segunda-feira, 2 de outubro de 2017

“O estrangeiro” em nós mesmos

TJEU VAN KNIPPENBERG
Panningen – Holanda  -  17-09-2017


“O estrangeiro” em nós mesmos

“O estrangeiro”. Isto é um tema antigo que em nossos dias se tornou atualíssimo, agora que o mundo novamente está sendo confrontado com migrações populacionais. Trataremos  principalmente dos estrangeiros na forma que neste momento aparecem na nossa sociedade.
Para conhecer o estrangeiro que vem de fora, vamos primeiro perguntar-nos  “o que é um estrangeiro?” (1). A seguir  analisaremos qual é a concepção do estrangeiro na Bíblia (2). Depois segue a obra de Vincente de Paulo neste contexto (3). Finalmente veremos qual a tensão que o estrangeiro provoca dentre de nós mesmos e como esta tensão pertence à dinâmica da vida (4).



1.   O que é um estrangeiro?

Estranho = diferente, raro, extravagante, anormal, singular, louco, maluco. São alguns dos significados do estranho que mostram como o estrangeiro é um ser diferente: ele não faz parte, não pertence ao mundo como nós o construimos em nosso ambiente conhecido e familiar.
Outros constumes, aparência diferente, outra língua, outra religião colocam o estrangeiro à parte. A gente  prefere afastar o que é desconhecido: a gente não come o que não conhece, você poderia ficar infectado. Por isso o estrangeiro evoca, não raramente, medo: é melhor você ficar longe dele.
Acontece que recentemente o papa Francisco fez uma convocação, da qual se pode perguntar se não é um pouco ingênua. Ele diz:  dê boas vindas, proteja, apoie e integre estrangeiros que vem para cá como refugiados. Esta postura e esta atitude coincide com o objetivo que Franciso formulou na sua encíclica Laudato Si: “criar para todo mundo uma casa comum e duradoura”. Como isto pode acontecer? Podemos aprender a este respeito a partir da Bíblia, a partir de Vincente de Paulo e a partir da nossa própria experiência.

2.  A Bíblia

A postura diante do estrangeiro, no antigo Israel como em nossa própria vida, é de fato sempre um pouco ambígua. De um lado: JWHW existe somente  para Israel, o povo escolhido tem sua terra própria com língua e rituais próprios. Do outro lado: aqueles outros povos estariam então totalmente excluidos de JWHW?   Trata-se aqui da salvaçao particularizada (a salvação é apenas para Israel) e do universalismo da salvação (a salvação é para todos os mortais). Sobre esta última dimensão lemos por exemplo em Levítico 19, 33-34.
Lá se abre um caminho de salvação para todo o mundo com base no reconhecimento: “Quando um migrante se estabelecer convosco em vosso país, não o oprimireis. Ele será para vós como o nativo: tu o amarás como a ti mesmo, porque fostes migrantes no Egito.” O livro Êxodo é um chamamento para nos descobrir a nós mesmos. De escravidão para liberdade, de falta de consciência para consciência, de egoismo para amor, de dominar para servir.  É como canta o negro espiritual americano: When Israel was in Egyptland: let my people go(Quando Israel estava na terra dos egípcios: ‘Deixe meu povo ir embora!’ [disse o Senhor]“).
Neste percurso nasce algo que vai pertencer à essência da fé bíblica: entender a vida como um caminho que nunca termina: somos sempre migrantes. Olhe para sua própria história como povo e como indivíduo. Volte-se para seu próprio íntimo e veja como é ser um estranho e ser recebido numa casa comum.
O ponto alto e o resumo disso encontramos em Mateus 25, 35: “Eu era migrante e me acolhestes”. Somente podemos receber o migrante quando nele reconhecemos algo de nós próprios. Alguém escreveu: ´O outro, visto de longe, parece um monstro; quando me aproximo vejo que é um ser humano; quando chego mais perto ainda, descubro um irmão`.  Esta descoberta é crucial.
O rei, no último julgamento em Mateus 25,40, diz: ´o que fizestes a estes meus irmãos menores, a mim o fizestes`. O migrante se tornou irmão e irmã. Isto pode apenas acontecer se dentro de mim tiver algo que me liga ao migrante. O estranho também se encontra dentro de mim. Reconhecer isto será um estímulo para ver o parentesco: estamos todos a caminho, todos migrantes.

3.  Vincente de Paulo

Um breve recorte sobre a postura e a obra de Vicente de Paulo (1581-1660) diante dos migrantes na época.  Vicente morava em Paris. Esta cidade era uma atração para os refugiados de guerra. Vieram principalmente de Lotharíngia, mas também das demais regiões do país. Era uma migração que pedia cuidados especiais. Vicente organizava este apoio, mas sempre a partir do princípio de que não ajudar é melhor que ajudar mal. Segundo o biógrafo Jean Calvet, Vicente tinha dois mapas de trabalho. Um mapa do espírito e outro do coração. O trabalho para refugiados deve se realizar tanto a partir de conhecimento e boa organização, quanto a partir do coração. Reconheça o migrante dentro de si mesmo e olhe para ele com seu coração.

4.  Tensão entre ser simesmo e dar espaço ao outro

Relacionar-se com estrangeiros não é fácil. Veja as negociações políticas sobre quotas, a ameaça e o medo de ser atropelado pelos muçulmanos, etc. O estranho e o estrangeiro provocam dentro da gente dois sentimentos contrários: um sentimento de ficar distante e um sentimento de ser atraído. E´ assim com a gente e foi assim em tempos antigos. Está explicitado na palavra grega XENOS. O significado mostra a ambivalência  de que aqui tratamos. Xenos significa estrangeiro e hóspede, ao mesmo tempo. Estrangeiro indica o ser diferente, hóspede indica companhia. De um lado representa o desejo de ficar em si mesmo, criar um mundo protegido. De outro lado representa o desejo de abertura, aprender algo novo.
  Não é facil lidar com estes sentimentos contraditórios que percebemos. Há o impulso de buscar proteção no isolamento. Há também o impulso de buscar espaço na abertura.  Esta tensão se vê em nosso país, na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália em toda parte. Ela pertence à demarcação de limites, à construção de identidade. No nível pessoal esta tensão aparece assim: ser si mesmo e ser com os outros, isolamento e participação. A arte é lidar simultaneamente com o limite interior e o limite exterior. O limite é separação, mas também relação.
A escritora holandêsa Rosita Steenbeek escreveu em seu livrinho “Ama seus inimigos” (pag. 8): “Dureza e agressão nascem, com frequência, de medo. Segundo Buda ´a gente tem de tomar chá com seus medos`, só então está-se em condições de se abrir ao próximo. Também é importante indicar limites. E´ preciso cuidar que a gente não pode ser o salvador da pátria, ir longe demais na compaixão. Neste caso as pessoas vão abusar, o que também é prejudicial a quem recebe, pois ele vai se encostar demais no outro, prejudicando o desenvolvimento da autonomia”.
Isto é um bom exemplo da tensão entre aproximação e medo, entre boas vindas e rejeição, entre estar com o outro e continuar a ser si mesmo. Penso que esta tensão pode ser resolvida da melhor forma quando alguém conseguesersimesmo:alguém que pode ser si mesmo, sabendo que o estrangeiro mora em cada um de nós,  que todos somos migrantes, sempre a caminho e, desta forma, designados a reconhecimento e apoio mútuos.

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Tjeu van Knippenberg, holandês, padre Lazarista (padres de São Vicente de Paulo). Professor emérito de teologia da Universidade de Tilburg. Co-fundador do “Vincent de Paul Center”. Livros publicados: Tussen naam en identiteit (2000), Towards Religious Identity (2002), Existentiële zielzorg (2008).


Tradução do texto: Gil Absil – Geraldo Frencken (Fortaleza)

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