sábado, 10 de junho de 2017

«Jesus Cristo não tem grandes teorias», Andrés Torres Queiruga

 João Céu e Silva – DN –  2017
 O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga esteve em Portugal para três debates. Jesus, de quem diz que foi um homem de sínteses e não de teorias, foi um dos temas da entrevista. Tal como Fátima.
Para o teólogo português Anselmo Borges, Andrés Torres Queiruga é «o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo». Torres Queiruga explicou ao Diário de Notícias a sua visão da Igreja atual.

 

Eis a Entrevista

Em 2012 disse-se que o catolicismo espanhol tinha um novo herege: Torres Queiruga. Foi assim que sentiu?

Não. A nota foi um pequeno disparate num momento em que a marcha da Igreja era num rumo muito autoritário e um pouco afastado do que se quer realmente de uma fé que fale à sensibilidade de hoje e sintonize um mundo aberto ao futuro.

O que discorda nessa notificação?

A nota mostrou que não conheciam o meu pensamento, ou seja, julgaram sem estudar o que eu na verdade expunha e exponho. Sempre fui uma pessoa moderada e a minha paixão é a de buscar a compreensão da fé de um modo que fale às pessoas de hoje e que encaixe na nossa vida. Por isso, falo sempre de uma religião humanizadora e de um Deus que está a favor do homem e da mulher. O que proponho é extremamente ortodoxo e sempre considerei que temos é de reformular as experiências evangélicas e atualizá-las. A minha tese em teologia foi sobre a evolução dos dogmas, o que me deu grande flexibilidade hermenêutica. 

Vivia-se o pontificado de Bento XVI…

Os dois últimos pontificados
  • não deixaram continuar a primavera do Concílio Vaticano II
  • e interromperam a explosão de entusiasmo que unia a Igreja à revolução mundial que o Maio de 68 provocou.
  • Em vez de continuar a expansão do Concílio, esse foi um tempo de controlar a inteligência e a liberdade.

 Acha que faz falta um novo Concílio?

Não e nisso concordo plenamente com o Papa Francisco, que admiro muito. O Concílio verificou-se após uma longa crise que terminou com a condenação do modernismo, no final do século XIX e começo do XX, porque há muito que a teologia tentava libertar-se da escolástica, perceber a nova sensibilidade histórica e fazer uma nova leitura das Escrituras. O golpe antimodernista foi tão forte que a teologia paralisou.
De algum modo o Concílio veio recolher tudo o que estava em ebulição. Foi como uma barragem onde se abria a comporta e houvesse uma enxurrada
  • de entusiasmo,
  • esperança
  • e criatividade.
João Paulo II e Bento XVI dedicaram-se a parar as decisões do Concílio, daí que Francisco diga que é apenas necessário atualizar o Concílio, e eu concordo.

 Este Papa é ou não um reformador?

Depende, estamos no quinto centenário de Lutero, que provocou uma reforma enorme, com forte carga polémica, em parte, e que não foi bem acolhida. O admirável é que agora vemos um fenómeno semelhante, mas paradoxal: é o mesmo Papa quem, com um humilde e corajoso espírito evangélico, quer fazer reformas, porque se defronta com uma Igreja extremamente paralisada.
Ele quer regressar às origens e ao Evangelho tal como o desejava João XXIII – de quem o Papa Francisco é muito devoto – e assim, desde as raízes, sintonizar a Igreja com os problemas do mundo. Daí a atenção aos refugiados e aos pobres em geral. A Igreja só tem sentido se for como um hospital de campanha e estiver ao serviço da humanidade. De outro modo, não serve para nada.
 
Disse que o Evangelho era outra coisa!
Claro, basta entrar em contacto com a figura fascinante de Jesus – mesmo quem não tenha fé -, que viveu num tempo de crise enorme e preocupado com o sofrimentos dos pobres, marginalizados e doentes. Consagrou toda a Sua vida a isso. É fascinante, porque Jesus não nasce ensinado, antes era profundamente humano. Ele recebeu uma riquíssima tradição profética e oracional, e mostra a sua grandeza através da sua experiência enquanto Filho, purificando-a ao máximo e elevando-a a um estatuto insuperável.
Deus é Abbá, pai-mãe, longe do domínio, a imposição e o ritualismo. Jesus não tem grandes teorias, tanto assim que um teólogo como Rahner disse que possivelmente, entendidas de forma isolada e uma a uma, todas as suas ideias resultam de algum testemunho na tradição.
Mas ele criou um conjunto vivo, com grande coerência vital, de tal modo que em toda a história da humanidade não houve quem fizesse uma síntese tão profunda e coerente, e literalmente definitiva:
  • Deus como puro amor,
  • sem excluir ninguém nem sequer os maus,
  • e com o perdão incondicional (recorde-se a parábola do filho pródigo).
O que Jesus formulou com tanta clareza e assinou com a sua vida é a revelação insuperável de Deus dentro da história.

 É mais um homem de sínteses?

Todas as grandes sínteses implicam muita criatividade. Na relação de Deus connosco e da nossa com Deus no plano religioso – ele não era matemático nem filósofo! – e foi capaz de abrir para a vida humana tudo o que é fundamental e que Deus nos quer revelar. E por isso, acolhendo uma categoria de Karl Jaspers, Jesus foi também o homem que “deu a máxima medida do humano”. Compreendendo-se deste modo que os que o acolheram estiveram dispostos a segui-lo e a dar tudo por ele.
Nunca se falou tanto de ateísmo como agora. Porquê?
O ateísmo é um fenómeno moderno, obedece a um processo cultural muito bem estudado por Hegel – de quem sou um entusiasta. A cultura entrou numa nova etapa, sobretudo com o descobrimento da autonomia do mundo. Um avanço enorme, que levou a que uma parte da cultura – não, como se diz muitas vezes, toda a cultura -, que ficou presa na sua riqueza, sob pena de perder a profundidade infinita do real.
Para isso contribuiu também uma parte dos crentes que não souberam elaborar uma visão crítica da fé. O grande desafio, como indicou o Vaticano II, está
  • em manter a autonomia
  • e reconhecê-la como fundada em Deus.
O mundo não funciona por intervenções sobrenaturais, de anjos ou diabos. Está entregue à nossa responsabilidade histórica, sustentados e apoiados por Deus enquanto colaboradores necessários, mas livres… para o nosso bem.
 Não se exige mais proximidade a Deus pelos homens do que é suposto?
É por amor que Ele nos está a criar e a nossa proximidade está sustentada na sua, que é infinita. Santo Agostinho dizia que Deus é mais interior a nós que a nossa máxima intimidade, uma proximidade salvadora que nos transcende desde dentro, abrindo um futuro e uma esperança que seria impossível de outra forma.
Continua a haver lugar para Deus?
Estaríamos perdidos sem Ele, sem a sua chamada insistente, sem a sua “luta amorosa” contra as nossas incapacidades e resistências. A mim enche-me a vida a ilusão e o esforço para compreender isso e tentar partilhá-lo em diálogo fraterno e acolhedor.
Com a evolução tecnológica, as religiões ainda terão algum papel daqui a um século?
Estou confiante que sim, mesmo que não saiba qual. Deus não nos pode falhar: nós podemos ser ateus de Deus mas Deus não é ateu de nós. Como diz o livro do Apocalipse: Ele está sempre a chamar-nos e à nossa porta.
O que pensa de Fátima?
Acho que aquelas crianças foram sinceras e pensavam que viam a Virgem. Como eram religiosas, inocentes e sensíveis, chegaram a essa convicção. Não mentiam, acreditavam que viam; mas a Virgem não se pode ver. Como também não se pode ver Deus. Ninguém pode dizer que viu o menino Jesus porque ele existiu mas já não existe, apenas Cristo.
A Virgem nunca foi uma senhora vestida de branco: foi uma camponesa e uma mulher humilde que seguramente andava descalça. A grandeza estava no seu coração limpo, na sua fé humilde e amorosa, no seguimento do seu Filho, mesmo sem sempre o poder compreender. Não esqueçamos que todo o transcendental está acima do espaço e do tempo.
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João Céu e Silva
Fonte:http://www.dn.pt/sociedade/interior/andres-torres-queiruga-jesus-nao-tem-grandes-teorias-8512519.html
http://www.padrescasados.org/archives/58082/jesus-cristo-nao-tem-grandes-teorias-andres-torres-queiruga-ao-diario-de-noticias/

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