é claro:“Creio que, em teoria, se não pode fechar o coração a um refugiado”,
embora acrescentando com realismo:
“Também há a prudência dos governantes, que devem ser muito abertos para recebê-los, mas também devem fazer o cálculo de como poder alojá-los, porque não basta receber um refugiado, é preciso integrá-lo.”
Sobre o meio ambiente e a “ecologia integral” escreveu uma encíclica que fará história, Laudato Sí, e disse recentemente numa conferência de imprensa:
“Posso dizer-vos que é agora ou nunca. Os problemas agravam-se a cada ano que passa. Estamos no limite. Se me é permitida uma palavra forte, diria que estamos à beira do suicídio.” Sobre a “economia que mata”: aí está o “ídolo dinheiro que reina em vez de servir e que tiraniza e aterroriza a humanidade.”
3 No fim do encontro no Vaticano, Trump e Francisco desejaram-se “boa sorte”. O Papa pediu-lhe que fosse “um instrumento da paz” e Trump escreveu que tinha sido “uma honra ter conhecido Sua Santidade” e que deixava o Vaticano “mais decidido do que nunca a procurar a paz no nosso mundo”.
Segundo um comunicado da Santa Sé, o encontro foi “cordial” e ambos abordaram “a promoção da paz no mundo” e temas relacionados com a actualidade internacional, concordando em lutar “através da negociação política e do diálogo inter-religioso, referindo especialmente a situação no Médio Oriente e a protecção das comunidades cristãs”.
Depois, já com o primeiro-ministro italiano, Trump referiu-se ao Papa como “uma grande pessoa”, alguém “especial”, e ao encontro como “fantástico”.
Entretanto, para combater os efeitos da seca, Trump, aparentemente “convertido”, prometeu mais 300 milhões de dólares para a luta contra a fome em África. Mas a seguir anunciou a saída dos Estados Unidos dos acordos de Paris sobre o clima.
4 Quando se pensa em Trump, não se pode ficar por uma condenação rasapois é necessário perguntar pelas razões que levaram à sua eleição e que se ligam também às ameaças crescentes de nacionalismos e fundamentalismos. De qualquer modo, sobre Trump e Francisco, repito as reflexões de Harvey Cox, pastor baptista, professor em Harvard e um dos mais conceituados especialistas na análise do fenómeno religioso no mundo moderno e contemporâneo.
Numa entrevista recente a José Manuel Vidal, Harvey Cox falou de modo entusiasta e elogioso:
“Sim, sou um grande admirador de Francisco. Penso que até agora fez coisas maravilhosas. É um dom para a Igreja Católica, para todas as Igrejas…, um dom para todo o mundo. Sei que tem oposição – uma oposição forte e séria – e julgo que precisa que o apoiemos.”
À pergunta: “O Papa pode ser o único líder global que pode fazer frente a Donald Trump?”, respondeu:
“Bom… Como alguém disse muito recentemente, o Papa Francisco é o único adulto que resta, o único com maturidade. Penso que um dos problemas com Trump é que é muito infantil. É impetuoso, destemperado, age a partir da ira e não modera os sentimentos. Essa é uma forma perigosa de actuar, e isso é característico das crianças.
Há outras coisas. As suas políticas são muito frequentemente más – não todas, mas muitas -, mas preocupa-me a sua falta de temperamento equilibrado. Há uma coisa que o Papa Francisco tem: um sentido maravilhoso de maturidade. Maturidade, equilíbrio e justiça. Estando assim as coisas, julgo que Francisco é um dos poucos muros de contenção -talvez o único – ao que Trump gostaria de fazer.”
.
Resultado de imagem para Anselmo Borges
Anselmo Borges
http://www.padrescasados.org/archives/58090/francisco-e-trump/

Nenhum comentário:

Postar um comentário