sábado, 17 de junho de 2017

HÁ DEZ ANOS DOM ALOÍSIO LORSCHEIDER NOS DEIXOU

Falarei como irmão que fala aos seus irmãos
      
Há pessoas que marcam nossa vida, seja por suas palavras, seus gestos ou simplesmente por estarem presentes na vida da gente.

Dom Aloísio Lorscheider (8-10-1924 a 23-12-2007) foi e continua sendo uma delas. Sua presença foi marcante na vida de muitas pessoas, tanto na Igreja como, e de modo especial, na vida da sociedade em geral. Em seu pastoreio mostrou permanentemente carinho pelas Comunidades Eclesiais de Base, “o único jeito da Igreja ser”, como gostava de dizer. Não menor foi sua dedicação àquela parcela do povo quase que completamente abandonada e maltratada, os encarcerados. Lembramo-nos sempre do episódio em 15 de março de 1994, quando Dom Aloísio e seus acompanhantes foram tomados reféns por detentos do ‘Instituto Penal Paulo Sarasate’ em Fortaleza.

 Fui testemunho quando da despedida dele em 1995, após 22 anos de dedicação total ao povo do Ceará e, em especial, de Fortaleza. A celebração se realizou no estádio do Castelão. Havia 70.000 pessoas presentes, lotando as arquibancadas. Elas representaram todas as camadas da população: pobres e ricos; gente que vive e constrói a “Igreja Povo de Deus”, como também representantes da Igreja triunfante e cantante; a turma da chamada “esquerda”, como também da chamada “direita”; tanto povos indígenas, trabalhadores, como governantes, etc. etc. . Para todos Dom Aloísio havia sido um porto seguro, sempre aberto ao diálogo, um sinal de unificação e pacificação, uma ponte que ligava extremos, uma voz que dificilmente “clamava no deserto”, porque sempre havia alguém quem o escutasse. Por isso, toda esta gente queria despedir-se dele, do pastor que, incansavelmente e sem querer nada para si mesmo, gostava de estar no meio das pessoas, entrando na fila dos participantes para pegar seu prato de almoço durante as assembleias, ou abrigando-se numa sombra debaixo de alguma árvore para ouvir pedaços da vida das pessoas, dando orientações sábias, visitando presos bem cedo do dia, sentando à mesa com governantes, se colocando, porém, sempre do lado dos menos favorecidos, intermediando em conflitos e apaziguando os ânimos. Um pastor como Dom Aloísio faz falta mesmo.

            Neste espaço, porém, desejo dedicar algumas palavras ao Dom Aloísio e seu relacionamento para com os “padres casados”, relação esta construída ao longo dos anos. Não escrevo por saudosismo, mas sim em razão de gratidão diante dele que nos tratava com dignidade e em quem podemos encontrar pistas para assumirmos nossa identidade e darmos visibilidade a ela.

            Para entender o convívio de Dom Aloísio com os “padres casados”, ressaltamos que estamos diante de uma pessoa, um pastor, um bispo que colocava o ser humano em primeiro plano e, consequentemente, valorizava, acima de tudo, a atitude e a prática da escuta do outro, do olhar do outro, base de toda a sua atividade pastoral.

            Ouçamos o que Dom Aloísio tem a nos dizer.

            Há um artigo no Jornal O POVO (14 de setembro de 1980)[1] noticiando sobre um encontro dos “padres casados” aqui em Fortaleza, durante o qual Dom Aloísio se fazia presente. O título do artigo: “Dom Aloísio escuta e fala pouco”.

            Outro momento de grande expressão da presença de Dom Aloísio na vida dos “padres casados” e suas famílias se deu no ano de 1983, nos dias de carnaval, 12 a 16 de fevereiro, quando aconteceu, em Fortaleza, o V Encontro Nacional do “Movimento dos Padres Casados”, com participação de 80 “padres casados”, com suas respectivas esposas e filhos, vindos de todo o Brasil.[2] Observamos, em primeiro lugar, que o espaço do encontro, o Seminário Regional Nordeste I, no bairro Dias Macedo, foi colocado à disposição dos participantes deste Encontro pelo próprio Dom Aloísio. Ele se fez presente às reuniões e com ele estavam também Dom Edmilson da Cruz, bispo auxiliar de Fortaleza, e Dom Guido Casullo da Prelazia de Cândido Mendes (MA), mais tarde diocese de Zé Doca.
Em palestra, Dom Aloísio introduziu suas palavras de seguinte forma: “Falarei como irmão que fala aos seus irmãos” e seguiu, dizendo: “Importante não me parece ser reintegrar ou não a vocês no ministério sacerdotal. Não é o exercício do ministério que liberta e salva as criaturas. Mesmo para mim, que sou bispo, o essencial não é o exercício do ministério, mas exercê-lo dentro do espírito de obediência ao Pai, até a morte. Então, eu acho que os dons que temos todos, se não forem colocados dentro desta luz, nós só perdemos.”

Quando falava das tensões que geram conflitos na Igreja, sublinhou, entre outras questões, a seguinte indagação: “De que forma colocar a serviço dos irmãos aqueles dons que vocês, em virtude da experiência do ministério sacerdotal, outrora exercido, e da experiência que vocês estão fazendo hoje? Além disso, qual o sentido e o alcance do sacramento da Ordem na vida de vocês? E continuou: “No meu entender a solução do problema [de sua identidade, red.] de vocês deve partir de vocês próprios. Por isso, acho que reuniões como esta, deveriam ser mais apoiadas por nós [bispos, red.]. Vejo nesta reunião uma coisa muito boa. Vocês estão passando três dias juntos, num esforço sincero e leal. E vocês têm opiniões diferentes e isto é coisa muito boa, graças a Deus. Mesmo com opiniões diferentes, vocês devem colocar em comum aquilo que tem, aquilo que conseguem, para ajudar na busca de uma solução [da questão da identidade, red.]. Depois, eu ainda pergunto: e o instante da comunidade eclesial? A situação de vocês não interessa somente à hierarquia, interessa muito à comunidade eclesial. Sugiro, portanto: primeiro, uma atitude de confiança, uma atitude de abertura, que deve ser total para com o outro. Uma atitude de quem sabe escutar, e nós ouvimos até coisas de que não gostamos, mas temos que superar os infantilismos de quem só quer ouvir aquilo de que gosta, para descobrir o que o outro quer dizer de fato. Depois, uma atitude de reflexão serena, tranquila e madura, à luz da fé. Concluindo, o Cardeal disse: “Queria partilhar com vocês esta caminhada. Até o momento a gente percebe que a questão está muito centrada no celibato. E eu pergunto: será que se poderia deslocar o enfoque para outra realidade mais central? Porque o celibato é um destes aspectos, mas poderia haver outro, pelo qual pudesse haver mais pistas. E, a propósito, eu faria outra pergunta: qual o grande objetivo da vinda do Verbo de Deus á terra? Ele veio para realizar a comunhão de Deus com os homens, dos homens com Deus e dos homens entre si!”
“Durante todo o encontro Dom Aloísio ‘provocou, desafiou e suplicou que os padres casados definissem sua identidade no novo contexto da Igreja, caracterizassem teologicamente seu locus na comunidade concreta, passando da ortodoxia da Igreja para a ortopraxia da comunidade de fé’, ultrapassando a categorização conhecida do direito canônico, para ‘criar e ocupar novo status jurídico numa situação sui generis’‘O grande objetivo do Verbo de Deus é criar aliança entre os homens e destes com Deus, numa abertura total ao plano de Deus, com a fisionomia de padre casado, desfocando o celibato’. (anotações pessoais, 1983)”[3].
            Mas Dom Aloísio não ficava apenas em belas palavras.
            Atitude de bom pastor ele assumia enquanto colocava à disposição os aposentos de sua própria casa para padres que estavam “deixando o ministério”, a fim de que tivessem um lugar para morar até que conseguissem estabilizar sua vida.
            No artigo valioso de Gil Absil, já citado aqui acima, o autor lembra a atitude coerente e corajoso de Dom Aloísio: “Nos anos de 1980, Dom Aloísio ‘assumiu, diante da pressão do Vaticano, a responsabilidade de garantir a permanência de quatro padres casados, um deles, o autor destas linhas, na vice-direção, na coordenação do Departamento de Teologia, e por isso, com assento no Conselho Presbiteral, órgão que opinava sobre a aptidão dos candidatos ao sacerdócio. Todos os quatro desempenhavam o magistério de filosofia, teologia, moral e história da igreja, pois “melhores que eles a diocese não tem”, dizia Dom Aloísio. Mais tarde os seminaristas, agora em separado, seguiam sua formação no Instituto Teológico Pastoral - ITEP, quando em junho de 1991 chegou uma ordem taxativa de Roma, à que Dom Aloísio resistiu com firmeza, evitando a demissão solicitada de Jan Ter Reegen, Eduardo Hoornaert e Lauro Motta. Não era blefe nem provocação, mas a confiança que Dom Aloísio depositava naqueles cujas qualidades pessoais e de docente ele, como pastor, conhecia. Para ser bom professor exige-se competência e não celibato.’ [4]
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Ainda faltam alguns meses para se complementarem os dez anos da despedida de Dom Aloísio (dia 23 de dezembro deste ano de 2017) e podermos agradecer, por mais uma vez, a Deus pela vida deste bom pastor. Mas quero já apresentar a lembrança a este bispo-irmão, que não via problemas em conviver com o diferente, vivia a inter-relacionamento com os outros, não sentia constrangimento algum em questionar costumes milenares da igreja e que dizia, sem rodeios: “Os padres casados têm uma experiência de vida muito rica; poderão ajudar muitas pessoas no exercício ministerial.”[5], e ainda: “Observa-se que, hoje, o padre casado caminha com seus próprios pés e já não espera pela hierarquia”.[6]

Termino, relatando um encontro pessoal (não foi o último) com Dom Aloísio. Não estou lembrado exatamente do dia, mas deve ter sido em 2002 ou 2003. Foi a primeira vez que nos encontramos depois que Claudete e eu casamos. Dom Aloísio já se encontrava em Aparecida e veio para Fortaleza por ocasião de uma celebração especial. Fui participar daquela celebração. Quando entrei na catedral, ele acabava de entrar por outra porta. Quando me viu, veio ao meu encontro, estendeu seus braços, e disse: “Meu irmão!”


Fortaleza, junho de 2017,
Geraldo Frencken



[1] Nosso irmão Lauro Mota guardava cuidadosamente tudo que era publicado a respeito de “padres casados” em jornais e revistas e colecionou tudo em uma pasta “MPC ... e por falar em saudade ....”. A sua esposa, Dona Esther, disponibilizou deste material. Somos gratos pela disponibilidade.
[2] Dados do artigo no Jornal O POVO em 16 de fevereiro de 1983, sob o título: “Importante é obedecer o plano de Deus”.
[3] ABSIL, Gil. Dom Aloísio e os padres casados. Artigo publicado no caderno “DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA À LUZ DO ESPÍRITO DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA”, por ocasião do XIX Encontro Nacional do MFPC em Fortaleza, junho/julho de 2012, p. 119-120. Artigo transcrito em “Rumos” em 04 de novembro de 2015.
[4] ABSIL, op. cit., p. 120
[5] LORSCHEIDER, Aloísio cardeal, Mantenham as lâmpadas acesas. Revisitando o caminho, recriando a caminhada. Um diálogo de Aloísio Cardeal Lorscheider com O GRUPO. Fortaleza: Edições UFC , 2008, p. 160
[6] ABSIL, op. cit., p. 120-121

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