terça-feira, 3 de outubro de 2017

Francisco sobre: 2. O sexo e o casamento

Continuo com os diálogos do Papa Francisco e Dominique Wolton: Politique et société.

 Anselmo Borges* – 29/09/2017
“Os pecados mais leves são os pecados da carne. Estes não são forçosamente (sempre) os mais graves. Porque a carne é fraca.” “Os pecados mais perigosos e graves são outros, de que se fala menos: “O ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida… 
Mas os padres tiveram a tentação – não todos, mas muitos – de se concentrar nos pecados da sexualidade: o que eu chamo a “moral da subcintura” (desculpe).
1. Francisco atira com a afirmação inesperada de João Paulo II: “O sexo é uma coisa boa e bela.”


E Wolton: “Reconhece que é complicado para leigos ouvir padres, que renunciaram ao amor físico, dizer que o amor físico, carnal, é belo.”
Francisco: “Renunciar à sexualidade e escolher o caminho da castidade é toda uma vida consagrada.” Mas isso só vale se “este caminho levar à paternidade e à maternidade espiritual. Renunciar para estar ao serviço, para contemplar melhor. Um dos males da Igreja são os padres solteirões e as freiras solteironas. Porque estão cheios de azedume”.
Foi pena que, aqui, Wolton não tenha perguntado sobre o celibato opcional para os padres.

2. Francisco acrescenta:
“Os pecados mais leves são os pecados da carne. Estes não são forçosamente (sempre) os mais graves. Porque a carne é fraca.” “Os pecados mais perigosos e graves são outros, de que se fala menos:
  • “O ódio,
  • a inveja,
  • o orgulho,
  • a vaidade,
  • matar o outro, tirar a vida…
  • Mas os padres tiveram a tentação – não todos, mas muitos – de se concentrar nos pecados da sexualidade: o que eu chamo a “moral da subcintura” (desculpe). Há alguns que, quando ouvem na confissão um pecado deste género, perguntam:
“Como fizeste isso, e quando e quanto tempo e quantas vezes?” Fazem um “filme” na cabeça. Mas esses precisam de um psiquiatra.”

3. E os padres e a pedofilia?
“Os padres católicos representam mais ou menos 2% dos pedófilos. Isso parece pouco, mas é demasiado. Que um único padre faça isso, é horrível. Tolerância zero! Porque o padre deve levar as crianças a Deus, não destruir a sua vida. Depois, há a ligação: em cada quatro crianças violadas, duas tornam-se violadoras.”
E reconhece a observação de que “a Igreja fechou demasiado os olhos, cobrindo o inaceitável”, mas acrescenta:
“A maior parte dos abusos sobre os menores vêm do círculo familiar ou dos vizinhos.”.
Também é preciso dizer isso. De qualquer modo, a actual política é
“a que Bento XVI e eu próprio impusemos através da comissão dos menores, criada há dois anos aqui, no Vaticano. A Igreja-mãe ensina como prevenir, como fazer falar uma criança, de tal modo que diga a verdade aos pais, conte o que se passa, etc. É um caminho construtivo.
A Igreja não deve ir para uma posição defensiva. Se um padre é abusador, é alguém doente. Em quatro abusadores, dois foram abusados em crianças. São as estatísticas dos psiquiatras. Mas a Igreja tenta deste modo proteger os menores.”

4. Aqui, Francisco adverte que tem muita crítica a fazer aos média.
“Hoje, toda a gente está escandalizada, graças a Deus, por causa dos abusos de menores. Mas há homens de negócios que produzem vídeos para a internet, vídeos que mostram aos jovens, às jovens, aos homens, às mulheres, “porcarias” e relações sexuais com menores, homossexuais, heterossexuais, de todos os modos possíveis.”
“Sim, é uma hipocrisia”, concorda Wolton. “A pornografia é uma das maiores indústrias do mundo.”

5. Aquando do debate sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, defendi, em debate na televisão,
  • que se deveria garantir direitos e deveres semelhantes aos dos casamentos de pessoas heterossexuais,
  • mas que se deveria encontrar uma outra designação, e não por motivos religiosos, mas histórico-culturais e respeitando realidades diferentes.
Constato que o Papa Francisco pensa do mesmo modo.
“O “casamento”é uma palavra histórica. Desde sempre na humanidade, e não só na Igreja, é um homem com uma mulher. Não se pode mudar isso de qualquer maneira. É a natureza das coisas. Elas são assim. Chamemos a isso, portanto, “uniões civis”. Não brinquemos com as verdades. É verdade que, por detrás disso, há a ideologia do género. Também nos livros as crianças aprendem que se pode escolher o sexo. Porque o género, ser uma mulher ou um homem, seria uma escolha e não um facto da natureza? Isso favorece este erro. Mas digamos as coisas como elas são:
  • o casamento é um homem com uma mulher. Este é o termo preciso.
  • Chamemos à união do mesmo sexo “união civil”.
Wolton:
“A ideologia do género não é o mesmo problema. É um desvio sociológico. Consiste em dizer que
  • os sexos são indiferenciados,
  • e que é unicamente a sociedade que distribui o papel masculino ou o papel feminino.
Terrível este determinismo. Não há
  • nem natureza,
  • nem cultura,
  • nem destino,
  • nem liberdade,
  • resta apenas a determinação social.
E, se és contra estes determinismos, chamam-te reaccionário. Dizem-te que adoptas as posições da Igreja. A deriva ideológica fez-se em vinte anos.”
Francisco:
“Isto é uma confusão crítica, neste momento. Disse-o um dia publicamente na Praça de São Pedro, ao falar sobre o casamento: “Há ideias novas e eu pergunto-me se estas novas ideias, como a ideologia do género, não assentam em última análise no medo das diferenças.”
Wolton: 
“Uma negação das múltiplas formas da alteridade e da diferença?”
Francisco:
“Disse-o em forma de pergunta. E encorajo os investigadores a debruçarem-se sobre o assunto.”
Wolton:
“A ideologia do género é o risco de uma negação da diferença. Ora, a diferença não é só social. É muito mais complicado. Trata-se de uma forma de determinismo ao contrário: ao dizer-se que não há homens, que não há mulheres, que tudo depende da sociedade, na realidade cria-se uma forma de determinismo social.”
Francisco:
“Não quereria que se confundisse a minha posição sobre a atitude para com as pessoas homossexuais com a questão da teoria do género”.
Wolton:
“Sim, claro. A diferença é essencial. Talvez “união civil” bastasse”, embora se compreenda que, depois de “tantos séculos de desprezo, culpabilidade e repressão”, se reclame a “ideologia da igualdade” e a palavra “casamento” como reconhecimento.
Francisco:
“Mas não é um casamento, é uma união civil.”
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Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico


*Anselmo Borges
padre e professor de filosofia

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